Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
Quando a casa foi assaltada pelas crianças a gata escondeu-se numa prateleira com malas de senhora. Ficou recolhida ali na esperança de se tornar invisível. Com sentido apurado, as crianças descobriram-na e ela, com as orelhas espetadas, aguardou a maldade.
Uma das crianças disse
- Deixem a gata escondida, vamos mas é brincar.
Até o silêncio envolver a casa, a gata ficou ali, ponderando, quem sabe, na bondade, no desprezo, no barulho das crianças. Quando se levantou do esconderijo trazia um porte aristocrático. Afinal, escondida ou não, é uma gata.
Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008
Receita para uma festa de anos:
arroz de pato (dois tabuleiros)
tortilha de legumes (dois tabuleiros)
saladas (duas penicas grandes)
pratos de queijo (4 pratos)
pão e grissinos (dois cestos)
sangria de champanhe (um balde de dez litros)
mousse de chocolate (duas penicas)
bolo de anos (com tartarugas ninja para dar um toque infantil)
sumos
água
café para quem ficar até mais tarde
erros cometidos: paté de santola, paté de salmão
resultado: uma noite em grande
Terça-feira, 12 de Agosto de 2008
O homem riu-se e começou por dizer, gaguejando:
- Tu... tu... tu...
E o miúdo adiantou-se:
- Tutu é para o ballet!
Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Ia com os miúdos, arrastando-me na conversa sobre wrestling e depois sobre cinema e ainda sobre a playstation ou, ainda, sobre qualquer queixa do género
- Mãe, ele fez isto e fez aquilo...
- Não foi nada, mãe, ele é que ....
E de repente, no Saldanha, no topo do edifício do antigo Monumental, onde passei tantos desfiles de carnaval enquanto criança, vi o Batman a tomar conta de nós.
Batman é o meu herói preferido, o único que cria os seus poderes, o único que é suficientemente atormentado para ser misterioso e sedutor.
Bruce Wayne faz parte dos eleitos.
Apontei, com entusiasmo, para o Batman no Saldanha e os miúdos olharam com certo desprezo e fizeram
- ah, ah...
Já nada é como dantes.
Domingo, 10 de Agosto de 2008
Passageiros entre palavras fugazes:
agarrem nos vossos nomes e vão-se embora,
Cancelem as vossas horas do nosso tempo e vão-se embora,
Levem o que quiserem do azul do mar
E da areia da memória,
Tirem todas as fotos que vos apetecer para saberem
O que nunca saberão:
Como as pedras da nossa terra
Constróem o tecto do céu.
Passageiros entre palavras fugazes:
Vocês têm espadas, nós o sangue,
Têm o aço e o fogo, nós a carne,
Têm outro tanque, nós as pedras,
Têm gases lacrimogéneos, nós a chuva,
Mas o céu e o ar
São os mesmos para todos.
Levem uma porção do nosso sangue e vão-se embora,
Entrem na festa, jantem e dancem…
Depois vão-se embora
Para nós cuidarmos das rosas dos mártires
E vivermos como queremos.
Passageiros entre palavras fugazes:
Como poeira amarga, passem por onde quiserem, mas
Não passem entre nós como insectos voadores
Porque temos guardada a colheita da nossa terra.
Temos trigo que semeámos e regámos com o orvalho dos nossos corpos
E temos aqui o que não vos agrada:
Pedras e pudor.
Se quiserem, levem o passado ao mercado de antiguidades
E devolvam o esqueleto à poupa
Numa travessa de porcelana.
Temos o que não vos agrada: o futuro
E o que semeamos na nossa terra.
Passageiros entre palavras fugazes:
Amontoem as vossas fantasias numa sepultura abandonada e vão-se embora,
Devolvam os ponteiros do tempo à lei do bezerro de ouro
Ou ao horário musical do revólver
Porque aqui temos o que não vos agrada
E temos o que não vos pertence:
Uma pátria e um povo exangue,
Um país útil para o esquecimento e para a memória.
Passageiros entre palavras fugazes:
É hora de vocês se irem embora.
Fiquem onde quiserem, mas não entre nós.
É hora de se irem embora
Para morrerem onde quiserem, mas não entre nós
Porque nós temos trabalho na nossa terra
E aqui temos o passado,
A voz inicial da vida,
E temos o presente e o futuro,
Aqui temos esta vida e a outra.
Vão-se embora da nossa terra,
Da nossa terra, do nosso mar,
Do nosso trigo, do nosso sal, das nossas feridas,
De tudo… vão-se embora
Das recordações da memória,
Passageiros entre palavras fugazes.
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Sábado, 9 de Agosto de 2008
Ir a um hospital não é um passeio agradável. É uma obrigação. Hoje de manhã, o hospital estava despido de gente. Gente doente tinha rumado à praia, por certo, tinha adiado a doença, tinha decidido ser saudável, comer legumes, beber muita água, fazer exercício físico. O mundo, na sala de espera vazia, pareceu-me um anúncio americano de beleza e músculo. Fiquei de fora. Quando o técnico me chamou para fazer a Tac estranhei a falta de janelas e fiz um comentário. O técnico encolheu os ombros e disse-me que era melhor assim
- Não vejo o que se passa lá fora.
E eu - cheia de imagens de pessoas saudáveis a beber sumos de frutas, a exibir os seus corpos esbeltos, sorridentes, felizes - concordei.
