Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016

Se tudo fosse como tu

  1. aleggro

Quando o teu corpo, como uma sonata, se mexeu, contei os quatro movimentos e pensei em Mahler. Não perguntes porquê. Talvez por causa de Alma e de Freud. Não sabes a história. Pouco importa. Ou, na verdade, importa. Mahler amava a mulher e era traído. Freud conversava com o compositor e fumava. À época, Mahler escrevia a sinfonia a que nunca quis chamar nona, baptizando assim a obra de poema sinfónico. Parece existir uma superstição qualquer, mas sobre isso nada sei. Não, espera, sei: há uma série de mortes de músicos depois da composição de nonas sinfonias. Parece estranho, porque Mahler deixou a décima por terminar, embora tenha a Canção da Terra que, para todos os efeitos, se apresenta com a estrutura de uma sinfonia. O compositor a brincar com o destino? Sim. Pode ser. A imaginação aliada ao receio constrói o que quer, até o inesperado. Tu gostas de Mahler? Sofria. Por ter qualquer coisa no coração, uma corda partida. A mulher. Uma mulher é uma coisa, a mulher é outra.

Foi em tudo isto que pensei quando te vi mexer no assento e na forma como te podia desenhar: virado para a frente, a mão no pacote de cigarros, o olhar para o lado como quem prepara a frase e, depois, o corpo que se encostou à cadeira. Eu estava com vinte e dois anos. Tinha estado entretida. Havia uma música de Natal que ocupava a minha cabeça, mas como tenho sempre uma música na cabeça, não era uma surpresa.

O que me surpreendeu foi o movimento do teu corpo, essa melodia escondida, depois a voz, o vocabulário e, mais tarde, os textos como escalas, andamentos dentro dos movimentos. Um rendilhar de palavras que compõem, ainda agora, toda a ideia que consegues dividir pela matemática. Espera. Oiçamos o rondó. Movimentos lentos ficam-te bem, já te disse? E eu preciso da lentidão para pensar, para desenhar melhor, apesar de viver numa vertigem que ninguém parece conter ou conseguir parar. Acredito que a culpa seja minha. Nunca pedi para ser parada.

Se tudo não fosse impresso ao som da música talvez o meu corpo quisesse esse sossego que vejo nos outros, uma certa calma, um estar sem fazer. Imaginas o que seria um mundo sem música? A tristeza seria maior, um lago escuro que nos engoliria sem piedade. A música confere-nos a humanidade de nos conseguirmos transcender. A possibilidade existe. Pensa em Bach. Todas as suas composições têm, como interlocutor, o invisível, a fé, aquela ideia de que Deus está e, por isso, o mundo será menos exigente. Sim, menos exigente foi o que disse. Mahler acreditava num outro Deus. Ser judeu não é o mesmo que ser católico.

À tua frente, ainda sem saber nada do cheiro, toque, ou palavras de ordem, respirei fundo. Talvez não te recordes, o prédio ao lado estava em obras e, no frio de Dezembro, o ruído das máquinas era insuportável. Observava o fumo do teu cigarro a correr na direcção da janela. Sentia o corpo a gelar. Foi então que perguntei

 

Sabe quem eu sou?

 

            Era uma questão retórica. Fiquei presa nela. E quem sou? A rapariga-rapaz que não quer ser vista e que, quando desenha, ouve música dentro da cabeça e quando sobe e desce escadas ouve música e não sabe nada de música e não tem sequer um piano, mas consegue distinguir as Suites de Bach? Estava nessa fase obsessiva relativamente à música. Tinha convicções muito veementes sobre a importância de Haydn e a sobrevalorização de Mozart. Uma heresia, dirás.

Eu era a rapariga à tua frente, a contabilizar os gestos do teu corpo, o fumo, a ouvir a tal música e o ruído das máquinas. E era ainda a tua amante. Sim, de forma espontânea. Tu não viste. Eu? Vi como o meu corpo se encaixaria no teu e podias fazer os quatro movimentos agarrado a mim. Senti a perplexidade do momento, uma certa vergonha. O corpo tem ordens suas, apenas suas, e a cabeça, bom, a cabeça não tem ordem e pode imaginar o que conseguir e eu estava ali, sem saber ao que ia, a fazer amor contigo. Conseguiste imaginar o meu corpo no teu?

       O tempo demora o que precisa, a não ser que seja Natal, um tempo que nos obrigamos a viver dentro de tradições inquestionáveis. Nesse ano, não o sabes, mas posso contar, liguei à minha mãe e, alegando qualquer coisa que ela soube de imediato ser mentira, escapei aos rituais, à família. Apesar da surpresa, como é habitual na minha mãe, perguntou

 

E precisas de alguma coisa?

