Terça-feira, 17 de Setembro de 2013

A tua tia

Anda não eram nove da manhã.

A mulher falava a uma rapidez alucinante.

Falava em russo. Em croata, em ucraniano, em marciano, porra, falava e não era português, não era nada passível de se entender.

Eles acordaram de um sono profundo, de repente, transportados para a Sibéria, para um gulag qualquer. Ele disse


Ninguém quer ir para a Rússia. À Rússia é outra coisa.


Como ninguém quer ir à merda?


Isso.

 

Ela pensou

 

Um verão na Rússia, dava um bom título.

 

Viu a capa do Le Carré, um que ele ainda não escreveu.

Do outro lado da janela, na rua, a desconhecida continuava, de forma alucinada, a debitar palavras estranhas e já não era uma língua, era um problema de garganta, uma dor matinal extra.
Ainda na cama, os dois suspiraram


A tia dela.


Ou talvez seja tudo por culpa da mãe dele.

 

Antes de tomar café? Irra.

publicado por Patrícia Reis às 09:32
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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

e se não fores, não faz mal

A mulher preparou o discurso com calma e depois, perdendo as estribeiras, apetecendo-lhe dizer dois palavrões, disse três, despejou o saco e a criatura à sua frente diminuiu vinte centímetros. Nada mau, para um exercício estúpido de poder, pensou a mulher. Escondeu-se no trabalho e não voltou a levantar o olhar.

publicado por Patrícia Reis às 23:15
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Domingo, 15 de Setembro de 2013

Algumas mulheres, certos homens

Martha Gellhorn suicidou-se aos 89 anos. Foi a única mulher que pediu o divórcio a Hemingway, a única que fez a vida que quis, deixando cinco anos de casamento para trás (de 1940 a 1945) e fazendo uma vida de correspondente de guerra durante 60 anos. Depois de um diganóstico de cancro e de estar quase cega, suicidou-se em 1998. Dizia ela que nada se comparava ao horror da guerra civil espanhol ou a Dachau, depois disso escreveu sobre muitos outros cenários de guerra. Sobre o amor, disse que o aborrecimento/tédio/rotina

é o maior inimigo de todos. Poucos sabem quem ela é. Phillip Kaufmann fez um filme sobre esta mulher, com Nicole Kidman, Clive Owen a fazer do escritor excêntrico que escrevia de pé, bebia rum, achava que um grande escritor é sempre um mentiroso. É um filme que se vê quase como um documentário. Depois do filme, fiquei a pensar que o amor não morreu por monotonia da relação, morreu por causa da competição. Para o Senhor Hemingway era impossível ter uma mulher que fosse melhor que ele. E, tal como ele, muitos homens e mulheres vivem nesta fúria da competição, quando o casamento deveria ser sobre admiração, amor, companhia, compreensão mesmo no pior cenário. Eu nem sempre digo as coisas mais certas, já se sabe, portanto isto pode ser tudo uma grande tanga.

publicado por Patrícia Reis às 23:52
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Bach, Alessandra e Sting

publicado por Patrícia Reis às 00:31
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Sábado, 14 de Setembro de 2013

para adormecer o fim-de-semana inteiro em beleza

publicado por Patrícia Reis às 00:02
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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2013

nuno júdice

O que tenho para te dar?

Uma gramática de sentimentos, verbos sem o complemento de uma vida,

os substantivos mais pobres de um vocabulário íntimo — o amor, o desejo, a ausência.

Que frase construiremos com tão pouco?

A que léxico da paciência iremos roubar o que nos falta?

Então, ofereço-te uma outra casa.

As paredes têm a consistência do verso; o tecto, o peso de uma estrofe.

Abro-te as suas portas; e o sol entra pela janela de uma sílaba,

com o seu logo vocálico, como se uma palavra pudesse aquecer o frio que te envolve.

E pergunto-te: que outras palavras queres?

A música sonora de um ócio?

O espesso manto com que o veludo se escreve?

O fundo luminoso do azul?

Poderia dar-te todas as palavras na caixa do poema;

ou emprestar-te o canto efémero em que se escondem do mundo.

Mas não é isso que me pedes.

E a vida que pulsa por entre advérbios e adjectivos esfuma-se depressa,

quando procuramos seguir a linha do verso, O que fica?, perguntas-me.

Um encontro no canto da memória.

Risos, lágrimas, o terno murmúrio da noite.

Nada, e tudo.

