A casa encheu-se de pratos com coisas: croquetes, pastéis, queijos e presunto, pão, pirex de maionese de peixe e gambas, batatas fritas, frango com natas, arroz, bolos e abacaxi e o miúdo que fez catorze há uns dias comoveu-se na hora dos parabéns, por ter uma plateia de gente crescida a sorrir. E é tão bom vê-los sorrir mesmo que sejam poucas as vezes que estamos juntos.
O sorriso do Juan é diferente do sorriso do Luís, o da Katila é aberto como o do Mauro, a Madalena deve o nome a uma canção que a Elis Regina cantava mas não sabe nada do Jó Soares (Mada, você não quer que eu volte!) e a Ana Patrícia insiste que a capa do iphone da amiga é da Playboy por ter orelhas. As conversas cruzam-se e os miúdos já não são tão miúdos assim, andam pela casa nas suas T shirts demasiado grandes ou pequenas, as cuecas à mostra, as calças no rabo. O meu marido socorre à falta de gin. A minha mãe insiste em lavar qualquer coisa, depois de ter trazido tudo e mais um par de pêras. Há uma cesta que a Aninhas trouxe com figos pela tarde e o Sebastião vai ao vidrão dez mil vezes sem dizer nada, sem que se lhe peça nada.
Na hora do adeus, a Ana Teresa ainda está falar sobre fado, a Teresa a encolher os ombros com uma outra observação do Vicente sobre um cantor, a Margarida e o Luís já saíram, a Manuela foi mais cedo, a Patrícia e o Tiago também. Ainda se ouvem os gritos do Tiago, dois anos e meio de gente, a olhar o céu: BUZZZZZZZZ! O ranger do espaço não está disponível, o Paulinho diz-lhe que estão a dormir e o Tiago não parece nada convencido. De repente, é tarde, a casa fica vazia, arrumo as coisas, a minha avó a dizer que aos oitenta anos vou estar como ela, o meu marido a limpar não sei o quê. O Gugas foi-se, os outros dormem, a Vera e o Nana também sairam cedo e o cão ficou na tosquia para se ir buscar hoje, sábado. Os amigos? Vêem-se pouco. Mas estão.
Ninguém soube responder e a fragilidade ficou arrumada no sítio, entre livros de poemas e folhas dispersas. O medo fugiu e escondeu-se. Mais um dia.
Não era preciso dizer ou pedir. Ela sabia. A outra mulher olhou-a com ternura. Ninguém terá percebido. Pouco importa. O colo é uma forma de estar e estar é uma forma de colo. Elas sabem.
Era uma exercício estúpido e ela sabia, mas fazia-o uma vez por outra, para apaziguar a pouca auto-estima ou estimular a dita. Em frente ao espelho, a mulher começa Espelho meu, espelho meu... E pensa Haverá alguém mais burro do que eu? Nem todos os dias eram de burrice, claro, ela também o sabia. Tinha dias de incompreensão, de tristeza infinita e de um certo alheamento que pareciam dar alguma tranquilidade. Aparente ou não, a tranquilidade dava-lhe o conforto de permitir que os outros a dessem como alguém que estava bem. Estar bem é sempre muito importante. E o espelho não estava para conversas dessas.
E chegámos aos catorze anos. O mais novo. É o tempo.
... qual é a expressão do ódio?, a mulher perguntou sem esperar por uma qualquer resposta. De preferência, o silêncio serve. E, no caos do dia, da segunda-feira, ela não quer sentir ódio. Não tem capacidade para esse esforço. Atravessa a avenida e pensa nas diferentes traições que a vida lhe deu. Volta à ideia de que filho da puta não deveria ter sexo, deveria ser uma palavra híbrida, pronta para todos. Depois lembrou-se do miúdo a dizer que não precisa de acreditar em Deus por acreditar na bondade das pessoas e isso ser o suficiente para a sua fé na vida. Um miúdo que amanhã fará catorze anos. Que está mais alto que ela e que não sabe que a Primavera está para lhe chegar.
Ela mantém o passo. Não sabe a razão de querer associar sensações a expressões. Não é actriz, não precisa de fingir que está zangada, que odeia ou ama. Quem ela ama? O amor que tem é como uma montanha, um desafio. Talvez um dia chegue ao pico, talvez fique por ali, a ver a paisagem. O amor não faz perguntas, diz-se na certeza de saber que mente, mas isso não a preocupa. A mentira aprendeu a perdoar, faz parte das teias da vida. Para quê gritar a solidão ou a dor se uma mentira faz as vezes que todos preferem? Estás bem? Claro. Depende do tipo de mentira, ela sabe.
O sol esmaga-lhe a pele e sente-se mais frágil que o pombo a arfar do outro lado, perto da estátua. Um dia, alguém acusou outro alguém de ter escrito que os pombos sofriam de asma. Meses mais tarde, ela encontrou a mesma ideia num livro de um autor russo do século XIX. Fazer o quê?
Está cansada. O telemóvel toca dentro da mala. Há uma vida inteira para debitar ao telefone e ela assim o faz, numa partilha com outra mulher, as duas na mesma página, a quilómetros de distância, ambas com montanhas sólidas que são amor. Riem e concordam. Recordam. Cada vez mais as conversas são feitas de pedaços de memória. É um defeito de ambas. Têm uma memória invejável. Por isso, há quem as possa odiar ou trair. Na sombra de um prédio, protegida, a mulher continua a conversar. Sente que precisa de tirar os sapatos e que a outra mulher, se ali estivesse, seria como um enorme asa branca que a vestiria de protecção. Deu graças por isso.