 

E eu que não, nada. No dia seguinte começariam os saldos, disse. Tive esse ímpeto de humor idiota. Ela tentou rir. Alguém a chamou. Lembro-me de ter sentido um arrependimento inesperado só por ouvir o nome da minha mãe, mas não mudei de ideias. A casa estava gelada, andei o resto da noite abraçada a uma manta. Preparei um chá. Da janela vi os diferentes natais das pessoas do prédio da frente. Não me senti triste, apenas aliviada. O teu rosto tinha sido eliminado com a conversa da véspera. No presépio, instalado numa prateleira, um presépio de linhas modernas, ninguém me olhava. Era Natal e estava sozinha.

 

 

  1. andante

Um ano depois, o Natal pareceu-me outra coisa. O aeroporto de Paris, Charles de Gaulle, às seis e meia da tarde, estava cheio. Sentia-me uma liliputiana a ser atropelada por malas e tróleis, crianças e mulheres de burka. Um Pai Natal gigante com uma sineta rompia o ruído do mundo para nos lembrar: é dezembro, temos de ser melhores em dezembro. É dezembro, temos de ser melhores em dezembro.

 

Paris?

Gosto tanto de Paris.

A melhor cidade quando se está apaixonado, a pior quando não se está.

 

            E depois o bilhete em cima da minha mesa e uma folha quadrada a dizer

 

Chego amanhã, às 18h30, Charles de Gaulle.

 

            Fui. Obediente. Por total fascínio em antever o que sabia certo e, ao mesmo tempo, para entender o que te motivava a este encontro. Eu só vira tudo o que havia para ver de Godard e tinha uma colecção já vasta sobre escultura francesa, em especial Rodin e Camille Claudel. Coleccionava. Para saber, na presunção de que a cultura geral é o que nos dá riqueza, que o dinheiro não é nada. Não vale nada. Tu tens do dinheiro uma outra ideia. Nenhum número constitui um mistério para ti e, para alguém como eu, alguém que não sabe balançar na lógica dos números, só os entende na música, o dinheiro parecia-me excessivo e, por isso, disse

 

Não precisamos desse restaurante. Vamos a um bistro.

 

            Dessa vez, o obediente foste tu. Eu não podia entrar num restaurante como esses que conheces. Tinha umas calças de ganga, duas camisas, uma t-shirt, um casaco de lã. Tudo metido num saco. Uns sapatos rasos. Não podia, percebes? E, por isso, brinquei com o pão e ouvi-te falar sobre os jardins na Índia. Contei-te a história do almirante inglês. A Índia ainda estava ocupada pela Grã-Bretanha. O almirante tinha uma frota pronta para o que fosse - que não seria nada - os indianos acatariam sem discutir. Era a convicção. O almirante apreciava os jantares prolongados em casa, mas, acima de tudo, o final da tarde, aquela luz que só existe na Índia, copo de gin na mão; o almirante a admirar o seu jardim. O almirante recebeu a visita de um professor português e, ao pôr do sol, olhando para o jardim disse

 

É perfeito e, apesar disso, falta-lhe qualquer coisa.

 

O português respondeu que lhe faltava liberdade, que a natureza não se pode domar com tanta perfeição. O almirante não gostou.

            Sorriste.

A perfeição não te interessa. Quando nos deitámos, pela primeira vez nus, um perto do outro, a tua mão limitou-se a fazer a curva do meu corpo repetidamente, até que te engoli num beijo. Na manhã seguinte, ouvi-te ao telefone com a tua mulher. Escrevo a tua mulher, por teres sido casado com ela. É esse o rótulo justo que se pode dar à mulher que estava a ser enganada por uma miúda que te arrastava de museu em museu e não queria jóias ou malas de marca. Tu explicavas que ainda não tinhas tido tempo, que lhe comprarias qualquer coisa, que seria uma surpresa para a noite da consoada. E, a meio da tarde, eu - apenas para me ferir - decidi

 

Aqui tens a prenda perfeita para ela.

 

Sim, ela, a cobardia também se revê nas palavras. Podia ter dito o nome, sabia o nome, repetia o nome como uma lengalenga infantil, mas repara que pouco interessava para o caso, não havia música no nome da tua mulher e, para mais, tu concordaste e compraste o lenço com a assinatura de uma grande casa de alta costura, um lenço de seda devidamente embrulhado em papel seda cor de vinho tinto. O teu cartão era dourado. E o pagamento foi rápido. Ela estava, assim, despachada, e eu podia fingir que a esquecia enquanto andávamos pelas ruas. A tua mão na minha. Um frio bom, luzes que acendiam e apagavam.

