Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

o maior orgulho: um trabalho de Sofia de Sousa Silva sobre Amor em Segunda Mão

O amor em segunda mão é um amor líquido?[1]

Sofia de Sousa Silva

Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

 

Em Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos[2] (publicado originalmente em 2003), o sociólogo polonês Zygmunt Bauman faz um diagnóstico das relações amorosas no mundo contemporâneo. Um dos seus pontos de partida é que: “A definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda (...)”(p. 19). No cenário daquilo que chama a nossa modernidade líquida, Bauman identifica que uma cultura consumista favorece o “produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados” (p. 21).

Nesse cenário, não é de espantar que o compromisso duradouro, a construção, os vínculos fortes estejam em baixa. E Bauman dedica-se a perceber os sintomas disso. Conselheiros sentimentais de revistas valorizam os casais semi-separados: aqueles que vivem em casas separadas, têm vidas separadas e encontram-se apenas eventualmente. É prezada a mudança de parceiros e o acúmulo de experiências amorosas, como se isso pudesse proporcionar um aumento da sabedoria sobre o amor, um aprendizado gradual. Especialistas de plantão lembram que, ao se escolher estar com alguém, fecham-se as portas para outras possibilidades.

É de fato o contexto propício para a proliferação das relações virtuais:

Ao contrário dos relacionamentos antiquados (...), elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se deseja que as “possibilidades românticas” (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de [ser] “a mais satisfatória e a mais completa”. Diferentemente dos “relacionamentos reais”, é fácil entrar e sair dos “relacionamentos virtuais”. Em comparação com a “coisa autêntica”, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. (p. 12-13)

E há ainda uma vantagem, como lembra um entrevistado citado por Bauman: “Sempre se pode apertar a tecla de deletar.” (p.13)

Diante de tantas opções, o grau de satisfação num relacionamento passa a ser uma medida a se ter sempre em mente e, tão logo um dos parceiros identifique sinais de dificuldade, pode romper-se o relacionamento.

A coragem e a humildade, qualidades essenciais para o amor — ainda na visão de Bauman — não estão em seus melhores dias na bolsa de virtudes. E então, recorrendo ao Banquete de Platão, o sociólogo lembra que:

Não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar na gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo. (p. 21)

A análise do mundo contemporâneo empreendida em Amor líquido não se limita à discussão sobre os relacionamentos amorosos. A partir da constatação desse estado de coisas, amplia-se a reflexão e discute-se a multiplicação dos condomínios fechados, onde se fecha à porta ao outro excluindo-se pessoas de outras classes sociais (fenômeno a que Bauman chama mixofobia), trata-se do problema dos refugiados (e da xenofobia), e aponta-se, em toda a parte, a destruição da comunidade e do convívio. (Os capítulos finais do livro têm os significativos títulos de “Sobre a dificuldade de amar o próximo” e “Convívio destruído”.)

Embora, como sociólogo, Bauman não se dedique a fazer juízos de valor sobre os fenômenos que descreve, é claramente perceptível o tom de ameaça com que fecha o seu livro. A própria seleção vocabular o indica.

Para o autor, amizade, solidariedade, estabelecimento de laços sólidos são formas de resistência a uma cultura onde cada indivíduo vale pelo seu poder de consumo e onde tudo tende à descartabilidade.

 

É decerto nesse contexto que se insere o romance Amor em segunda mão[3], de Patrícia Reis (publicado em 2006, tanto em Portugal quanto no Brasil). Fazendo como que um panorama das relações amorosas e sexuais na Lisboa de hoje, o livro trata de casamentos, casos extraconjugais, namoros breves, papéis de gênero, heterossexualismo, homossexualismo, sexualidade infantil, aids, fragilidade, liquidez. Em mais um ponto de contato com a obra de Bauman, faz referência, ainda que muito rapidamente, à guerra do Iraque e à imigração para Portugal.