 

in O ESTADO DOS CAMPOS (P. D. Quixote, 2003)

publicado por Patrícia Reis às 00:10
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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

primavera, onde andas?

publicado por Patrícia Reis às 01:00
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Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

Maria Teresa Horta

MUDANÇA

Bordo no pano a razão
linha aberta no meu jeito
talagarça que eu suspeito

Deixar passar a paixão
a ponto de cruz no peito

Estremece a mão
que suprema
crava a agulha que alinha

O bordado no defeito
que o coração adivinha

Bainha da emoção
que o amor não alcança
alinhando a perfeição

No avesso que ilumina
e exaspera a mudança

publicado por Patrícia Reis às 00:54
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Terça-feira, 10 de Setembro de 2013

para ouvir

publicado por Patrícia Reis às 00:11
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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

Pedro Tamen


Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.
publicado por Patrícia Reis às 00:09
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Domingo, 8 de Setembro de 2013

Pontos pequenos

De A vamos até ao B com o lápis, sem fazer muita força na mão, sem forçar a ponta de carvão do lápis. Isso. Depois chegamos ao C. Devagar. Ou nem por isso. Ok, queres ir mais depressa? O desenho começa a crescer, a figura surge inesperada para ele, evidente para ela. Houve um tempo em que o tempo corria assim. Agora é diferente. Tudo é diferente.

publicado por Patrícia Reis às 13:45
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Sábado, 7 de Setembro de 2013

Manuel António Pina

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há-de vir?

publicado por Patrícia Reis às 01:35
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Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

rara

Rara, ou estranha, que importa isso? o choro é uma fragilidade que a lhe dá o palco do humano e ela, a mulher que não sabe ser banal, fica na soleira da porta, vendo o mundo passar. Podia ser como os outros mas os outros não podem ser como ela. A mulher fecha a porta e ouve o fado que é a geografia poética de uma infância que não teve. Pode ser que o mundo a veja um dia. A porta não é difícil de abrir. Ou será?

publicado por Patrícia Reis às 00:09
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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013

Questionário feito por Anabela Mota Ribeiro em 2010

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 

O mais marcante e que molda os dias é o facto de ser mãe de dois rapazes. Existe uma Patrícia antes da maternidade e uma outra depois. Há dias em que tenho saudades da primeira, mas acredito que a segunda é melhor.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 

O humor aliado à inteligência é um cocktail irresistível.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 

Na amizade não há golpes baixos e as mulheres, como os homens, não são todas iguais. A resistência é uma qualidade feminina que aprecio cada vez mais.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 

Na amizade, como no humor, o exercício da verdade é o que mais conta. O resto vem por acréscimo. A beleza não sendo fundamental, ajuda muito.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 

Não partilho dos defeitos de Proust, talvez por falta de ego. Sou dramaticamente impulsiva e, tantas vezes, cometo erros por falta de tranquilidade.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 

Estar com o meu marido, escrever, rir e ralhar com os meus filhos.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 

A família faz de moldura e no quadro podemos ver um dia de sol, livros para ler, um sítio confortável, um bom vinho tinto, figos com presunto, o mar e um computador paciente.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 

A pior desgraça seria sobreviver aos meus filhos.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 

Aos 13 anos gostaria de ter sido uma personagem sedutora de Jorge Amado. Hoje quero apenas tentar ser eu.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 

O país para viver é vizinho de Espanha, não é muito grande, mas tem uma bela História. Quem cá vive parece não querer perceber como é um sítio maravilhoso.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 

Agustina Bessa-Luís, Inês Pedrosa, Lídia Jorge, José Eduardo Agualusa, Mia Couto... e mais umas centenas que não cabem em duas linhas. Para falar só dos preferidos.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 

Ruy Duarte Carvalho, José Agostinho Baptista, José Tolentino, Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral (acrescento: Maria Teresa Horta, Fiama, Sophia...). É infame passar ao lado destes poetas.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 

Corto Maltese. Tem tudo: mistério, sabedoria, cultura, errância, sedução, incompreensão...

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 

Bach, o pai de todos.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 

Graça Morais pela força, pela procura do universo das mulheres e ligação à terra.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 

Os meus filhos. Aprendo com eles todos os dias.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 

De me recordar de momentos maus.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 

Gostaria de ter a vocação para a tranquilidade.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 

Com a consciência tranquila.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 

Às vezes canso-me de mim. Outras vezes reconheço algum valor. Na maioria das vezes, ando à procura, a ver se não me perco.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

 

Por princípio: todas. Excepção: traições e sucedâneos.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 

Sou supersticiosa. O meu lema é: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Corro atrás das coisas boas e das minhas gatas quando elas não querem ser apanhadas.




Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010


 

publicado por Patrícia Reis às 00:31
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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2013

the art of asking

publicado por Patrícia Reis às 00:01
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