Tudo aquilo que me passa pela cabeça e outras coisas que roubei por aí.
Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
razões de força maior
Bom fim de semana. Tenham dias de luz e silêncio e façam por ser felizes, mesmo que só um bocadinho. Não se atemorizem com a chuva. Desliguem os telemóveis, esqueçam as redes sociais. Há uma vidinha para viver dentro de casa. De preferência à lareira.
publicado por Patrícia Reis às 07:37 link do post |
Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
fragilidade
Deve constar do dicionário, decerto. Deve ser uma definição sem tom, sem mágoa, completamente irrelevante no que diz respeito aos sentimentos. Deve ser uma merda.
publicado por Patrícia Reis às 14:45 link do post |
Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
o desafio de Miguel Carvalho
Explica o Miguel no seu blogue: "A pergunta que dá título a este post era o ponto de partida do desafio que lancei há dias aos bloggers que costumam seguir “A Devida Comédia”. O objectivo era que enviassem textos que partissem dessa ideia, sem qualquer imposição de estilo a não ser aquele que vos ditasse a real gana. Pois bem: chegaram já vários textos, inspirados. O primeiro é publicado hoje e nos próximos dias outros se seguirão. As fotos ou imagens que ilustram as palavras são da minha inteira responsabilidade. O tempo, entretanto, não acabou. E podem continuar a enviá-los para adevidacomedia@gmail.com. Afinal, ainda há futuros como antigamente?"
Não estás feliz?
Olha, não sei, as coisas acontecem apenas e temos de as enfrentar. Como num tribunal, as acusações nos olhos de terceiros, a garganta seca, a culpa, a maldita culpa a castigar tudo e todos. Não há espaço para mais nada, não voltarei a ser criança nos teus braços.
Cometo erros por falta de tranquilidade. O que é a tranquilidade? O nosso mundo está partido aos pedaços, tem brechas brutais que se agravam a cada hora de um relógio que não nos pertence. Estamos em colisão, em extinção, ameaçados. Relacionar-se-á com amor? Duvido. O amor morre de repente. Quando damos por isso, foi-se. Partiu numa direcção estranha e desconhecida. O nosso amor é agora o amor de outros, cumpre a sua função, deixou um vazio, mas preenche as necessidades de quem vive, neste minuto, o momento da excitação de descobrir outro, qualquer outro que seja.
Por esta altura, julgaras que me desfaço nas palavras, que as atiro contra a folha do computador apenas num acaso, a ver se formulo um pensamento, um desvario. Estou sossegada, sabes, porque os dedos correm no teclado sem grande pressa e sinto-me despegada de tudo, sobretudo das palavras que te deixo hoje, na noite de natal.
Tu visitas a tua mãe e eu, a pretexto de um trabalho que não terminará nunca, deixei-me estar aqui. Não faz frio. Há um silêncio de Inverno, porém confortável. Vejo os candeeiros desligados, as mesas de trabalho, os estiradores, as maquetas tridimensionais, edifícios por construir. Os arquitectos têm uma expressão – fazer cidade – e é fácil de entender que o ambicionam, embora seja altamente duvidável que o consigam concretizar. Seja como for, sou apenas uma desenhadora. Muito boa, dizem. Pouco importa. Gosto das linhas e do desenho preciso, dos cálculos matemáticos que colocam todas as questões numa qualquer ordem. Preciso disso, dou-me mal no caos.
Há um abismo que me atemoriza primeiro. Depois chego, como hoje, à indiferença. É o pior dos sentimentos porque não leva a qualquer espécie de emoção, de tristeza ou de ruptura. Ficas como que dormente depois de teres tomado uma decisão. Basta comunicá-la e está tudo resolvido.