Como uma espécie de radar a detectar mudanças e inquietações do nosso tempo, o livro trata de novos arranjos amorosos. Nas duas primeiras partes, seus onze personagens se revezam no papel de narrador e é pelas suas vozes que vamos conhecendo suas histórias. Na parte final, um narrador heterodiegético vai assumindo o ponto de vista de cada um dos personagens e oferece um panorama da situação vivida dois anos antes dos fatos narrados na primeira parte.

Na primeira história a que somos apresentados, Júlia, protagonista do livro, e Miguel separam-se; ela irá viver com Tomás (por sua vez, também já separado de Teresa); Miguel se envolverá com Francisco, chefe de Júlia e portador de uma doença terminal herdada de um relacionamento anterior. Ela descobre o amor naquilo que até então fora amizade; ele descobre em si mesmo uma nova sexualidade.

O percurso de Júlia e Miguel é, a vários títulos, paradigmático. Na primeira cena do romance, deparamo-nos com a protagonista montada a cavalo. Em vez do príncipe encantado dos contos de fadas, quem vem a galope é uma mulher desiludida e, com perdão do lugar comum, esforçando-se por tomar as rédeas da própria vida. Cavalgando até que lhe doa o corpo, ela encontra um alívio para o mal-estar em que vive: “Andar a cavalo é a única coisa que faço só para mim. Não tem nenhum propósito. É uma fuga e um castigo.” (p. 18)

Seu gosto pelos cavalos começou após o nascimento do primeiro filho e a constatação nada gloriosa de que “ser-se mãe equivale a uma total perda de identidade” (p. 187).

Júlia é uma profissional competente, mãe zelosa, amiga leal e é uma pessoa com quem se pode falar de tudo, como insistem em dizer seus filhos e seu marido. É também uma maria rapaz, e a ela o “formato mulher” mal se acomoda (como no verso do poema “Minibiografia”, de Luiza Neto Jorge).

Seu marido, Miguel, professor de história, apesar de preservar a admiração e o respeito pela mulher, acaba sendo surpreendido pelo próprio desejo quando conhece Francisco.

Os sintomas da fluidez de que fala Bauman se fazem perceber desde logo. O casamento de Júlia e Miguel gera-lhes angústia e frustração. O caso extraconjugal que Miguel a passa a ter, no entanto, e a descoberta de um novo amor por parte de Júlia não levam ninguém à morte, nem ao convento, nem à cadeia.

O amor de Júlia e Tomás (seu antigo amigo), embora até certo momento proibido, não é de perdição, como o do Simão e da Teresa de Camilo Castelo Branco. O envolvimento da mulher casada com outro homem não a faz morrer de culpa (como a Luísa, de O primo Basílio) e não desonra seus filhos (penso na Maria do Frei de Luís de Sousa, de Garrett dizendo: “Cubram-me as faces, morro de vergonha!”). O conhecimento de que sua mulher se casou com um antigo amigo não leva Miguel a procurar vingança nem a querer fechá-la num convento (Romance dum homem rico).

Paralelamente à história de Júlia-Miguel-Tomás-Franciso, o romance conta a de Laura e Lourenço, casal que vive uma vida harmoniosa e sem conflitos. Em tudo se completam e, de tão parecidos, parecem reproduzir esse modelo nas filhas, gêmeas. Um câncer vem então atravessar essa tranqüilidade. A partir daí, a plena identificação já não será possível. A alteridade é resgatada, o casamento se mantém. Laura vai sozinha para o hospital (Lourenço vê-se diante da tarefa tradicionalmente feminina de cuidar da casa e alimentar as filhas), depois partirá igualmente sozinha numa viagem que sempre quisera fazer. Mas isso não se traduz num enfraquecimento de seu vínculo com Lourenço. Ao contrário, a diferença, a consciência de que são duas pessoas e não uma unidade, restitui o vigor à sua união.

Vera e Joana, duas belas mulheres, uma mais agressiva a outra mais doce, vivem sem saber um triângulo amoroso com Hugo. Esses sim poderiam ser vistos como vítimas nossos tempos. Incapazes de fazer uma escolha, Hugo e Vera trocam constantemente de parceiros, mas permanecem solitários e tristes. Joana, presa ainda a um certo ideal, procura o seu príncipe encantado.