Em frente a uma loja elogiaste o vestido na montra, era bonito e eu iria precisar de um vestido e de uns sapatos. Empurraste a porta e foste, prontamente, atendido por um rapaz com um sorriso quase felino. Sentei-me. Parecia uma menina amuada. Sabia que precisava de um vestido. Afinal, era Mahler e a sala de concertos não era uma qualquer. O vestido caiu-me como uma gota, o tecido colado ao corpo como uma pele só minha e saí do provador para to mostrar. O empregado trouxe uns sapatos altos, demasiado altos e tu disseste, de imediato, que não, teriam de ser outros. O senhor retirou-se com pressa. Tu pediste

 

Dá uma volta.        

                     

         O senhor chegou com outros sapatos e, com alguma delicadeza, apreciei a pele, a tira de sapato antigo, um salto meio alto, confortável. Tudo junto, se queres saber, não era eu, pouco importa. Eu descrevo-te: era de veludo o meu corpo no vestido de seda que escorria, os sapatos escondidos, apenas a ponta de pele trabalhada e ainda a tira a atravessar o peito do meu pé, uma sensação estrangeira. O vestido, se rodado, era mais curto atrás e as costas descobertas com um despudor que te fez sorrir. Aquela não era só uma mentira de mim e, perdoa-me, era ainda uma outra pronta para chorar ou rir a teu pedido. Já na rua, a tua mão regressou à minha, o saco a bater-me nas pernas. Antes da consoada, já tinha a minha prenda de Natal. Éramos nós ou não? Uma ideia de nós como uma sombra do possível.

         Alguém tocava acordeão na rua e quis parar. O teu telemóvel tocou. Fiquei ali, largada. Pouco sei do que Deus quer de mim e, por isso, deixei-me ficar a ver as mãos do homem no acordeão. Pensei na música e nela outra vez e, depois, para te desagradar mordi uma pele do polegar, arranquei-a e fiz sangue, uma ferida a gritar para que não te fosses. E tu regressaste. Quanto tempo terá passado? E quem conta o tempo e dentro do tempo o que será verdadeiramente importante? Eu não sabia e agora, se for preciso dizê-lo, tão-pouco sei. O tempo possui uma medida única e pode ser infinito ou rasgar o céu e deixar-nos cair, nanosegundos de suspensão, uma sensação de desconhecimento que não precisa de ser desagradável. Há muito de tentador na perdição. Assim, de regresso, tu querias voltar ao hotel, mas o meu castigo era uma exposição sobre os arquitectos da liberdade e debitei sobre Etienne Boulé como se tivesse escrito uma tese sobre os sonhos de um arquitecto do impossível.

A curiosidade moveu-se no teu corpo. São os tais andamentos. A atenção é a vontade de fixar o melhor do mundo e há poucas pessoas assim. São os eleitos da beleza, vêem o que os outros não tentam sequer compreender e não se questionam. Deixei-te admirar uma planta gigante, um desenho feito à mão de um planetário, uma cúpula de vidro, uma base bizarra com se fosse uma previsão de nave espacial. Fiquei junto aos desenhos enormes dos jardins, desenhos que sempre me fascinaram. Queria voltar à história da Índia por ter mais que contar e não saber como. Hoje não sou uma pessoa calada, então limitava-me a falar se fosse crucial. Aprendi cedo o conforto do silêncio e não sabia se me querias pela cabeça, pelo corpo, pelos meus dedos num pau de carvão, rápidos, a desenhar ou se pela música que sei de cor. Não sabia, já te disse, quem era. E tu vieste ver a planta do jardim e murmuraste qualquer coisa sobre o que faltava e compreendi que não era preciso dizer mais nada. As coisas podem parecer perfeitas e, depois, sim, depois, acontece que o sonho se quebra por não ser um sonho numa bolha ao abrigo do poder de Deus. Tu dirás natureza. Eu não te vou contradizer.

         Nessa noite, de vestido e sapatos, com frio e sem saber como os meus seios se viam à transparência, eu, a miúda sem peito que não usa soutiens, estava espantada com a sala de concerto, com a elegância do teu fato e a música... Bom, sobre a música não preciso de te recordar por nos termos comovido ao mesmo tempo. No final, tu disseste que, não sendo um ortodoxo do seu tempo, começavas a entender Mahler. Eu só queria entender-nos. O meu coração era uma partitura por encher e estava à espera. Dirás que a metáfora é fraca e tens razão. O amor é estranho e nem podemos esperar pela sua coerência. Quando voltámos, no avião, tu pediste

 

Canta-me uma canção.

 

Escolhi body and soul. Não te expliquei porquê.