Não verei as estrelas contigo na noite de fim de ano. Perdoa-me. O mundo não me ama e eu tão pouco te amo. O amor fugiu, escapou. Estou a repetir a mesma ideia, já sei. Perdoa-me, mas a coerência nunca foi o meu forte. Sabes que sonho em viajar no espaço? Não numa nave, não, nada disso, nada de tão sofisticado. Sonho que voo baixinho e sinto a relva com as pontas dos dedos, que posso subir e ver as janelas dos prédios mais altos, a vida das pessoas, que atravesso nuvens e me junto ao ballet acertado do bando de aves migratórias, sabedoras de coisas sobre o tempo e o vento. Não me importava de ficar assim, uma ave humana perdida num bando. Tem algo de poético ou de ridículo, ainda não decidi. Há muitas coisas sobre as quais ainda não decidi. Outras, porém, tenho-as com a certeza esmagadora de uma inevitabilidade biológica. Acredito que Jesus sabia estas coisas. As fantasias à sua volta são apenas isso: fantasias. Jesus sabia sobre o amor e a sua fuga e quis avisar-nos. Ouvimos? Não. Estamos sempre muito ocupados e há dois mil e tal anos já estávamos a cumprir uma qualquer azáfama. Não queres saber de Jesus. Compreendo. Lembrei-me por ser natal, sabes. A coisa do menino Jesus nas palhinhas e tal. Desculpa. Sim, é um pouco lamechas, mas o que queres? Podemos conversar sobre o logótipo da cristandade, inventado no século IV? A cruz, o melhor logótipo do mundo. Não? Certo. Estou a desconversar.
Posso pegar na mala, ligar o alarme, sair para a avenida deserta, ver as janelas iluminadas e imaginar as famílias. Sabes o que eu queria? Queria um filho, já to disse e não me valeu de grande coisa. As tuas prioridades, as minhas prioridades, o dinheiro, a condição de vida, a saúde, o aquecimento global, a paz no mundo, tudo o que teima em falhar. Se pensares bem é sempre a mesma história: começamos por querer o mesmo e depois seguimos trilhos distintos, como índios especialistas em pegadas e coisas assim, cada um a desvendar o seu mistério, o respectivo segredo.
Não me digas nada.
Quando chegares a casa não terás nada meu, nem uma peça de roupa, um livro, um quadro. Deixei-te o gato, porque… enfim, é uma companhia e vais precisar por seres tu o abandonado. Essa maldade – “ela levou-me o gato” – não a quero em cima da minha cabeça. Desculpa. Precisas de comprar areia e comprimidos para desparasitar, está na altura. O gato deve ter percebido tudo porque escapou às minhas festas com um certo desdém. Não faz mal. Eu até sou alérgica ao pêlo, era um esforço por amor. Seja lá isso o que for. Sabes o que é? Eu não. Já soube. Agora não.
Deixo-me estar quieta no meu canto e não digo nada, o meu corpo não se movimenta na direcção certa, pouco me importa que não me apreciem ou que o façam com excesso. Estou a salvo. Sobrevivi a tudo e estou imune. Mesmo a gripe A não me pode apanhar. É como o espírito de natal. Dentro do meu carro, com as coisas amontoadas na bagageira, sinto-me livre de obrigações. Se tivesse um filho, repara, seria diferente. Não tenho, ou melhor, não temos, por isso desejo-te um feliz natal e um 2010 extraordinário. Eu irei encontrar um bando para voar baixinho. E, mesmo que fique sozinha, posso sempre encarar o vazio do meu corpo e culpar-me inteiramente. Pouco ou nada sobrará para ti.
Não estás feliz?
(a foto é de Elsa Mota Gomes)
publicado por Patrícia Reis às 18:12 link do post |
Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
O poder das listas, por Umberto Eco
Entrevistadores: Susanne Beyer e Lothar Gorris
O escritor e semioticista italiano Umberto Eco, curador de uma nova exposição no Louvre em Paris, falou à "Spiegel" sobre o lugar que as listas ocupam na história da cultura, as formas pelas quais tentamos evitar pensar na morte e por que o Google é perigoso para os jovens.
Mudanças "Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota", conclui Umberto Eco
Spiegel: S o senhor é considerado um dos grandes acadêmicos do mundo, e agora está inaugurando uma exibição no Louvre, um dos museus mais importantes do mundo. Entretanto, os temas de sua mostra soam um pouco lugar-comum: a natureza essencial das listas, poetas que listam coisas em seus trabalhos e pintores que acumulam coisas em suas pinturas. Por que você escolheu esses temas?
