Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Temos medo

Temos medo. Podemos dizer que não temos, podemos tentar racionalizar, mas é um facto que o século XXI é o século do medo. Pelo menos até agora. Pode ser que mude, porém não vejo sinais de qualquer mudança, sinto apenas a escalada do medo. Aqueles pais, e Manchester, à espera de entender se o filho ou filha morreram é uma imagem que irá permanecer comigo durante muito tempo. Existem imagens hediondas que nos atingem todos os dias, mas o que se passou em Manchester não é um atentado como os outros. O público que assiste aos concertos da artista norte-americana Ariana Grande é jovem, muito jovem. A artista tem um concerto agendado para o Meo Arena e a pergunta que faço é: quantos pais vão repensar essa ida nocturna dos filhos a um concerto? E quantos perguntarão: um dia destes será em Lisboa, certo?

O medo é paralisante e será com isso que muitos movimentos terroristas contam. Não se sabe se o bombista suicida que se fez explodir em Manchester - matando (até ao momento) os 22 e ferindo 59 pessoas - era de algum grupo terrorista. O ataque não foi reivindicado. Uma coisa é certa, conseguiu entrar numa arena com capacidade para milhares de pessoas levando uma bomba que se supõe caseira. Não se sabe quem era, de onde vinha, o que fazia, em que acreditava.

Adonis, o poeta sírio tantas vezes indicado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, escreve no livro “Violência e Islão” que não é possível o Ocidente e o Islão chegarem a um entendimento enquanto os estados árabes não forem laicos. Afirma que a religião como forma organizadora da sociedade implica, no caso do Islão, violência por ser uma religião criada na violência. Nunca quis acreditar nesta versão, por ser demasiado redutora, por reflectir a vida do poeta, que admiro, mas que está condicionado pela sua experiência. Numa coisa, contudo, está absolutamente certo: o islamismo é a religião que mais cresce, é o que mostram os últimos estudos, e o Ocidente sente-se ameaçado pelo invisível. Os terroristas que se dizem islâmicos não têm uma agenda lógica, atingem onde menos se espera. Nada pior do que não conseguirmos prever. O mundo que temos para os nossos filhos, os nossos netos, não promete nada que seja fácil e não garante qualquer segurança. Sim, repito, temos medo. E temos razões para ter medo.

O medo rouba-nos a liberdade, promove a desconfiança, remete-nos para o que consideramos seguro. O conhecimento e a vida não se fazem sem riscos e essa é a maior vitória do terrorismo que, tantas vezes, diz ofender-se com o estilo de vida ocidental. Sem liberdade não conseguiremos evoluir como sociedade e os retrocessos ao nível dos valores serão inevitáveis, os direitos serão condicionados. Não é assim que queremos viver, bem sei. Seria bom promover o diálogo, mas quem é que quer falar com terroristas que matam crianças? Manchester é assustador por ser no nosso contexto, dentro do padrão normal do nosso comportamento. Outras crianças morrem. Todos os dias, na Síria por exemplo, a morte é o mais comum. Qual é a diferença? O que acontece num país tão distinto da nossa realidade é algo que nos comove pontualmente. Talvez por isso as nossas crianças sejam mais importantes que as crianças dos outros. Nada podia ser mais triste.

publicado por Patrícia Reis às 13:57
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