Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

quinta-feira

São muitos quilómetros, muitas árvores e carros, segundos que se perdem para fazer. O que for. A mulher resigna-se à viagem, sabendo que uma vez no sítio não deixará de sorrir à esquerda e à direita, sempre em sentido, como alguém que cumpre um desígnio. A outra mulher estará por perto, vigilante, a tentar captar tudo o que é dito, a pensar mais rápido do que seria de esperar a tal hora. No fim, dariam as mãos se fossem esse tipo de amigas. Não precisam de dar as mãos, sabem-se sobreviventes e estão uma com a outra.

publicado por Patrícia Reis às 16:46
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016

quarta-feira

Respira fundo, enrola a cervical, externo, isso, mantém, omoplatas no sítio, respira.  Uma hora a tratar do corpo para depois passar o resto do dia a pensar que é preciso inspirar e expirar. Podia ser pior.

publicado por Patrícia Reis às 16:34
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016

segunda-feira

São as razões da falta de razão que a ocupam durante a noite, um novelo de intrigas que constrói, convence-se de que o faz por um capricho, por considerar que não merece uma noite de sono. Depois há a dor de cabeça, mas isso não interessa nada.

publicado por Patrícia Reis às 19:56
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016

sexta-feira

A felicidade com pernas, era a mulher nesse dia, a atravessar a rua, a sentir de novo os ossos e a pensar no pastel de nata que podia comer se parasse dois segundos na Versailles, mas como não tem dois segundos, continua a pensar no sabor, até que se materializa na boca, vá-se lá saber porquê, e a mulher sorri com a cara toda. Um miúdo vem na sua direcção, atravessando a avenida caótica, e sorri-lhe. Qual pastel de nata, qual quê.

publicado por Patrícia Reis às 12:01
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016

quinta-feira

Estás a perceber?

A mulher assinalou a compreensão com um ligeiro ruído e a outra continuou a debitar coisas sobre a vida, contas para pagar, incompreensões, gente estúpida e, no fim de tudo, perguntou

E tu estás bem?

A mulher respondeu que está óptima. Era a resposta esperada. Prova superada.

publicado por Patrícia Reis às 18:51
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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016

quarta-feira

aproximou-se da ravina ciente de que estava pronto para se atirar, incapaz de olhar para trás. O coração saltou do peito e assim se cometeu suícidio emocional, foi o que a mulher contou e ninguém deve ter ouvido porque não chamaram os bombeiros, não mandaram uma equipa de resgate. O coração tinha pouca importância.

publicado por Patrícia Reis às 19:39
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

terça-feira

Do meu ponto de vista as escadas estão a dançar, os degraus não se mantêm quietos e talvez vá cair, de novo. Isto pensa a mulher a tentar sobreviver aos quinze passos que tem de dar, pensa, concentra-te, uma perna, depois a outra, agora finge que tens comichão e pára porque uma paragem é a garantia de chegar ao fim. A mulher tem esta vertigem com escadas e esse arrepio surge com mais frequência. Há dias ouviu-se dizer que vive com medo de tudo, embora disfarce bem. Todas as mulheres são boas actrizes.

publicado por Patrícia Reis às 23:44
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

quinta-feira

O homem decidiu colocar a chamada em voz alta, e uma mulher esganiçada surgiu de repente, uma poluição sonora inexplicável. Debitaram palavras que formavam frases e estava tudo certo. A mulher, ouvindo a chamada alheia, encolheu-se numa cadeira demasiado grande e reparou que no chão estava um pacote de acúçar. Leu qualquer coisa sobre ter paciência e amor. Pensou que wifi também é necessário. E tampões para os ouvidos.

publicado por Patrícia Reis às 19:31
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Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

terça-feira

No jogo do tudo ou nada, a mulher tem uma tendência suícida para o nada. Podia ser educação ou necessidade, na verdade é apenas a ideia que faz de si. Enfrenta o homem, uma reunião interminável, com a calma que comporta algum desdém e, em simultâneo, a habilidade de confundir os espíritos. O dia não tem fim. As peças estão no tabuleiro e ela sabe que o xadrez é a vida. O problema é que nunca foi boa no xadrez. Ou na vida.

publicado por Patrícia Reis às 18:20
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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2016

segunda-feira

Mas tu estás em casa?