Umberto Eco:
A lista é a origem da cultura. Ela faz parte da história da arte e da literatura. O que a cultura quer? Tornar a infinitude compreensível. Ela também quer criar ordem - nem sempre, mas com frequência. E como, enquanto seres humanos, lidamos com a infinitude? Como é possível entender o incompreensível? Através de listas, através de catálogos, através de coleções em museus e através de enciclopédias e dicionários. Há uma atração em enumerar com quantas mulheres Don Giovanni dormiu: foram 2.063 pelo menos, de acordo com o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte. Nós também temos listas totalmente práticas - listas de compras, testamentos, cardápios - que, a seu modo, também são conquistas culturais.
Spiegel: A pessoa aculturada deveria então ser vista como um zelador tentando impor a ordem em lugares onde o caos prevalece?
Eco:
A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você olhe na história da cultura, encontrará listas. Na verdade, há uma variedade atordoante: listas de santos, exércitos e plantas medicinais, ou de tesouros e títulos de livros. Pense nas coleções sobre a natureza do século 16. Meus livros, a propósito, são cheios de listas.
Spiegel: Contadores fazem listas, mas também podemos encontrá-las nas obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.
Eco:
Sim. Mas eles, é claro, não são contadores. Em "Ulysses", James Joyce descreve como seu protagonista, Leopold Bloom, abre suas gavetas e tudo o que ele encontra dentro delas. Vejo isso como uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou veja Homero, por exemplo. Na "Ilíada", ele tenta transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro ele usa metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma montanha e sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho de suas armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Ele não consegue encontrar a metáfora certa, então implora às musas para que o ajudem. Então ele chega à ideia de listar os nomes de muitos, muitos generais e seus navios.
Spiegel: Mas, ao fazer isso, ele não se desvia da poesia?
Eco:
A princípio, pensamos que uma lista é algo primitivo e típico das primeiras culturas, que não tinham um conceito exato do universo e que, portanto, eram limitadas a listar as características que podiam nomear. Mas, na história cultural, a lista prevaleceu ao longo do tempo. Ela não é, de forma alguma, uma mera expressão das culturas primitivas. Uma nova visão de mundo baseada na astronomia predominou durante o Renascimento e o período barroco. E havia listas. E a lista com certeza impera na era pós-moderna. Ela tem uma mágica irresistível.
Spiegel: Mas por que Homero lista todos aqueles guerreiros e seus navios, se sabe que nunca será capaz de citar todos eles?
Eco:
O trabalho de Homero se depara constantemente com o tópos do inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre fomos fascinados pelo espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. Como uma pessoa se sente olhando para o céu? Ela acredita que sua língua não é suficiente para descrever o que vê. Os amantes estão na mesma posição. Eles experimentam uma deficiência de linguagem, uma falta de palavras para expressar seus sentimentos. Mas os amantes tentam parar de fazer isso? Eles criam listas: seus olhos são tão belos, assim como sua boca, e a sua clavícula... As pessoas podem entrar em grandes detalhes.
Spiegel: Por que nós perdemos tanto tempo tentando concluir coisas que não podem ser realisticamente concluídas?
Eco:
Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer.
"As pessoas têm suas preferências"
Spiegel: Em sua mostra no Louvre, você também mostra obras das artes visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou limites, e elas não podem mostrar mais do que de fato mostram.
Eco:
Pelo contrário, o motivo pelo qual gostamos tanto delas é que acreditamos que somos capazes de ver mais do que elas mostram. Uma pessoa contemplando uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver que coisas estão à esquerda e à direita da tela. Esse tipo de pintura é verdadeiramente uma lista, um recorte da infinitude.
Spiegel: Por que as listas e as acumulações são particularmente importantes para você?
