Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Antes do outro lado do mundo do que em sítio nenhum



O mundo tornou-se uma caixa minúscula, apenas um quadrado do lado direito do ecrã do computador e a tua imagem, por vezes desfocada, por vezes distinta, um sorriso aberto. A tua mão a passar na cara, a disfarçar as lágrimas, como se eu não soubesse. Não há distância que me impeça de te conhecer, sabes?
Sei que mordes o lábio quando estás nervosa. Se tens algo para contar quando falas mais baixo e devagar. Gostas de fazer perguntas concretas. Odeias demasiados adjectivos. És apaixonada por tudo o que é tecnologia, mas tens a maior colecção de poesia que conheço. Se te perguntarem de onde és, encolhes os ombros. Para ti o mundo tornou-se pequeno muito cedo. Começou numa viagem de comboio depois do liceu, depois um curso no estrangeiro, um estágio num outro continente e, por fim, uma pós-graduação na terra natal. Se não fosse a pós-graduação talvez nunca nos tivéssemos cruzado e seríamos duas metades de laranja desencontradas. Seria um desperdício, não achas? Vais gozar e dizer que desperdício é um pano que se tem no carro para limpar a vareta do óleo.
O fuso horário ou o facto de os hábitos culturais aqui parecerem ser diferentes não te ofuscam, não te tiram importância. A minha vida ainda é feita em função de ti. As tuas memórias estão dentro do computador, nas fotografias, na pasta que tenho no telemóvel com mais de quinhentas mensagens escritas. Sabes que podemos escrever a nossa história de amor só com aquelas mensagens? É verdade, não estou a exagerar.
O amor por escrito não vale tanto, dizias tu no início, depois não resistias e os meus dias passaram a ser invadidos por curtas mensagens, umas mais subtis que outras, alguns enigmas, umas tantas surpresas. Eu comecei por me queixar da vertigem do mundo, desta coisa de estarmos sempre ligados – não no que nos diz respeito – mas aos outros, aos que invadem a nossa vida: sinais sonoros de avisos de mensagem. Chats e imagens em computadores muito pequenas que cujo objectivo é combater a solidão, videos idiotas do youtube, gosto e não gosto no facebook. Tu nunca quiseste saber. Estar ligada ao mundo é a tua maneira de estar. Percebi isso depressa.

Aqui, apesar de tudo, sinto-me sozinho só às vezes. Talvez não tenha sido a melhor opção. Sei que este emprego é importante, até em termos de um potencial futuro conjugado a dois. Não deixo de ter dúvidas. É sempre assim. Fico preso às imagens da televisão e penso nos gestos políticos da Terra e na forma como te posso perder. Um tsunami, um sismo, um furação. Quando era miúdo não ouvia estas palavras. Bom, quando era miúdo nunca pensei apaixonar-me por alguém que vive a pensar em tudo o que está debaixo de água. Tu dizes que nasceste para estar em estado líquido e estudas biologia marítima como se fosse uma paixão. Desculpa, é uma paixão. Trocas informações com colegas do mundo inteiro, até tens uma amiga que se chama Suzuki e que vive no Japão. O teu desespero com o desastre de há uns meses mobilizou uma série de gente e, no fim, Suzuki apareceu sorridente, triste, mas sorridente. Explicou todas as questões técnicas, as placas tectónicas e a força do mar, ondas de dez metros. Tu ouviste tudo e gravaste. Mandaste o ficheiro e vi a tua amiga, por vezes com a imagem a falhar, a explicar como se estivesse a dar uma aula ou a contar algo de trivial. Um rosto desconhecido num inglês sofrível. Mais uma pessoa com quem não me cruzaria se não fosses tu.
Sempre admirei essa tua faceta de entender o mar como algo comum, uma espécie de amarra que nos separa e junta ao mesmo tempo. Pode parecer paradoxal, mas não é tanto assim. Os oceanos são uma forma de vida única e trazem e levam o melhor e o pior. Tu não tens medo. Eu tenho. Confesso-te que sou apenas um professor, aliás um leitor se formos sinceros, contratado para divulgar a cultura portuguesa, a língua de Pessoa e de Camões. Como é que alguém como eu começa uma relação com uma pessoa que sabe tudo sobre as baleias azuis? Agora sei que as baleias azuis têm um coração do tamanho de um carro. Foste tu quem mo ensinaste. E eu ensinei-te o quê? Que temos as fronteiras mais antigas da Europa, que o mar como destino e trajecto para um mundo de Descobertas era uma inevitabilidade se queríamos sobreviver. Coisas, se quiseres, banais.
Na semana passada, além dos emails, dos chats com imagem e até das sms, tive a maior surpresa de todas: enviaste uma caixa, devidamente acondicionada com papel de bolhas de plástico e, lá dentro, um frasco com areia da praia. Uma praia onde foste para fazer pesquisa. Com o pequeno frasco estava um cartão que dizia: “Em terra ou no mar estou sempre aí ao teu lado”. E eu senti-te, aqui mesmo.  Toquei no teu rosto, a tua imagem parada no ecrã do meu telemóvel antes de marcar o número da nossa casa.

publicado por Patrícia Reis às 15:53
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