       As explicações são actos de um egoísmo e presunção e maldade e... haverá mais para dizer, não me ocorre, perdoa-me, uma explicação é levantar a cortina e fica tudo exposto ou apenas uma parte e nós só éramos uma parte, mesmo no ar, já não estávamos um no outro. A tua mão soltou-se da minha. O porquê importa pouco; o avião aterrou. O meu adeus foi sussurrado e os teus dedos procuravam um cigarro e eu tentei sorrir e pedi que fosses, precisava de levantar dinheiro. E tu a querer saber quanto dinheiro queria e eu a virar as costas, as lágrimas de dor ou incompreensão. Nunca seria uma relação, uma potencial família. Consegui antever todas as prendas que trarias das viagens onde seríamos outros e onde, por razões insuspeitas, te deixarias arrastar para locais que não faziam parte do teu território, como o bar de jazz ranhoso, o bistro barato, a loja de crepes na rua. Para falares a minha linguagem seria preciso descer de uma qualquer nuvem já que, apesar dos sapatos que ainda tenho, do vestido preto de costas abertas, guardado num cabide especial, nunca seria a outra da tua vida. E o nunca ficou entendido com a recusa do teu dinheiro.

       Hoje posso dizer que apanhei o autocarro. Na minha mala de nómada levava o vestido, os sapatos e uma história. No saco levava o teu coração, porém não o entendi e tu não mo explicaste. As tuas frases enganam, sabes? Não dizes muito sobre ti e eu só andava a caçar borboletas em extinção, certa da sua morte. Hoje sei entender o que me podias ter dito numa frase apenas. Uma frase pequena

 

     Amanhã...

 

e eu diria que sim com um beijo que ninguém veria e o mundo manteria a sua rotação. A tua boca manteve-se cerrada e ela à tua espera. Voltei as costas e assim passaram-se anos. Nessa noite, ajudei a minha mãe a fazer a ceia de Natal e não pensei em ti.

 

  1. minueto

A vida não é o ideal imaginado. É como aqueles bonecos animados que correm e deixam rasto, pode ser que escapem ao dinamite, à rocha que ameaça cair numa avalanche. Nunca se sabe exactamente nada e tudo pode mudar em segundos. Foi o que aconteceu. O trabalho começou ser demasiado exigente. Para quê um curso de escultura, perguntara a família. A minha irmã riu-se, estridente, e queixou-se da enorme falta de modéstia de algumas pessoas, mudando de assunto rapidamente. Se eu queria ser uma artista desgraçada, pois que o fosse mas sem maçar o resto da gente trabalhadora, verdadeiramente contribuinte.

Foi com surpresa que todos, incluindo eu, receberam a notícia da bolsa de estudos para ir um ano para fora. O meu sorriso, diria que vingativo - ou dirias tu se o tivesses visto - não serviu de muito, porém recebi os abraços e felicitações da ordem. O meu pai disse

 

Olha, vê lá agora não estragas tudo.

 

Não me admirei, nunca me admiro com o meu pai. Nunca viu uma exposição na vida, nunca compreendeu o que era essa coisa de ir para Belas Artes e chegar a casa fisicamente tão cansada que não sabia fazer mais que dormir ou ouvir música. As queixas sobre mim significavam apenas desilusão. Quando saí de casa, pouco antes de te conhecer, estava a acabar o curso e decidira dividir uma caixa de fósforos com uma amiga. Sentia um sufoco que em casa dos meus pais podia ser descrito como algo similar ao sufoco das pessoas que sofrem de asma. A bolsa de estudos chegou. Meti numa mochila e num saco os discos e os blocos de desenho, a roupa mais quente e apanhei um avião que, pela primeira vez na minha vida, atravessou o atlântico escuro sem eu entender que tal enormidade é possível. Tive medo quando o aparelho começou a deslizar, quando levantou, assustei-me com uma vaga turbulência e quase chorei quando aterrou. Para salvação tinha apenas uns headphones e ouvi Bach por Glenn Gould vezes sem fim, no modo repeat, para me sossegar. Uma vez no aeroporto, a confusão espantou-me. Eram quatro da tarde. Chegar a Newark não era em nada igual ao que é hoje. Ninguém me pediu para tirar os sapatos, não vi cães a cheirar malas, polícias com um ar mais severo. Dizem que depois do 11/9 tudo mudou. É verdade.

Não fomos os dois ver o ground zero mas levei a minha filha num carrinho de criança, ela a brincar com um elefante de peluche, enquanto eu chorava. Um buraco é um lugar de morte e emoção. Isso eu já sabia, qualquer escultor sabe. A matéria, a pedra, a lama, o ferro, a areia, tudo tem um significado e o mesmo muda conforme a disposição. Um escultor joga com a matéria para provocar emoções. O ground zero não é arte, mas, como diria Vergílio Ferreira, um contra-monumento. O escritor usou a expressão para definir o campo de concentração de Dachau. Contra-monumento. Nova Iorque é uma cidade que passou a ter essa cicatriz. A minha filha, chama-se Mia, não deu por nada e, nessa noite, via-a dormir ao som dos dedos mágicos de Keith Jarrett e atirei-me ao estirador com uma vontade e raiva quase desconhecidas. Isto foi três anos depois de ter chegado aos Estados Unidos.

