Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.
Letra: Ary dos Santos
Javier Tamames
Quinta-feira, 12 de Junho de 2008
Eram supostos ser três rounds na Versailles logo pela manhã: o primeiro encontro, o que implicaria o meu crescimento, deu-se com alguma facilidade e não perdi a compostura.
O segundo, com um amigo, foi divertido e produtivo, prova que a amizade não conhece fronteiras. O terceiro, pelas 11h30, com a única mulher desta história, foi desmarcado com o envio de um sms na véspera.
Pelo meio dia e meia já tinha subido ao Evareste e descido os Himalaias.
Às três da tarde decidi que chegava.
Há dias que acabam rápido.
Quarta-feira, 11 de Junho de 2008
Amanhã pelas onze, em frente a um café na Versailles, tentarei ser uma senhora, calma, cordata, gentil, atenta, inteligente, sensível, bondosa, tranquila, divertida, bem disposta.
Pode ser que consiga. Se sim, se for capaz de manter o meu plano infalível, sem desesperar, terei então crescido. Estarei, em definitivo, no mundo dos crescidos. Oxalá. Ou não.
Terça-feira, 10 de Junho de 2008
O último poema
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira
Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

O meu filho mais velho queria ver o sexo e a cidade em filme. O meu filho mais velho tem doze anos, uma biblioteca de fazer corar alguns adultos que conheço, um feitio difícil e uma gargalhada que o faz atirar para trás a cabeça cheia de caracóis. O dia estava perdido, fomos ao cinema ver as meninas: carrie, charlotte, samantha, miranda. Sabendo eu que haveria sexo, mentiras, traições e outras coisas menos apropriadas a menores. Quando carrie desvenda o seu desgosto em frente a um espelho num previsível resort mexicano, pouca maquilhagem, zero glamour, olheiras e os quarenta anos a gritar que estão ali todos, o meu filho quase fez beicinho. Ele não sabe que eu vi. É melhor assim.
No fim, disse-me:
- Deve ser bom ter amigos assim.
O resto não teve o mesmo impacto.
Nada mau para uma conversa de meninas.
Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

A grande frase do filme, An Affair to Remember, que já vi tantas vezes que esgotou a paciência de quem partilha o meu espaço, é:
- Winter must be cold for those who have no warm memories.
Neste filme tudo é perfeito. Tudo sem excepção. Como o amor.
Quarta-feira, 4 de Junho de 2008
Perplexo o meu amigo disse:
- Não entendo. Enganar-me com o marido? Como é que tal é possível?
Depois explicou que a razão da sua dor se chama Maria, como tantas, uma mulher cheia e risonha que o surpreende há três anos: bate-lhe à porta sem mistérios e tudo é bom, intenso e belo. O único problema é o marido. O mesmo que agora a deixou e ela, em vez de bater à porta do meu amigo, manda dizer que não quer nada, a relação acabou porque o marido a deixou e ela não vai conseguir sobreviver ao desgosto.
- Não entendo.
O meu amigo repete a mesma frase. A ver se a entende.
Terça-feira, 3 de Junho de 2008
O tempo é um composto abstrato, difícil, permanente.
Há dias que apenas precisamos de sentir que estamos aqui para alguém.
Há outros dias em que corremos para não estar em sítio nenhum. Um dia tu disseste:
- Preciso de ser abraçado todos os dias.
Nao fazia sentido, então.
Agora faz.
Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Era uma festa de arromba em Paris.
Vestidos compridos, curtos, homens de laço, brilhos e cabelos ao alto.
Uma festa de glamour.
Fui vendo à distância a multidão a rir e a beber champagne.
De repente, o estilista entrou rodeado de mulheres altas e loiras, cinturas de vespa.
Não ouvi a sua voz, não senti o seu perfume, mas ele estava lá e eu vi-o.
O homem que redesenhou o nosso conceito de feminino.
Domingo, 1 de Junho de 2008
…Carpe Diem, aproveita o dia. Não deixes que termine sem teres crescido um pouco, sem teres sido um pouco mais feliz, sem teres alimentado os teus sonhos. Não te deixes vencer pelo desalento. Não permitas que nada tire o direito de te expressares que é quase um dever. Não abandones o anseio de fazer da tua vida algo extraordinário… Não deixes de crer que as palavras, o riso e a poesia podem mudar o mundo… Somos seres, humanos, cheios de paixão. A vida é deserto e também oásis. Aniquila-nos, lastima-nos, converte-nos em protagonistas da nossa própria história… Mas não deixes nunca de sonhar, porque só através dos sonhos pode ser livre o homem. Não caias no pior erro, o silêncio. A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes… Não atraiçoes as tuas crenças. Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos. Isso transforma a vida num inferno. Desfruta o pânico que provoca ter a vida pela frente… Vive-a intensamente, sem mediocridades. Pensa que em ti está o futuro e em enfrentar a tua tarefa com orgulho, impulso e sem medo. Aprende de quem pode ensinar-te… Não permitas que a vida te passe por cima sem que a vivas…