Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Decisões a meio da tarde

Não subir o tom de voz. Não suspirar. Não me queixar. Não disfarçar a dor. Pedir ajuda. Evitar fazer quatro coisas ao mesmo tempo. Não gerir o tempo dos outros na medida do meu. Não controlar nada nem ninguém, as coisas aparecem feitas na mesma. Ter tempo para não fazer nada. Estar apenas. A vegetar. Ser um bróculo por momentos, ser um molho de bróculos e curtir a minha dimensão esverdeada. Não fazer planos. Esquecer-me das horas. Chegar atrasada como todos os portugueses. Culpar alguém que não eu mesma. Deixar cair a bitola de excelência que inventei que inventaram para eu alcançar. Mandar tudo às urtigas. Prolongar os abraços com o meu marido pela simples necessidade de ser abraçada. Ir ao cabeleireiro ler revistas sobre o Cristiano Ronaldo e saber tudo sobre a vida de José Castelo Branco. Deixar de ter um blog diário. Aceitar com generosidade o excesso de advérbios de modo e duplas negativas, há coisas contra as quais não vale a pena combater. Ignorar as segundas-feiras. Dar os relógios todos. Nunca mais pagar impostos. Fazer viagens de 15 dias a cada três meses. Dizer que não. Dizer que agora não posso. Deixar de pensar na falência do corpo, na pele seca, nas gorduras, nas coisas óbvias dessa doença degenerativa que é vida. Não ir ao dentista. Não tomar comprimidos. Acreditar em algo melhor todos os dias. Não dizer sempre as mesmas coisas: tira os pés daí, fecha a boca enquanto comes, vai estudar, lava o aparelho, estou a falar não me interrompas, faço já, desculpa não comprei, sim, estou a ir. Chorar mais vezes. Publicar isto e depois pensar que sou apenas patética e, depois, isso não ter qualquer importância.
publicado por Patrícia Reis às 17:01
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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Me ligue vai

Então ela disse:

- Sim, porque eles precisam de mim na medida da minha conversa. Sou uma "talking" puta e, ainda por cima, barata, porque não cobro, não recebo flores, não me mandam chocolates. Estou aqui, disponível para falar, para ouvir, para aconselhar, para orientar. Para qualquer coisa que queriam menos para o exercício do amor.Ah, pois, porque talking puta é outra dimensão, nada de coisas físicas, que seria?, as palavras vão e vêm sem ciclos orgásmicos. Nada de coisas múltiplas e suadas. Minto, há o suor de os ouvir, os homens da minha vida, a dizerem coisas, a sentirem-se grandes na medida exacta das palavras que empregam. A vitimizarem-se uma primeira vez e depois várias, já que não contestam o rótulo e explicam, explicam à exaustão o que pretendem. E o que pretendem? Algo grandioso e altruísta, porque na verdade são todos muito bonzinhos, não é? Precisam que eu faça de receptor de discursos e eu aqui estou para os abraçar nas suas hesitações e infantilidades.

Depois de ter dito tudo isto de seguida, o telemóvel tocou e ela atendeu. Esteve 40 minutos ao telefone. A fazer de talking puta. Mais uma vez. Quando desligou pensou que deveria apurar se é possível transformar o seu número de telefone num número de valor acrescentado, sempre eram 60 cêntimos por minuto que encaixava. Isso sim, seria um negócio.
publicado por Patrícia Reis às 16:57
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Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Aniversário