A fundação que me atribuíra a bolsa não queria que me fosse embora. A directora disse

 

É muito ambicioso o que tenciona fazer. Acredito em si. No seu futuro.

 

Não me lembro de ter respondido. Estava convencida de que era um projecto demasiado grande para alguém como eu: uma mistura da minha visão do mundo e de todas as influências clássicas, nada muito moderno ou vanguardista. Quando todos os bolseiros mostravam peças e instalações abstractas, eu optara por fazer de uma escultura um jardim por onde as pessoas caminhassem, tocassem e ouvissem música. Era - ainda é - uma peça com trinta metros, se os contar de forma linear, com três de largura. Era o labirinto da Alice no País das Maravilhas e era a minha cabeça em simultâneo. Pretendia, estávamos no fim da década de 90 do século XX, criar algo que fosse mais próximo das pessoas e exigisse interacção. A directora tinha o meu portfólio e sabia que todo o meu trabalho escapava ao habitual. Disse

 

As ideias têm todas música.

Não sei fazer nada sem música.

 

Não me perguntes, num ímpeto dei-lhe o meu velho discman - ainda te lembras dessas coisas? - e pedi-lhe para ouvir. Não era clássico ou jazz, era fado. Amália. Vi-lhe lágrimas nos olhos e sorri. Apesar de não entender português, a directora comoveu-se. Contei-lhe que Amália tinha vindo para Nova Iorque com o intuito de se suicidar e que os filmes de Fred Astaire a salvaram. Pareceu compreender.

Comecei a trabalhar num armazém da fundação, a música nos ouvidos e – posso garantir - sem pensar em ti. Meditava apenas nos materiais: a substância, o volume, a espessura, o tempo de secagem. O meu jardim de metal e pedra, de gesso e areia. Misturava, experimentava, deitava fora, morria de frustração, estava exausta ao fim de pouco tempo e deixei de comer. O jardim era uma obsessão. A minha mãe escreveu a dizer que vinha fazer uma visita e eu vomitei. A maioria das pessoas não entenderá, mas fazer o quê? Não te vou mentir. A minha mãe ficou uma semana, viu o armazém, a que chamou atelier por uma qualquer razão que me escapou, perdeu-se em Chinatown e comprou tudo o que lhe pareceu barato. Acompanhei-a, tentando contar a história disto ou daquilo, levando-a aos museus mais importantes e, claro, sendo arrastada para um musical que ainda hoje está na moda. A Broadway muda, mas não muda tanto assim.

  1. rondó

Sem ti, vendo a minha posição na fundação ganhar força, coleccionadores especiais a visitarem o espaço para verem o meu trabalho, tudo isso fez com que eu deixasse de ser a miúda de Paris. Posso dizer que usei o teu vestido e calcei os sapatos na apresentação conjunta e, sem temer comentários, outra vez na primeira exposição individual. Curiosamente, ou talvez não, a minha apresentação foi durante a festa de Natal da fundação. Um acontecimento anual de extrema importância, foi o que me garantiram durante semanas. Nesse dia, quando regressei a casa, bebi um copo de vinho e ouvi Mahler, a Canção da Terra, e despedi-me do compositor. A sua música perdeu-se em mim.

Quando vendi a primeira peça, o tal jardim que está na entrada impotente de um grande edifício, decidi que vodka preto seria a minha bebida. Nessa noite, sem grande memória, a Mia foi concebida. O pai é um músico que andava então pelos bares de Nova Iorque e que hoje estará algures, pouco importa. Dirás que tem direito a saber que é pai. Tem, não o nego. Não me apeteceu procurá-lo quando descobri que estava grávida porque naquela noite, a noite em que descobri a vodka, o sexo foi uma sucessão de gestos mecânicos e não me lembro de nada. Na manhã seguinte, já perto das duas da tarde, um daqueles sábados glaciares na cidade, ele já não estava. E que importância tinha? Nenhuma. Tomei um comprimido para a dor de cabeça e comi cereais. Dois meses mais tarde descobri que estava grávida e não sabia nada daquele homem que fora apenas um corpo. O único homem que ocupava, por vezes, a minha mente eras tu. Os movimentos do teu corpo. Fiz uma escultura assim: um homem sentado a fumar. Levei meses. Queria que fosses tu e não queria.

