Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

sexta-feira

Cinco e quarenta e cinco da manhã, o despertador não tem função, a mulher está acordada há horas. Avança para a casa de banho, ciente de que o comboio partirá às sete e cinco, com ela ou sem ela. Despacha-se, faz o percurso a pé até à gare, encontra-se com outra mulher, mantêm a boa disposição e vão. Fazem o que é preciso, uma reunião, esclarecimentos, dúvidas e ideias. Regressam de comboio, despedem-se, são cinco da tarde. Quarenta e cinco minutos depois, a mulher entra no cabeleireiro e, às oito e meia da noite atravessa o lobby de um hotel no centro da cidade. É uma festa e ela está a morrer e ninguém imagina. Sorri e cumoprimenta, permanece alerta, um despertador interior. Quando chega a casa, não sente os pés, as costas, e a cabeça - ao contrário - estala e lateja e protesta. A mulher toma um comprimido. Apaga a luz.

publicado por Patrícia Reis às 23:50
link do post | comentar
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016

quinta-feira

O miúdo apareceu elegante, de cuecas e colar, sem meias, e espantou-a com boa disposição. A mulher encolheu-se numa gestão de silêncio que lhe pareceu eficaz: se não dissesse nada podiam ser felizes por momentos e isso era tudo o que existia. O resto do mundo estava cheia de equívocos, porque pensar e dizer e sentir são uma grande tarefa. Não é para todos.

publicado por Patrícia Reis às 19:22
link do post | comentar
Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016

quarta-feira

Há um espelho de corpo inteiro que a encara desconfiado. Seria prudente evitá-lo, é o que a mulher pensa, mas persiste na posição, o corpo inclinado para tentar aliviar as costas, as mãos nos joelhos, os pés descalços bem fincados no chão. Fecha os olhos e consegue ver-se, uma repetição do espelho dentro dela e ela em duplicado: aquilo que é e a imagem que tem de si devolvida pela superfície prata. A mulher convence-se que está a enlouquecer.

publicado por Patrícia Reis às 19:24
link do post | comentar
Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

segunda-feira

O miúdo arrasta as muletas com um sentido grave, frágil, ciente de que não sabe fazer isto de andar com quatro pés e um deles estragado, triste e caído. O miúdo dirá, zangado com o mundo, com o a traição do seu corpo, que todos os verões fica doente, que não é justo. Seria muito melhor se fosse em tempo de aulas. A mulher sublinha que o começo das aulas já se deu. O miúdo atira as muletas para o chão e deixa-se cair na cama. Ah, o mundo não é justo.

publicado por Patrícia Reis às 18:32
link do post | comentar
Domingo, 18 de Setembro de 2016

domingo

Estou a engolir a madrugada sem velocidade, como uma menina que não gosta da sopa, e nada avança, é o que a mulher pensa enquanto prossegue num trabalho que, afinal, não lhe dará nada de mais, nada de novo. Alguém lhe disse que só existem três razões para aceitar um trabalho: por prazer, por dinheiro, por notoriedade. Não sendo o caso, a mulher veste-se de vergonha e percebe que a estupidez é só sua e apenas sua. Se lhe fosse possível gritava, mas depois das dez da noite não se pode fazer barulho.

publicado por Patrícia Reis às 01:37
link do post | comentar | ver comentários (1)
Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016

sexta-feira

E o silêncio fez-se quase líquido e era apenas o cansaço, a mulher procurou levantar-se devagar e, em frente ao espelho, ignorou o reflexo, as lágrimas e decidiu que sendo sexta-feira, o melhor era colocar alguma maquilhagem. Sim, a sua vida de artista de 360 graus permite-lhe quase tudo, até a ousadia de um baton vermelho.

publicado por Patrícia Reis às 21:25
link do post | comentar
Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

quinta-feira

O homem era gentil. Atara à cadeira de madeira do restaurante um lenço de seda que, mais tarde, seria cobra no pescoço a proteger do frio. Falou com entusiasmo, falou demais, disse-o a certa altura, e a mulher ouviu. Ouviu com gosto e atenção para lhe apanhar as manhas, as hesitações. Espicaçou uma ou outra ideia e ele foi, ligeiro, pela vida a dentro. No princípio da noite, a mulher pensou que sim, tinha muitas perguntas para fazer.

publicado por Patrícia Reis às 22:41
link do post | comentar
Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

terça-feira

A mulher sentiu o pânico aproximar-se como um animal rastejante, pré-histórico, sobrevivente de tudo e de todos, dominador, brutal, capaz de engolir sabedoria e razão, exercícios lógicos e afins. A mulher multiplicou em voz baixa a ideia que iria desfazer o pânico a caminho

 

É só uma entrevista, é só uma entrevista, é só uma entrevista...