Cara Agustina,

Hoje vi o seu Martinho a rondar o Rijksmuseum em Amesterdão. Fazia-o com passos incertos e quase ridículos por via da chuva que nos deixava os pés molhados, uma tortura para evitar as poças. Martinho tinha aquele ar autoritário mas, talvez perceba isto, uma certa fragilidade que só a idade traz aos homens. Como lhe digo, rondou a fila de turistas com algum desprezo pelos americanos de panamá impermeável colorido que falavam alto e nesse registo nasalado que consegue ser tão inconveniente. A chuva não ajudava. Vi Martinho a colocar na máquina do raio x a sua gabardina bege - clássica, com aqueles cintos que me lembram os do roupão de casa de banho. A realpolitik do terror. Não acha? Martinho comprou o bilhete e atravessou as salas sem pressa, sem olhar para lado nenhum. Eu, na esperança que ele parasse junto do quadro de Catrina Hoogsaet, uma vontade egoísta, só minha.
Rembrandt pintou Catrina quando ambos tinham 50 anos, no ano de 1657, um ano depois de ter declarado falência e ter sido forçado a fechar o seu atelier. A história de Catrina é de uma imensa coragem: casa aos 19 anos para ficar viúva um ano depois. Aos 30 volta a casar, mas a sorte não está com ela. Em conflito com o marido, pede autorização à igreja para se separar. A igreja concorda temporariamente, promovendo a reconciliação. Catrina monta a sua casa, é banida da comunidade, e, até à morte do marido, mantém-se firme: nada de reconciliações. Aos 66 anos fica viúva e volta a casar.
Catrina pertence, hoje, a uma família escocesa, jóia de uma colecção privada. Está no Rijskmuseum de empréstimo. Por vaidade do coleccionador, não duvido.
Segui Martinho com alguma irritação pela sua indiferença. Talvez não saiba nada de Catrina e, só isso, me entristece.
Quando chegámos, por fim, à sala da Ronda da Noite, Martinho seguiu em frente até ao cordão, sem pedir com licença, sem se ralar com a multidão e eu fiquei presa nos salamaleques do costume. Martinho fixou-se no quadro e ali ficou vinte minutos, contados por mim. Não sei o que me comoveu mais. Se ele ali sozinho, a imaginar-se com cinco, sete anos, a vestir a roupa da avó para ser como a pequena Saskia, a luminosa e poderosa criança que carrega a caça pequena à cintura; se a luz que vinha da mão de Rembrandt. Escolho Martinho e, por isso, querida Agustina, a vantagem e o ganho é tudo seu. Daqui, do frio de Amesterdão, a saúdo.
publicado por Patrícia Reis às 14:02
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Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

E ainda


2.
Pensa nisso. Como um pedido ou uma ordem. Tu desse lado. Eu deste. Tu a fazer de conta que sou eu e a dizer que a sala do museu era quadrada, perfeita, sabendo que eu correria para a outra frase, um quadrado não é perfeito. Não me lembro da criança, nem do Rembrandt, desculpa. Lembro-me do meu corpo em frente a um espelho e do teu sexo sossegado, em contemplação infantil do meu. Entre nós o sexo não teve outra coisa senão isso, a contemplação e o choro. Nunca tivemos sexo, claro, só o toque e a língua dentro um do outro, como um pedido, uma tortura. A tua verdade não suporta a ideia do meu corpo tão pequeno, tão sem jeito e depois, ao contrário do que dizes, eu só acredito na mentira e na mentira de Deus. Sim, porque na sua imensa sabedoria, Ele dá-nos a hipótese da verdade ao contrário e isso traduz-se na mentira. A mentira do sexo, da tua língua, da apreciação teórica sobre o Rembrandt (eu gosto mais do Turner, desculpa outra vez). O que me alegra é pensar que sentes o meu cheiro à distância, cheiro a nuvens, disseste, e que continuas a enganar-te com a ideia de verdade. Sinto quase uma comoção quando te referes às imagens como verdadeiras, aos filmes. Nunca aos livros, porque esses metem medo, não é? Não acredito nas imagens, nem nos santos e talvez nem sequer Nele. Faço a apologia da ilusão, como num grande cenário, barroco, sublime, em tudo o que parece não é, deliberadamente, apenas uma mas mil coisas. Vou obrigar-te a contar a história do princípio, porque todas têm um princípio e tu não podes reduzir-me a um papel que tu interpretas (que mal que o interpretas, meu amor). Pensa nisto e recomeça.
publicado por Patrícia Reis às 14:23
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há tanto tempo