Eco:
As pessoas do Louvre me procuraram e perguntaram se eu gostaria de ser o curador de uma exibição no museu, e pediram para que eu elaborasse uma programação de eventos. Só a ideia de trabalhar num museu já era sedutora para mim. Estive lá sozinho recentemente, e me senti como um personagem num livro de Dan Brown. Fiquei ao mesmo tempo assustado e maravilhado. Percebi imediatamente que a exibição teria como tema as listas. Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou pedofilia. As pessoas têm suas preferências.
Spiegel: Ainda assim, você é famoso por ser capaz de explicar suas paixões...
Eco:
? mas não por falar sobre mim mesmo. Veja, desde a época de Aristóteles tentamos definir as coisas baseadas em sua essência. A definição do homem? Um animal que age de forma deliberada. Agora, levou 80 anos para os naturalistas conseguirem elaborar a definição de um ornitorrinco. Eles acharam infinitamente difícil descrever a essência desse animal. Ele vive na água e na terra; bota ovos, e apesar disso é um mamífero. Então com que se parece essa definição? É uma lista, uma lista de características.
Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.
Eco:
Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada à lista.
Spiegel: Pode parecer que você está dizendo que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.
Eco:
Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.
Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você.
Eco:
Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.
Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles deveriam fazer isso?
Eco:
A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos porque uma pintura era boa em termos teóricos, mas eles faziam isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com isso, mas ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros.
Spiegel: Você tem uma tendência maior a trabalhar com livros, e tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Ela provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.
Eco:
Acredito que, agora, ela tenha na verdade 50 mil livros. Quando minha secretária quis catalogá-la, pedi que ela não o fizesse. Meu interesse muda constantemente, assim como minha biblioteca. A propósito, se você muda constantemente de interesses, sua biblioteca constantemente dirá algo diferente sobre você. Além disso, mesmo sem um catálogo, sou obrigado a me lembrar dos meus livros. Tenho um corredor para literatura com 70 metros de comprimento. Ando por ele várias vezes por dia, e me sinto bem ao fazer isso. A cultura não é saber quando Napoleão morreu. Cultura significa saber como posso descobrir isso em dois minutos. É claro, hoje em dia posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos tempo. Mas, como eu disse, nunca se pode ter certeza com a internet.
Spiegel: Você inclui uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes em seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele lista as coisas de que mais gosta e as coisas de que não gosta. Ele adora salada, canela, queijo e especiarias. Ele não gosta de motoqueiros, mulheres com calças compridas, gerânios, morangos e cravo [instrumento musical]. E você?
Eco:
Eu seria um tolo se respondesse a isso; estaria me fechando numa definição. Eu era fascinado por Stendhal aos 13 e por Thomas Mann aos 15 e, aos 16, eu adorava Chopin. Então passei a minha vida inteira tentando conhecer o resto. Agora, Chopin está no topo novamente. Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota.
Tradução: Eloise De Vylder
Entrevista ao jornal Der Spiegel, publicada no Uol Notícias/ Brasil
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O desacordo em discussão no Rio de Janeiro no Real Gabinete Português de Leitura
publicado por Patrícia Reis às 19:58 link do post |
Crónica: A vacina, sem favor
Olha, eu quero tomar a vacina da gripe A, não quero cá mais conversas, o senhor é o médico, eu compreendo, mas eu estou com uma depressão que é uma coisa que muita gente tem, também sei disso, a verdade é que me morreu a minha mãe, até o gato se suicidou na semana passada, devia ser a ausência da minha mãe, estou convencida disso, e agora o meu ex marido acha que precisa de voltar para casa, a última ressonância magnética que fiz mostra que tenho duas hérnias, uma na L4, outra na L5, uma delas é muito grande, toca na medula que por sua vez ataca no nervo da ciática e só eu sei as dores que tenho e, por isso, lhe digo que quero tomar a vacina, quero lá saber que o Governo não me considere um grupo de risco, eu sei que se não tomar a porcaria da vacina vou apanhar essa coisa, que chegará cá a Portugal depois de ter corrido a Europa e, claro, chegará muito mais forte, porque estas coisas são sempre assim, ando há cinquenta anos nesta vidinha, sei muito bem como é que as coisas se passam e o senhor doutor, que é novo e leu os livros certos, deve julgar que eu não passo de uma tonta, terá a sua razão, não me importo nada de ser tonta, mas quero a vacina, lá isso quero, porque não tenho cá tempo para ficar mais doente ainda, acordo todos os dias pelas quatro da manhã, limpo seis escritórios ainda o senhor doutor não tirou o rabo do vale dos lençóis, ando a fazer isto há muito tempo, é o que é, e não posso ficar doente, porque a seis euros à hora não me restam muitas oportunidades, compreende de certeza o que estou a tentar dizer-lhe, isto não parece muito grave agora, mas eu vejo as noticias, tenho duas televisões, uma na cozinha enquanto faço o comer e outra na sala que divido com uma vizinha, não é bem uma sala, digamos que faz as vezes de sala, até temos uma cortina na janela, parece muito pouco, está o senhor a pensar, deixe lá isso, não se ponha aí cheio de pena de mim, eu só quero a vacina e não se fala mais nisso, fiz-me compreender ou quer que volte ao princípio?
