Se vos for possível, peço, fechem a porta devagar e voltem na segunda, pode ser? Bem hajam.
A mulher considerou a hipótese, olhou de novo para o livro e, depois, sem olhar para os filhos, para o marido ou para o cão, caiu para dentro do livro de banda desenhada. Aí o corpo seria elástico, a força atómica, a capacidade de reagir instântanea. Por uns minutos sentiu-se bem. Depois abriu os olhos e comeu mais bolachas com queijo.
A pergunta é: há mais para saber sobre a Simone? Há muito, muito para saber, para rir, chorar, para ficarmos mais perto. Entrevistar sempre foi das minhas tarefas preferidas, todos os minutos contam e é preciso saber ouvir. Esta biografia - escrita na primeira pessoa - tem um pouco de tudo. É uma edição da Matéria-Prima, da Liliana Valpaços e Inês Queiroz, a quem eu agradeço a confiança. Deve estar nas bancas depois de dia 17 e dia 31 teremos lançamento na Fnac do Chiado.
A mulher decidiu que o melhor seria acordar devagar, em andamentos, como se fosse uma sinfonia. Primeiro sentir os pés, as pernas, o estômago, as mãos, o peito, a cabeça e, só no fim, abrir os olhos sabendo todas as tarefas que a aguardam. Quando abriu os olhos viu o quadro branco, os lençóis brancos e pensou que estava dentro de uma nuvem. Voltou a encolher-se, voltar para dentro. Sofre de angústia domingueira e só há uma pessoa capaz de soprar e mandar tudo embora. Agora o quarto não existe, ela continua dentro da nuvem.
A mulher pensou naquilo e seguiu, porta fora, a porta a bater, óculos escuros para se esconder, casaco de lã, o cão a reboque. A mulher não sabia como responder ao
agora fazes como queres fazer
pela simples razão de não querer fazer. É mais fácil não querer. Para ela. Deixou-se no passeio do asfalto, o cão a farejar, um carro que passa, a aldeia cada vez mais pequena. A solidão era uma nuvem que tapava o sol e a pergunta, sempre a mesma,
agora fazes como queres fazer
Parou a meio caminho, considerando que podia comprar pão, mas não tinha dinheiro, por isso não valia a pena. Podia pagar mais tarde, mas isso implicava uma troca de palavras. À porta da mercearia, um balde com vassouras despertou-lhe um querer, um querer mais forte do que não querer. Tirou uma vassoura com cuidado, cabo vermelhor, cabo de madeira.
Sorriu para o cão, largou a trela e levantou voo.
Agora fazia como queria.
He deals the cards as a meditation
And those he plays never suspect
He doesn't play for the money he wins
He doesn't play for the respect
He deals the cards to find the answer
The sacred geometry of chance
The hidden law of probable outcome
The numbers lead a dance
I know that the spades are the swords of a soldier
I know that the clubs are weapons of war
I know that diamonds mean money for this art
But that's not the shape of my heart
He may play the jack of diamonds
He may lay the queen of spades
He may conceal a king in his hand
While the memory of it fades
I know that the spades are the swords of a soldier
I know that the clubs are weapons of war
I know that diamonds mean money for this art
But that's not the shape of my heart
That's not the shape, the shape of my heart
And if I told you that I loved you
You'd maybe think there's something wrong
I'm not a man of too many faces
The mask I wear is one
Those who speak know nothing
And find out to their cost
Like those who curse their luck in too many places
And those who fear are lost
I know that the spades are the swords of a soldier
I know that the clubs are weapons of war
I know that diamonds mean money for this art
But that's not the shape of my heart
That's not the shape of my heart
Se substituir palavras más por boas talvez a vida seja um sonho.
Oiço Sting. Por ser mais fácil. Por saber todas as letras de cor. Por ser um dos músicos que faz a banda sonora da minha vida. Não estou em nenhuma rua, não sou perseguida por vampiros, não tenho um marido muito mais velho que eu, não conheço duas raposas e tão pouco sei jogar às cartas, mas isso não tem qualquer importância.