Não vieste atrás de mim, pois não? Depois de Paris, nesse dia do regresso, deixei uma mensagem a dizer que não voltaria à empresa. Que tinha um novo emprego. Não era verdade, nem era mentira. Todos os meus empregos foram fugas, formas de evitar o inevitável. Ser artista nunca foi um estatuto. Significava, e o meu pai não se cansava de mo lembrar, tal como a minha irmã, que não iria a lado algum. A bolsa de estudo salvou-me e, depois, a fundação e a directora. Havia algo nela que se aproximava de ti. Não gostava de perfeição. As pessoas – os bolseiros – tentavam todas as manobras para a seduzir, para ter uma relação com ela. Eu limitava-me ao aceno de cabeça, sempre com a música nos ouvidos. Quando queria falar tocava-me no ombro, eu carregava no stop e olhava-a fixamente. Ela fazia uma ou outra observação sobre o trabalho. Quando a bolsa estava próxima do fim, chamou-me ao gabinete

 

Gostava que ficasse. Como coordenadora dos bolseiros.

Não sou boa a lidar com outras pessoas.

Aprende e tem um emprego e um espaço para continuar o seu trabalho. A fundação quer que fique.

 

Não se discute com uma pessoa assim. Talvez por ter acenado positivamente não tenham existido, posteriormente, comentários sobre a minha gravidez. A Mia nasceu numa sexta feira 13, a última do milénio. Dois dias depois estava de volta à fundação, a Mia numa cadeira mínima. Deixei de usar headphones. Comprei um aparelho pequeno e mantive o volume baixo para não a incomodar. A minha filha cresceu assim, no meio do pó e dos artistas, de música, com uma mãe que, de repente, percebeu que se sentia tão sozinha que a maternidade era uma bênção. Falava com ela constantemente. Sempre na nossa língua. É um património.

Nesse ano, fui a Portugal passar o Natal, mostrar o rebento, enfrentar a tempestade que se resumia à pergunta sobre o putativo pai. A minha vontade, para ser completamente sincera, era dizer que o pai era uma garrafa de vodka. E mesmo quando insistiram comigo, pormenores de legalidade, o que colocara no registo do nascimento, que nome de que pai, eu encolhi os ombros. Quando a registei dei o teu nome e passaste a ser pai. Pareceu-me o mais natural e conseguia imaginar-te a chegar com um urso gigante para ver a menina. Tinha assim uns cenários que me moviam para dentro de um filme que nunca seria o nosso, mas pouco importava, estava consciente da ficção. Nunca me iludi.

A Mia nunca perguntou pelo pai. Na escola existem muitos meninos e meninas sem pai ou sem mãe, ou com dois pais e duas mães. A América também é isso.

Sem me dar conta ganhei o meu estatuto de artista com propostas de agentes e uma carreira internacional. Quando ia a Portugal já não era invisível. Disso não me podiam acusar. A minha mãe queixava-se da distância e de a única neta ser criada longe do seu colo. Nunca mais ouvi qualquer comentário da minha irmã e o meu pai remeteu-se a um silêncio que eu, interiormente, agradeci.

Estava neste estado semi-adormecido, focada na Mia e nas coisas do trabalho, nas novas ideias e solicitações, ouvindo ópera de uma forma obsessiva, outra vez, quando tu me telefonaste. Era dezembro outra vez e eu estava em Lisboa. Nunca perguntei como tinhas conseguido o meu número. Almoçámos num dos meus restaurantes preferidos no Bairro Alto. Cheguei mais cedo. Queria ver-te, medir a forma do teu rosto, os movimentos do teu corpo, perceber se ainda te via no meu. E tu, com a calma de quem vem animado, um sorriso nos lábios e depois, como se fosse natural, nada ensaiado, sem qualquer pudor, depositaste um leve beijo nos meus lábios. Estávamos de novo em Paris. Senti uma tontura e depois sorri. Tu disseste

 

Serás sempre uma das mulheres mais estranhas que conheci.

 

E desatámos a rir. Ser estranha, eis um rótulo antigo, desde sempre e, no teu caso, era evidente que o podias dizer. Já não era uma miúda, não perdi o chão. Encomendámos qualquer coisa e conversámos como se não se tivessem passado anos. Vi a tua aliança, diferença da anterior, e perguntei

 

E a Isabel? Como está?

Penso que bem. Divorciámo-nos há cinco anos.

E a aliança?

Ah, tu sabes que eu posso casar muitas vezes.

 

Pois podes. Suspirei. Para te chocar abri a pasta de fotografias no telemóvel e fiz-te um resumo da curta vida de Mia. Como é impossível ficar indiferente aos encantos da minha filha, foste tu quem suspirou.

 

E o pai?

Não faço ideia.

Vens para ficar?

Não. Regresso a Nova Iorque daqui a dois dias.

Talvez te vá visitar.

 

Os papéis estavam invertidos. A música que tocávamos era desconhecida. Eu não percebi o tom. Tu terás compreendido tudo, como te é habitual. Quando nos despedimos foi com um abraço e eu podia ficar ali, escondida no perfume do teu casaco, no cheiro que é só teu. Mas há limites e, em plena Praça Camões, foste para um lado e eu para outro. A razão do teu telefonema? Quando perguntei, riste e disseste a palavra saudade, com ternura.