(Crónica publicada no Semanário Económico dia 14 de Novembro)
publicado por Patrícia Reis às 00:01 link do post |
Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
fim de semana
Volto na segunda. Tenham dias felizes.
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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
i fear if I stay still for too long I'll no longer move
publicado por Patrícia Reis às 21:12 link do post |
Oiçam
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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Novo livro no Brasil
E aqui está ele, um livro lusófono, um livro de autores portugueses, angolanos, brasileiros, moçambicanos e outros. Não se trata se um livro sobre o desacordo ortográfico, o título é, se quiserem, apenas uma provocação. No seu interior estão contos, contos na melhor das línguas: a nossa com todas as variantes e riquezas. Um dia destes, o livro cá estará nos nossos escaparates. Até lá, quem for ao Brasil, dê uma espreitadela e veja se não vale mesmo a pena trazer um mão cheia de autores para casa e viajar na escrita distinta de cada um. A ideia é de Reginaldo Pujol. Bem haja.
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Poema de Fernando Pessoa, sem título, 1933
Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Adeus Luís
Luís, hoje quando decidiste não acordar acho que estavas no teu direito, mas ficámos tristes. Talvez sonhasses com um pôr de sol como este, lá longe, no Quebec. Tinhas 85 anos, calculo. Uma família numerosa que te adorava e eras uma pessoa extraordinária. Um dia contaste-me da guerra, do campo na Sibéria, de se ser alemão mas não nazi, daqueles que chegavam e que tu já sabias que não iam durar; de como maço de malboro foi um dos primeiros sinais de civilização que vislumbraste depois de deixares o frio do campo. Também havia aquela história de estares febril e teres dado um valente murro à Manuela, a tua pobre mulher que apenas tentava acordar-te de um sonho mau. Ficou com os dentes partidos. Eras tio do Herman e possuías o triplo da graça. Eras verdadeiramente um senhor cheio de humor.
Decidiste ir embora no dia em que morreu a tua primeira mulher. Para alguns pode parecer estranho, eu acho que é bonito.