A análise de Bauman sobre a fragilidade dos laços humanos parece-me, em muitos pontos, certeira. É quase impossível não pensar nela ao acompanharmos os enlaces e desenlaces de Amor em segunda mão. Mas a análise do sociólogo também aparenta não levar em consideração, pois não lhes faz qualquer referência, certas condições que propiciaram esse atual estado de liquidez: a criação de leis do divórcio, a descoberta de métodos contraceptivos mais eficazes, a legalização do aborto em diversos países, a libertação (ainda em curso) da mulher.

Embora se passe incontestavelmente num ambiente de liquidez, Amor em segunda mão oferece uma outra leitura desse fenômeno. Os personagens desse livro são atravessados por seu próprio desejo, elemento que Bauman parece não considerar na sua obra. E o desejo individual não é uno nem pré-fabricado. Diante da sua emergência, cada personagem desse romance vê-se diante de uma opção: avançar e ser fiel a si mesmo, ou recuar e ressentir-se.

Os personagens de Patrícia Reis não parecem desfazer casamentos e lançar-se a novas relações simplesmente por um desapego dos vínculos. Eles estão em busca de uma outra idéia de amor, pois o modelo romântico já não lhes serve.

Numa entrevista à Folha de S. Paulo, o arquiteto italiano Renzo Piano faz uma afirmação que pode oferecer-nos uma outra via de leitura do livro:

Se a arquitetura do século 19 fosse definida pela construção em metal — o Palácio de Cristal em Londres e assim por diante ­— e a do século 20 pelo despojamento modernista da decoração e a superfície limpa, então a arquitetura do século 21 deveria ser sobre humanismo, sobre a percepção de que estamos construindo em um mundo frágil.[4]

Embora, como disse, a liquidez permeie as vidas dos seus personagens, a idéia de fragilidade talvez seja mais útil para pensar sobre o livro de Patrícia. Amor em segunda mão vai construindo uma outra idéia de amor. As referências já não são tradicionais (é quase didático o encontro de Francisco com um padre aidético na sala de espera do consultório de seu médico), os laços não são perpétuos, mas os personagens não deixam de ter referências. Cabe a cada um deles deparar-se com a própria fragilidade e a partir daí encontrar um novo equilíbrio, construir para si um caminho próprio, num mundo em que não há garantias.

Há no texto curiosas referências a Sophia de Mello Breyner Andresen. Um poema de Sophia é lido na cerimônia de casamento de Júlia e Miguel, assinalando um “começo auspicioso”. Quando Laura é internada, leva consigo um livro de Sophia. Pensando na frase de Renzo Piano sobre a arquitetura moderna, poderíamos dizer que a obra de Sophia é também marcada pela superfície limpa. Branco, limpo, liso, inteiro são alguns dos adjetivos mais freqüentes em sua poesia. Um conhecido poema seu opõe o amor à fragilidade do mundo (“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo...”), contrasta-o com este “lugar de imperfeição”. No romance de Patrícia Reis, esse projeto de inteireza já não é possível. Fragilidade e amor caminham juntos.

Não há uma renúncia ao amor, embora se abandone um certo ideal. E a única sobrevivência do amor único e fatal parece residir no nome do cavalo de Júlia, metonímia de um tipo de amor de primeira mão: Romeu. É ele que se dirige a interrogação tantas vezes repetida: “Quem é o mais lindo?”



[1] Comunicação apresentada ao 1.º Congresso Internacional da Cátedra Jorge de Sena: Andanças Prodigiosas da Literatura, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 20 a 22 de outubro de 2009.

[2] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. Todos os números de páginas citadas dessa obra se referem a esta edição.

[3] REIS, Patrícia. Amor em segunda mão. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006. Os números de páginas indicados referem-se a esta edição.

[4] Entrevista com Renzo Piano, Caderno Mais!, Folha de S. Paulo, 27 abr. 2008.

 

publicado por Patrícia Reis às 00:44
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