 

E é Natal, não sabes?

 

Ao almoço fizeste perguntas sucessivas sobre a fundação e o meu trabalho e, já depois do abraço final, já virado na direcção oposta à minha, tu gritaste

 

Olha que te vou fazer uma encomenda de trabalho enorme. Prepara-te. E eu só gosto de ferro.

 

Ferro. Tu que amas a minha instalação, o meu jardim imperfeito, achaste que me podias atemorizar com um material. O ferro é meu amigo, ainda estive para dizer em voz alta, mas não o fiz. O trânsito estava caótico e a Mia à minha espera.

De repente percebi que Lisboa já não era a minha cidade.

Podemos amar uma cidade ao ponto de a sentirmos como alguém da família. Lisboa sempre foi o meu espaço, apesar disso, naquele momento, senti-me estrangeira. O que pretendia era afastar-me de ti. Anos volvidos estava lá tudo, novamente: a mesma imagem dos dois, o teu sorriso ao canto da boca, a forma como fumas, o teu vocabulário peculiar e a minha vontade de te dar a mão. Repreendi-me por isso e, como forma de castigo, bani-me da cidade. Da minha cidade.

 

  1. finalle

Passaram-se dois anos. A Europa já não era o meu chão. O meu pai morreu de forma súbita e a minha mãe, ao telefone, disse

 

Não venhas. Vem no Natal. Vou precisar de ti no Natal.

 

Obedeci. A Mia viu as fotografias do avô e perguntou numa miscelânea de americano com português se eu estava muito triste. Respondi que sim e que não. A morte faz parte da vida. Ela deu-me um abraço e ligou à melhor amiga.

 

Mãe, a Hailey pode dormir cá hoje?

 

A vida, como o planeta, gira. Nada interfere e tudo pode enlouquecer-nos. Comecei uma nova série de esculturas, uma encomenda e, quando reservava as passagens para Lisboa vi-te passar. Tu, em Spring Street. Um sobretudo cor de camelo, uma mulher pela mão, alguém que mirava as lojas com uma avidez ou com o que me pareceu avidez. Nova Iorque estava engalanada para as festas. Mia e eu tínhamos celebrado o Hanuka com uns amigos judeus. Disso saberás pouco. Despachei a mulher da agência de viagens, a mesma que continua a querer que eu faça tudo on-line por mais que lhe explique que sou uma info excluída. Segui os vossos passos, arrastando a minha filha que não entendia o meu objectivo e, já em Prince Street, chamei-te, alto, pelo nome. Vi o teu corpo, esses movimentos que me assaltam ainda, sempre que me deixo ir por aí, sorri e desatei a correr para o outro lado da rua, eu, alguém com pressa mais uma miúda com as unhas pintadas de azul. Tu, perplexo, parado e eu a gritar

 

Feliz Natal!

 

Não sei se respondeste. Pouco importa. Soube então que nunca mais te veria. Tal como deixei de ouvir Mahler, deixei-te morrer dentro de mim nesses dias antes do Natal.

A Mia perguntou

 

Quem é?

E eu respondi, sorrindo

 

É alguém que podia ser o teu pai.

 

Ela sorriu e apertou-me a mão. E eu lembrei-me do tal Pai Natal, há muito tempo

 

É dezembro, temos de ser melhores em dezembro. É dezembro, temos de ser melhores em dezembro...


 

publicado por Patrícia Reis às 15:36
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

sexta-feira

Um sorriso enorme. É sexta feira, a mulher disse em voz alta para se convencer que o dia está certo, que não houve um truque feio do tempo. Só isso. Sexta-feira.

publicado por Patrícia Reis às 19:27
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2016

quinta-feira

A felicidade é um livro, é um poema, é respirar fundo e conseguir voltar atrás, não por não ter entendido, mas para entender duplamente e essa satisfação ser um consolo. Isto é um livro.

publicado por Patrícia Reis às 19:26
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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2016

quarta-feira

O corpo encolheu-se. Dizem que é o Inverno, mas a mulher ignorou essa fatalidade.

