Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008
Quando cheguei à escola, o miúdo tinha um gorro enfiado na cabeça e o casaco apertado até acima. Disse-lhe:
- Parece que vais para o Alasca.
Ele respondeu, infeliz:
- Eu estou no Alasca.
O miúdo tem uma teoria que reza assim: de cinco em cinco meses está doente. Nunca falha. Até hoje em que a doença veio fora do tempo.
Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008
O homem estava junto ao elevador. Todo ele anunciava uma postura empresarial. Certeira. Confiante.O fato seria italiano, a gravata de marca, os botões de punho, embora discretos, eram de ouro. O homem sorriu ligeiramente e disse que iria até ao último andar, apanhar o helicóptero. Assim. Tal e qual. Houve um silêncio algo constrangedor, o elevador apitou, a porta abriu-se e o homem acenou com a cabeça em sinal de despedida. Parecia um filme. Era um filme.
Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008
Há uma mulher agarrada à rede das obras a gritar. Não se percebe o que diz, mas berra como um animal em desespero. Há sacos com lixo caídos no chão. São da mulher que grita. Nas obras os homens fingem não ver. As mãos da mulher agarram a rede e abanam-na com força, a maior força que tem. De repente acalma-se e diz
Estamos próximos de nos afogar.
E eu acredito nela.