Ela sou eu. Sou eu que digo.
Este não é o meu corpo. A verdade é essa. Eu sei que tudo começou em Amsterdão. Eu sei que foi face ao Rembrandt, com o rosto da criança a perder-se na sombra. Eu sei que tu também sabes. A sala do museu era quadrada, perfeita. É absurdo dizer-se de um quadrado que é perfeito. Foi o que tu disseste: o equilíbrio geométrico traduz a materialização da própria ideia de perfeição. De verdade. Porque Deus é geómetra. Eu sei. Mas foi face ao Rembrandt, fixando o olhar da criança a perder-se na sombra, que eu te perguntei se me querias fotografar como sou, ou se me querias fotografar para consumar uma ideia de mim de que eu poderia ser, não o corpo, mas o instrumento. Pensas demais, disseste. Quero o teu corpo, disseste. Quero a imagem do teu corpo, ouvi-te dizer. Mas o meu corpo não é a imagem do meu corpo. Quero os dois. Queres os dois. Não te dou tanto. Se me amares mais do que eu te amo, dás-me tudo isso e será sempre pouco. Repara no Rembrandt. Que importância tem a criança se está a desvanecer-se na penumbra? Se isto fosse um filme, na imagem seguinte já não estaria lá. Não, meu amor. Estaria a verdade da sua ausência. A ausência não pode estar relacionada com a verdade. Pode sim, a ausência é a própria encarnação de Deus e Deus é sempre verdade, toda a verdade. Este não é o meu corpo. Esta pose, as pernas abertas como um gafanhoto, a luz crua sobre as nádegas, o traço de sombra que começa milímetros antes da boca do meu sexo, o braço esquerdo paralelo ao tronco, a mão virada para cima, a outra mão já fora do enquadramento, o olho direito a brilhar sobre os cabelos desarranjados, nada disso sou eu, nada pode ser atribuído à decisão de Deus nos massacrar com a sua ausência. O olho direito e o sexo na penumbra podem ser dois vértices de um losango que se desenha já fora da imagem, afastando de nós o peso e a culpa da perfeição. Mesmo se é verdade que todos os quadrados são losangos. Acontece que nem todos os losangos são quadrados, meu anjo. Apesar de tudo, Deus aceita dar-nos algumas figuras de apaziguamento. Pensa nisso.
publicado por Patrícia Reis às 14:21
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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

O poema do Joãozinho

É tão bom comer pizza
E eu odeio ser à baliza

É tão bom ter amigos
Que nunca comem figos

É tão bom ser inconveniente
Ao careca dar um pente

É tão bom ser João
E ter oportunidade de ir ao Japão

É tão bom brincar
E no escorrega escorregar
publicado por Patrícia Reis às 17:48
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Domingo, 12 de Outubro de 2008

O clássico by Marco Paulo para os menos informados

Maravilhoso coração, maravilhoso
meu companheiro nos caminhos desta vida
ambos sofremos muitas horas de tristeza
mas partilhámos os momentos de alegria

Maravilhoso coração, maravilhoso
eu te agradeço a amizade e a companhia
tu és a amigo quando há dor
és confidente no amor
quero dizer-te que sem ti não existia

Maravilhoso coração, maravilhoso
quantas loucuras e aventuras repartimos
recordações inesquecíveis nos ficaram
tantos amores e paixões que nós sentimos

Maravilhoso coração, maravilhoso
sou tão feliz quando te sinto a palpitar
bendita a vida que me dás
e quando eu te peço mais
ficas comigo, tu não sabes recusar

Maravilhoso coração, maravilhoso
não deixes nunca de sonhar é um pedido
não deixes nunca de sentir as emoções
as sensação que nós os dois temos vivido

Maravilhoso coração, maravilhoso
tu és a chama que se aninha no meu peito
para que sempre exista amor
para leva-lo onde eu for
eu te agradeço todo o bem que me tens feito
publicado por Patrícia Reis às 13:33
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Sábado, 11 de Outubro de 2008

O meu irmão

O meu irmão fez anos ontem. O meu irmão tem uns tiques e expressões específicas. Quando quer interpelar alguém diz: "Olha!" Remata as conversas com: "Mesmo à séria!" e quando se entusiasma lá sai um "é um espectáculo!". Nós que o amamos gozamos imenso com estas manias. Ontem pela madrugada viu-se rodeado de mulheres a cantar "coração maravilhoso, coração..." Um clássico tuga para acabar o aniversário em beleza. O meu irmão foi abanando a cabeça com alguma incredulidade. No fim, estava feliz. E nós por ele.
publicado por Patrícia Reis às 12:45
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

entrevista na net

Estou com excesso de coisas, com cansaço, sem ideias.