Fiquei quieta por uns instantes e depois voltei para casa.
No quarto tenho sempre as cortinas corridas. Estou em sintonia com o técnico da imagiologia. Ele é que não sabe.
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
O médico tinha um ar simpático, sabe? Foi até carinhoso. Gozou com a situação quando me debrucei na marquesa e fiquei com as calças pelo joelho. Eu ali sem me mexer com uma espada gigante, uma verdadeira excalibur, enfiada nas costas. Literalmente. E a rádio ao fundo
- M80, todos os êxitos dos anos 70, 80 e 90.
E o médico a querer saber se dói mais aqui - e vá de carregar com os polegares - ou talvez ali mais abaixo. Uma tortura. E depois a pergunta que não era uma pergunta
- Está a suar.
- Sim. Ou é isso ou digo palavrões. De dor.
Se eu fosse um desenho animado seria assim: a espada nas costas e eu correr da dor e os restos de mim a ficar pelo caminho em riscos de cor, preto e vermelho, amarelo e azul, e o médico a ser esmagado por um rochedo inofensivo.
Deitada na marquesa com um cocktail de analgésicos e de anti inflamatórios fiquei a pensar na vida.
Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008
A estreia foi ontem num canal da televisão por cabo. Uma série com Holly Hunter no papel principal. Em resumo: uma mulher recebe a visita do anjo da última oportunidade e terá de rever a forma como vive. Fiquei a pensar naquilo do anjo que masca tabaco e bebe cerveja, que tem asas de prata e que nos pode carregar até ao abismo para nos abalar. Depois pensei, como sempre nestas coisas, nas Asas do Desejo e ainda na Cidade dos Anjos. Espero que o meu anjo seja como Nicholas Cage. E até pode parecer estranho ou pitoresco, mas não é uma qualquer crença para servir a literatura: eu acredito em anjos. Há os de várias formas, tempos e matérias. É só preciso estar atento. Um dia conto-vos uma história. Fica prometido.
Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008
Sonhar enquanto dormimos é estar fora, sozinho, longe e protegido da realidade ou da dor. Retomar o sonho é uma capacidade estranha que se desenvolve raramente.
Acordamos, o sonho escapa-se e, quando voltamos ao sono, conseguimos retomar o mesmo sonho.
Faz de nós seres poderosos e pode ser viciante.
Terça-feira, 5 de Agosto de 2008
O homem afastou os cabelos com a mão, uma mão pequena, delicada, quase feminina. Não tinha nada para fazer. Com regularidade verificava o telemóvel. Olhava para as pessoas na recepção do hospital. Afastava de novo os cabelos. Havia um índice de ansiedade de tal ordem elevado que era quase constrangedor: sentado na cadeira o homem fazia uma maratona, estava em esforço, todo ele exposto. Por fim, o telemóvel deu um sinal, um pequeno apito, e o homem disponibilizou-se de imediato a ler. Sorriu e começou a teclar furiosamente. Fosse o que fosse, naquele momento, por escrito, alguém tinha terminado com o dia miserável daquele homem sentado na sala de espera do hospital. Às vezes basta uma palavra ou, melhor, a abreviatura de uma palavra como bj ou algo assim.
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
A minha mãe, já rindo, esclareceu sobre a veracidade do relato. Um episódio da vida real passado no Alentejo profundo. Ela contou:
- Então a minha amiga, que é de Ferreira do Alentejo, foi a um enterro. No caminho da casa mortuária lá do sítio cruzou-se com a antiga empregada dos pais dela. A conversa fez-se logo ali na rua e a antiga empregada explicou que vinha das compras. Ela disse: "Fui ali comprar uma televisão para o meu Toy. Uma dessas, sabe? um plasma. Olhe, uma televisão sem cu."
Rimo-nos muito e a minha mãe encostou-se à cadeira com ar satisfeito.
Missão cumprida.
Domingo, 3 de Agosto de 2008
O miúdo já não é tão miúdo assim.
Tem os óculos postos e vê televisão mudando de posição a cada dois minutos.
Por vezes ri-se.
Há um calor medonho lá fora, pessoas na piscina.
É domingo.
E os domingos são assim: em casa.
A casa como santuário, uma cápsula protectora, uma nave mãe.
Sábado, 2 de Agosto de 2008
O pôr do sol é pelas oito e meia da noite. As pessoas deslocam-se como nuvens para Oia, encostam-se às paredes caiadas de branco, aos muros; sentam-se nas escadas, tiram fotografias e ficam em silêncio. O céu vai-se transformando, desafia as cores e acolhe o sol com um sentido de amor que pode ser confundido com melancolia. Quando resta uma nesga cor de fogo há um movimento colectivo: primeiro as pessoas suspiram, depois batem palmas. Dizem que há quatro mil anos que o pôr-do sol em Oia (lê-se Ia) é um espectáculo diário. Recolhendo ao interior da cidadezinha, pelas ruelas cheias de lojas de ícones, amuletos da sorte, sabonetes de azeite e outras coisas mais turísticas, há uma quebra de luz e o céu, o céu imenso das estrelas, abre-se nas nossas cabeças e chama-nos a atenção. A electricidade deu cabo do resto: depois do pôr do sol, as estrelas brilham como nunca e esse é, desconfio, o verdadeiro espectáculo.