Encolheu-se como um animal e ficou à espera. Faltam poucos dias para ir para o sol.

publicado por Patrícia Reis às 23:24
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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

terça-feira

Das três coisas positivas que podia descortinar sem grande esforço, assim, naquele estado de dormência face ao mundo, a mulher não encontrou motivo real para se mexer e, por isso, deixou-se ficar a ver o mundo cheio de coisas, um mundo que da janela só tinha três ideias quase felizes.

publicado por Patrícia Reis às 13:53
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

segunda-feira

Olhe, está a ver aquilo, olhe bem, é uma coisa incrível. É proibido sacudir tapetes na janela. Dá direito a uma coisa, claro que a senhora sabe tão bem quanto eu que as coimas só se aplicam se existir fiscalização e quem é que anda a ver isto dos tapetes? A mulher encarou a janela onde uma cabeça minúscula recolhia já um tapete devidamente sacudido mas cheio de ácaros. Encolheu os ombros e decidiu que o melhor é não ter tapetes ou estar em casa ao meio dia para fazer limpezas. O senhor continuou a abanar a cabeça e atacou outra pessoa dizendo: Olhe, está a ver aquilo, olhe bem...

publicado por Patrícia Reis às 13:51
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016

sexta-feira

Por esta ordem, decidiu que precisava de um copo de vinho, um jantar maravilhoso, uma viagem de carro em silêncio, um livro realmente extraordinário com mais de 500 páginas, sapatos confortáveis e de perder o telemóvel. Estaria tudo bem se assim fosse, podia ser que conseguisse, quem sabe?, afinal é o meio da tarde. É pena que os sapatos de salto alto sejam só giros, de resto criminosos, e esses não podia descalçar de imediato. Não havendo garrafa de vinho, livro ou jantar tão cedo, a mulher resignou-se com um suspiro contido. Não valia a pena fazer muito barulho.

publicado por Patrícia Reis às 16:41
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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

quinta-feira

Há quanto tempo é que não dás uma gargalhada? O homem olhou-a interrogativo. Ela considerou a hipótese de explicar o que é uma gargalhada, não um esgar ou um sorriso alargado, mas uma gargalhada. Abriu um livro e mostrou uma fotografia. Era uma criança a rir e o homem abanou a cabeça e disse: perdi tudo isso há décadas.

publicado por Patrícia Reis às 16:40
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

quarta-feira

As coisas mais pequenas são o consolo de quem perde a noção da sorte, a sorte gigante de se estar vivo. A mulher ouviu tudo isto com calma, mantendo a pose séria e depois pensou: problemas são de saúde e a sorte dá muito trabalho, o consolo que se lixe.

publicado por Patrícia Reis às 16:39
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016

terça-feira

Havia um ruído de fundo que não era só o trânsito ou uma rádio a tocar, antes uma orquestra alargada de corações que latejavam na garganta da mulher. De repente, apeteceu-lhe e deu um grito. O mundo parou por nanosegundos, o tempo do grito atingir o resto. Ninguém considerou a razão e a mulher afastou-se, muito aliviada, tendo recuperado o seu único coração, os outros mudaram-se para uma orquestra mais sofisticada.

publicado por Patrícia Reis às 16:37
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016

segunda-feira

A correr, a correr, já nem está frio, o casaco é de pele, a bodega do cachecol deveria ter ficado em casa, a mulher nem a mala conseguiu trazer, o corpo acelera e parece que está no pico do verão. A um minuto da hora combinada está em frente à porta do homem com quem vai reunir. Respirou fundo. Pediram-lhe para esperar. A mulher não soube o que responder.

publicado por Patrícia Reis às 15:51
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2016

sexta-feira

A mulher desceu o Chiado com uma lentidão estranha, o corpo a evitar qualquer coisa, talvez a dor ou o conjunto de dores, não importava, a mulher descia o Chiado, vendo os turistas e os outros como ela. Na mala um livro de Millás e o gosto de saber que é sexta-feira. Depois, num repente, alguém gritou o seu nome e a mulher pensou que não queria conhecer ninguém. Era tarde.

publicado por Patrícia Reis às 16:42
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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2016

segunda-feira

A resolução, absoluta, radical, permanente, infinita, aplicar-se-ia um dia: a mulher passaria à clandestinidade. Não se sabia quando seria esse dia, mas era certo que seria de vez. A mulher encontrava algum consolo nesse futuro e na ideia de ser outra, calada e invisível. Era pena não conseguir decidir hoje, era bom se fosse hoje, não era capaz. Ainda se chovesse.

publicado por Patrícia Reis às 13:45
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

quinta-feira

São muitos quilómetros, muitas árvores e carros, segundos que se perdem para fazer. O que for. A mulher resigna-se à viagem, sabendo que uma vez no sítio não deixará de sorrir à esquerda e à direita, sempre em sentido, como alguém que cumpre um desígnio. A outra mulher estará por perto, vigilante, a tentar captar tudo o que é dito, a pensar mais rápido do que seria de esperar a tal hora. No fim, dariam as mãos se fossem esse tipo de amigas. Não precisam de dar as mãos, sabem-se sobreviventes e estão uma com a outra.

publicado por Patrícia Reis às 16:46
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016

quarta-feira

Respira fundo, enrola a cervical, externo, isso, mantém, omoplatas no sítio, respira.  Uma hora a tratar do corpo para depois passar o resto do dia a pensar que é preciso inspirar e expirar. Podia ser pior.

publicado por Patrícia Reis às 16:34
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