Para me lerem, deixo-vos uma pista

http://www.portaldaliteratura.com

Perdoem a preguiça.
publicado por Patrícia Reis às 18:34
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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

estrela do mar


O meu filho mais novo e eu fizemos de estrela do mar no fundo da minha cama.
Foi maravilhoso.
A casa estava em silêncio e éramos só os dois no mar da casa a ser estrelas brilhantes e alegres. No fim, cansado de ser estrela do mar, o miúdo soltou uma gargalhada e disse:

- és a maior.

E eu senti-me ainda mais estrela do mar.



(foto de maria joão rodrigues)
publicado por Patrícia Reis às 16:50
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Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

decisão pela manhã

Havia ali uma sombra, logo no princípio da manhã. Uma espécie de aperto próximo da angústia, um crescendo de coisa que podia ser terrífica. Respirou fundo.
Depois decidiu que não seria nada e levantou-se da cama, pronta para mais um dia.
publicado por Patrícia Reis às 17:58
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Terça-feira, 7 de Outubro de 2008

a pedido do tio

At last
My love has come along
My lonely days are over
And life is like a lovely song
At last
The skies above are blue
My hearts wrapped up in clover
Ever since the night I looked at you

I found a dream that I could speak to
A dream to call my own
I found a thrill to press my cheek to
A thrill like I have never known
Oh when you smile, when you smile at me
Thats how the spell was cast
And now here we are in heaven
I found my love at last

I found a dream that I could speak to
A dream to call my own
I found a thrill to press my cheek to
A thrill like I have never known
Oh when you smile, when you smile
Thats how the spell was cast
And now here we are in heaven
I found my love at last

(Joni Mitchell)
publicado por Patrícia Reis às 13:36
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

aula de pilates

Contrair o transverso como se fosse um cinto natural. Os ombros estão afastados das orelhas e a cabeça está suspensa, como se um fio a puxasse. Respiramos devagar. Colocamos a coluna numa posição neutra. Movimentamos os ossos da bacia como se fosse uma panela com água e encontramos o ponto de equilíbrio. Sem esforçar nada prosseguimos. Inspirar. Expirar. Se doer paramos, o exercício está mal feito. Se for preciso descansamos. No fim repetimos tudo outra vez em dez ciclos respiratórios.
publicado por Patrícia Reis às 20:05
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Domingo, 5 de Outubro de 2008

domingo

The Folks Who Live on the Hill

Some day we'll build a home on a hilltop high, you and I,
Shiny and new, a cottage that two can fill.
And we'll be pleased to be called
"The folks who live on the hill."

Some day we may be adding a thing or two, a wing or two,
We will make changes as any family will,
But we will always be called
"The folks who live on the hill."

Our verandah will command a view of meadows green,
The sort of view that seems to want to be seen.
And when the kids grow up and leave us,
We'll sit and look at that same old view,
Just we two, Darby and Joan who used to be Jack and Jill,
The folks who like to be called
What they have always been called
"The folks who live on the hill."


(letra: Oscar Hammerstein II música: Jerome Kern)
(c)1937
publicado por Patrícia Reis às 19:46
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Sábado, 4 de Outubro de 2008

Hoje pela noite


Hoje pela noite Carlos do Carmo encheu-me de tristeza e de alegria, fez-me rir e chorar, embalada pelos fados de uma vida. Foi no Casino Estoril. Um espectáculo sem fim. Como a voz de um cantor que é um poeta por cantar assim.
Deus o abençoe.
publicado por Patrícia Reis às 02:36
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