 

O pânico não se atemorizou com o mantra proteccional, fez de conta que seria possível desviar-se, ir à sua vida, e depois, triunfante, apoderou-se da mulher. Nada a fazer.

publicado por Patrícia Reis às 13:47
link do post | comentar
Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

segunda-feira

A mulher estava a tomar café, um pouco ausente, estado próprio da segunda-feira. A senhora chegou com um saco da Zara cheio de roupa. Pediu um café e depois, com alguma hesitação, uma queijada. E disse

 

Pois, vou comer uma queijada, não quero ter de responder, daqui a dez anos, que estive dez anos a fazer dieta. Não é a memória que quero de mim.

publicado por Patrícia Reis às 18:13
link do post | comentar
Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016

sexta-feira

A mulher percebeu que a semana correrá sem espaço para grande respiração. Olhou para o livro na mesa de cabeceira e pensou no atrasada que está para tudo. A vida aos pedaços é sempre mais estranha, impossível de entender. A mulher viu o pequeno filme de Milos Forman sobre uma putativa arte de fumar um charro e suspirou. Não fumava um charro há mais de vinte e cinco anos. Era uma coisa que lhe dava para chorar e ela não estava para choros. Há vinte e cinco anos que se mantinha seca.

publicado por Patrícia Reis às 11:10
link do post | comentar
Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016

quarta-feira

Os intestinos são o segundo cérebro.

 

Uma mulher, cabelo curto, voz estridente, a comer rolos de couve com tufo, disse a frase alto e bom som, o restaurante sofreu um ligeiro sobressalto e tudo continuou como estava.

publicado por Patrícia Reis às 16:56
link do post | comentar
Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016

segunda-feira

O miúdo mordeu o lábio e tirou um bife ao polegar, o que provocou sangue que ele lambeu com sofreguidão. A dentista sorriu-lhe e ele foi incapaz. A coisa recomeçou. A mulher, sentada na cadeira, a ver o filho de boca aberta antecipou o ataque de mau humor, a grande desgraça, aquele gesto medonho de bufar e encolher os ombros, um manual de expressão corporal hostil que, obviamente, é destinado a ela e apenas a ela. Ser mãe é isto. Também é isto, reconsiderou vendo a seringa aproximar-se da boca do filho. Fechou os olhos. Dois sisos. Faltam outros dois. Daqui a duas semanas estarão de volta. A mulher suspira. O dedo sangra abundamente e há um pingo no chão. Ninguém repara.

publicado por Patrícia Reis às 16:26
link do post | comentar
Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

sexta-feira

Parecia que o barulho da ventoinha queria dizer alguma coisa, era um sussurro contínuo, sem distorção, talvez fosse uma mensagem. A mulher manteve-se quieta, a capturar o vento, a decifrar a mensagem. O silêncio durou dois minutos. De repente, a sala encheu-se de pessoas, de ruídos, de outros calores. A frase que a ventoinha tentava fazer passar perdeu-se.

publicado por Patrícia Reis às 16:45
link do post | comentar
Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

quinta-feira

A mulher sentou-se a  ver as tartarugas ninja. A televisão voltou-a aos anos 90, as cores, as roupas, um filme tão pobrezinho. Mas são as tartarugas. Um clássico, convenceu-se. Ao fim de 20 minutos optou por ver um documentário sobre Nora Ephorn, a escritora, argumentista, ela que disse que bacon seria o que mais falta lhe faria depois de morta. A mulher ficou a pensar nisso. Apeteceu-lhe um gelado. Para ela será um gelado. Haverá no céu gelados com sabores estranhos? Depois a porta abriu-se e a cena mudou e ela preferiu não pensar mais em morrer, em filmes com a meg ryan, no nomes das tartarugas ou no tempo.

publicado por Patrícia Reis às 23:38
link do post | comentar
Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016

quarta-feira

O barulho das obras dura há anos. É contínuo e parece-lhe viver num estaleiro. De repente, a cama pode tombar com excesso de fuligem, ou mergulhar em cimento. Ainda está naquela fase em que o sono domina, mas são oito da manhã e as obras começaram na casa ao lado, na casa de cima, no prédio da frente ou simplesmente na cabeça da mulher que, enjoada, coberta de pó, com as mãos gretadas, tenta sair da cama e não consegue. Há um enjoo que permanece, antigo. Ignora o espelho na casa de banho e procura consolo na água que escorre sem grande pressão. Fecha os olhos e imagina a negritude da água, restos no esgoto, mais um destroço colateral da obra. A mulher pensa

Sou responsável pelos meus actos e pouco mais.

 

publicado por Patrícia Reis às 21:00
link do post | comentar

por este mundo acima_

Por este mundo acima

pesquisar neste blog_

 

arquivos_

Os Livros_

Clique na imagem

para comprar o livro.




















subscrever feeds