- Então, mãe, está tudo bem?
- Está muito calor.
- Aqui também, mas a praia é boa.
- Ainda bem. Tu estás bem?
- Sim, sim, estou feliz... Olha, não compres jornais hoje.
- Eu sei.
- Está a morte... está em todo o lado. O Urbano...
- Eu sei.
- Não compres. Nem vás à banca.
- Não vou.
- Gosto muito de ti, mamã.
- E eu de ti, querido.
As vozes da Natureza
A transparência do orvalho gemia no meu esquecimento de mim, tornava-me todo eu atenção ao saltitar das rãs amanhecendo na clara alegria do tanque grande.
O meu sangue cantava na ondulação das folhas da figueira.
Agora estou nascendo a toda a volta de mim no riso verde das searas, na brisa que se quebra contra a rude atalaia, sobranceira ao rio com seu açude e seu moinho árabe, e sacode as franjas de silêncio nos altos choupos onde as cegonhas fazem ninho, nos pegos de eu nadar quando a Páscoa aquece as águas.
E ouço os meus segredos mais secretos no gemer das oliveiras e chaparros, meus tão íntimos parentes. E a ternura das sombras estende-se, para lá do rio e das suas narcejas, pelos ermos da Deveza de São Brás até ao Guadiana.
A frescura do silêncio cai um instante sobre as lavradas e as folhas onde o meu ser se recria.
Comecei muito cedo a ouvi-las, as vozes da natureza.
Conheço-as desde que tenho memória de mim. Depois houve a doença, que me impedia de sair do «monte» e, quando melhorei um pouco, conseguiram que eu fizesse a primeira comunhão, mas nunca acreditei naquele inferno que me pintavam e continuei a fugir de casa e embriagar-me de luz, a correr ao lado dos rebanhos de vacas e ovelhas nesse meu regresso à natureza, de que me sentia pertença.
Foram o azul profundo das noites estreladas e o que o vento e as nuvens diziam aos meus ouvidos que fizeram nascer em mim palavras que depois naturalmente começaram a escrever-se.
Da pobreza e do sofrimento dos trabalhadores que me rodeavam só mais tarde me apercebi e senti a necessidade de lhes dar voz por entre as vozes da natureza e pela estrada da vida fui andando com eles no pensamento e nos actos.
Nas ruas de Lisboa e de outras cidades onde não entra o sol de Inverno, tapado por altos edifícios, experimentei a saudade profunda dos descampados alentejanos, das vozes do rio e da tristeza dos homens, dos seus cantares. Levei-os comigo para França e para o mundo, para as aulas que dei e até para as prisões onde os meus ossos enregelaram.
O livro é palavra de combate, mesmo quando não parece sê-lo, se apenas nos mostra os homens nas suas fainas e penas.
Assim continuarei sempre a escutar as vozes da natureza e a dar delas notícia.
OS SILÊNCIOS
Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo
Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo
Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo
O homem na esplanada acabou de enganar a mulher. Fuma um cigarro e cheira o sexo da outra na ponta dos dedos. Ao peito traz uma cruz e, por vezes, sem pensar nisso, no gesto em si, toca na cruz. Deus não lhe ocorre, a cruz é um objecto, uma oferta de há anos que traz ao pescoço num fio de ouro sem grande graça. O homem também não tem graça, mas isso não é relevante. A mulher com quem enganou a sua mulher é a melhor amiga da irmã. A vida é curiosa. Tanto tempo que se passou na sua vida, tantos atropelos e agora, em plena esplanada, sem nada para fazer além de fumar, pensa finalmente nos erros do passado para concluir que não pode voltar atrás. É pena? Apaga o cigarro e tenta não pensar mais nisso. O cheiro persiste. Ele não pensa, está quase perto da boca do Metro e o cérebro vai vazio, assobia uma melodia desconhecida e não se lembra de nada. Já não se lembra de nada.
Do outro lado da cidade, a mulher do homem que acabou de cometer traição compra lingerie nova. Em saldos. Não fazem amor há mais de um mês e, mesmo durante a semana de férias, nunca se tocaram. Ela tem uma certa pena. De si. Dele. Imaginara que a vida seria outra coisa, pela simples razão de que a imaginação nos permite tudo. Sonhara com viagens e momentos românticos, o tempo que teriam um para o outro depois dos filhos criados. O telemóvel toca dentro da mala, tem alguma dificuldade em o encontrar e depois vê que é a cunhada. Falsa, pensa. E depois atende
Querida, estás bem?
Não imaginas o que tenho para te contar, ai, coitadinha de ti.
A mulher pondera na frase. Dura um nanosegundo a ponderação. A conversa é sobre ela, tem de aproveitar. Ser o centro de um problema não é habitual. Enche o peito de ar e suplica
Conta, conta.
Podia ser melhor? Podia, mas o sono tem estas coisas, ficamos pela casa, dentro de uma membrana protectora e depois descobrimos que podemos ver filmes que não são sobre nada e não faz mal. Não será o caso dos Men in Black, afinal sempre temos o Tommy Lee Jones, certo? Certo.
Mãe, vou morrer?
Vais.
É já?
Não. Ainda falta um pouco.
Talvez tenha tumor na barriga.
Ok. Podemos ir ao médico.
Não é preciso.
Depois de tudo, podia simplesmente pensar que não era nada, que já tinha passado. Mas não. A mulher à minha frente tinha, e tem, toda uma vida que está em falta, em dívida. Parece que ninguém dá por isso. Ou poucos dão. Eu dou e pouco posso fazer. A mulher à minha frente optou, há muito, por não falar comigo. E quem sou eu?