Esta foi a frase de recepção e depois a porta bateu e deu-se o silêncio. Podia ser pior. Podia ser algo mais ameaçador. Ou hostil. A hostilidade está na ordem do dia e a mulher sabe que serve bem de saco de box. Ou não. Teve vontade de ouvir música aos altos berros e assim o fez. Ouviu de novo a porta a bater. Desta feita, era a porta da rua.

publicado por Patrícia Reis às 18:19
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

sexta-feira

Cinco e quarenta e cinco da manhã, o despertador não tem função, a mulher está acordada há horas. Avança para a casa de banho, ciente de que o comboio partirá às sete e cinco, com ela ou sem ela. Despacha-se, faz o percurso a pé até à gare, encontra-se com outra mulher, mantêm a boa disposição e vão. Fazem o que é preciso, uma reunião, esclarecimentos, dúvidas e ideias. Regressam de comboio, despedem-se, são cinco da tarde. Quarenta e cinco minutos depois, a mulher entra no cabeleireiro e, às oito e meia da noite atravessa o lobby de um hotel no centro da cidade. É uma festa e ela está a morrer e ninguém imagina. Sorri e cumoprimenta, permanece alerta, um despertador interior. Quando chega a casa, não sente os pés, as costas, e a cabeça - ao contrário - estala e lateja e protesta. A mulher toma um comprimido. Apaga a luz.

publicado por Patrícia Reis às 23:50
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016

quinta-feira

O miúdo apareceu elegante, de cuecas e colar, sem meias, e espantou-a com boa disposição. A mulher encolheu-se numa gestão de silêncio que lhe pareceu eficaz: se não dissesse nada podiam ser felizes por momentos e isso era tudo o que existia. O resto do mundo estava cheia de equívocos, porque pensar e dizer e sentir são uma grande tarefa. Não é para todos.

publicado por Patrícia Reis às 19:22
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016

quarta-feira

Há um espelho de corpo inteiro que a encara desconfiado. Seria prudente evitá-lo, é o que a mulher pensa, mas persiste na posição, o corpo inclinado para tentar aliviar as costas, as mãos nos joelhos, os pés descalços bem fincados no chão. Fecha os olhos e consegue ver-se, uma repetição do espelho dentro dela e ela em duplicado: aquilo que é e a imagem que tem de si devolvida pela superfície prata. A mulher convence-se que está a enlouquecer.

publicado por Patrícia Reis às 19:24
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

segunda-feira

O miúdo arrasta as muletas com um sentido grave, frágil, ciente de que não sabe fazer isto de andar com quatro pés e um deles estragado, triste e caído. O miúdo dirá, zangado com o mundo, com o a traição do seu corpo, que todos os verões fica doente, que não é justo. Seria muito melhor se fosse em tempo de aulas. A mulher sublinha que o começo das aulas já se deu. O miúdo atira as muletas para o chão e deixa-se cair na cama. Ah, o mundo não é justo.

publicado por Patrícia Reis às 18:32
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Domingo, 18 de Setembro de 2016

domingo

Estou a engolir a madrugada sem velocidade, como uma menina que não gosta da sopa, e nada avança, é o que a mulher pensa enquanto prossegue num trabalho que, afinal, não lhe dará nada de mais, nada de novo. Alguém lhe disse que só existem três razões para aceitar um trabalho: por prazer, por dinheiro, por notoriedade. Não sendo o caso, a mulher veste-se de vergonha e percebe que a estupidez é só sua e apenas sua. Se lhe fosse possível gritava, mas depois das dez da noite não se pode fazer barulho.

publicado por Patrícia Reis às 01:37
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