Os teus sete filhos aprenderam muito contigo. Quem teve o privilégio de te conhecer também, por isso, bem hajas, Luis, bem hajas. Um beijo P
publicado por Patrícia Reis às 16:49 link do post |
Crónica: a criança
A criança disse que não queria crescer, que queria voltar para dentro da barriga da mãe com a playstation por companhia. A mãe pensou que crescer era uma inevitabilidade biológica, mas não disse nada, em vez disso abraçou a criança com ternura e disse-lhe: Há tantas coisas para aprenderes e para fazeres, dentro da minha barriga deve ser muito aborrecido. Mesmo com playstation. A criança aninhou-se e acabou por adormecer. A mãe ficou ali a vê-la sozinha. Deixar um filho seguir o seu caminho é das coisas mais difíceis que há, tinha-lhe dito a mãe. Não acreditara, claro, mas agora? Agora as coisas desenhavam-se de outra forma. A criança estava cada vez mais autónoma, mais pronta para seguir o seu trilho. A mãe ficaria ali a vê-la, sempre pronta para a abraçar, quando quisesse ser abraçada. A mãe deixaria de ser, ao fim de uma década, de ser a mãe para recuperar a sua identidade. Ter um nome, uma função, e uma série de projectos e sonhos. A verdade é que já não sabia nada disso. Vivia na mentira de que um dia seria ela outra vez, mas o que queria mesmo era ser mãe eterna com uma criança pequena a pegar-lhe na manga da camisa, reclamando atenção, colo, bolos e cuidados. O que seria dela agora? Interrogava-se sobre isto a ver a criança dormir e sentiu o corpo a mirrar, o coração descompassado, arritmias teimosas e duradouras. Ter um filho é ter o coração fora do corpo. Teria de conceber um projecto, desenhá-lo de forma eficaz e certeira de forma a não se enforcar numa ideia sem destino ou futuro. Teria de saber que passos seguir agora que ficaria sozinha, a sua utilidade diminuída, a sua missão esgotada parcialmente. Podia, por fim, fazer o curso de teatro, inscrever-se na faculdade no programa de maiores de vinte e três anos. Podia arranjar um amante. Podia, podia, podia... uma série de coisas. Largar a pele como uma cobra e deixar de ser mãe a cem por cento para ser apenas uma mãe a part-time. Não por opção, mas por necessidade da criança. Dez anos depois era o começo de uma aventura. Nada lhe pareceu mais estranho. Nessa noite não dormiu.
(Crónica publicada a 7 de Novembro de 2010 no Semanário Económico)
publicado por Patrícia Reis às 00:07 link do post |
Domingo, 8 de Novembro de 2009
José Eduardo Agualusa e Mia Couto condecorados pelo Lulla!
Dia 25 de Novembro Mia Couto e José Eduardo Agualusa serão condecorados pelo presidente Lula! Passarão a ser comendadores! De mérito cultural! Ora toma.
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Sábado, 7 de Novembro de 2009
eu em pensamentos durante o dia
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Humble me
Went out on a limb
Gone too far
Broken down at the side of the road
Stranded at the outskirts and sun's creepin' up
Baby's in the backseat
Still fast asleep
Dreamin' of better days
I don't want to call you but you're all i have to turn to
What do you say
When it's all gone away?
Baby i didn't mean to hurt you
Truth spoke in whispers will tear you apart
No matter how hard you resist it
It never rains when you want it to
You humble me Lord
Humble me Lord
I'm on my knees empty
You humble me Lord
You humble me Lord
Please, please, please forgive me
Baby Teresa got your eyes
I see you all the time
When she asks about her daddy
I never know what to say
Heard you kicked the bottle
And helped to build the church
You carry an honest wage
Is it true you have someone keeping you company?
What do you say
When its all gone away?
Baby i didn't meant to hurt you
Truth spoke in whispers will tear you apart
No matter how hard you resist it
It never rains when you want it to
You humble me Lord
Humble me Lord
I'm on me knees empty
You humble me Lord
You humble me Lord
Please, please, please forgive me
publicado por Patrícia Reis às 10:08 link do post |
Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Depois de tudo
Depois de tudo, a mulher chegou ao carro como quem chega a casa. O carro tornara-se a sua prisão, a sua casa, a sua protecção. Por momentos, colocou o telemóvel, novo, pesado, no silêncio. Respirou fundo. Dez vezes. Repetiu as palavras de um mantra de amor e compaixão. Respirou fundo e rodou a chave na ignição. Naquele momento, tomou várias decisões, sendo que a primeira seria despistar-se com aparato contra as obras do rio, terminando com a cabeça no vidro da frente, inundada de esperança de ter desaparecido de vez.
publicado por Patrícia Reis às 00:53 link do post |
Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
e agora?
Agora eu ando nesta montanha russa e um dia vou cair, cair cair... Ainda estás aí?
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Mente brilhante
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Nightbook
Para sonhar com ouvidos bem abertos. O espectáculo no CCB foi maravilhoso. O trabalho de luzes assombroso, de uma elegância tremenda. Fazia falta uma sala mais composta, porém, lá diz o povo: poucos mas bons.
publicado por Patrícia Reis às 00:31 link do post |