Podem ter palmilhado quilómetros de palavras, acusações, memórias estranhas, pequenas peças de um puzzle qualquer que, um dia, pode ser que encaixe.
Por enquanto é apenas este asfalto sem fim.
Podem palmilhar e permanecer na luta, como um mineiro a escavar, como qualquer pessoa a fazer um trabalho duro, que sai do corpo, que arranca a cabeça e rouba a alma.
Não há lágrimas que aguentem tanta loucura, amor ou solidão.
Digam o que disserem, cada um, fechado no seu mundo, sem perceber que estão no mesmo, ouvem coisas distintas. As palavras pertencem à mesma língua, mas nenhum as ouve como seria de esperar, nenhum as entende. Cada um deles pega na sua enxada e dá mais um jeito ao asfalto que, de tão torto, é impossível de endireitar.
Podia ser de outra forma? Podia.
Se a deixassem ir embora... A vida nunca se desenha com os contornos imaginados. Continua, assim, na estrada e berra, berra como um animal ferido. Já ninguém a ouve. Berra há demasiado tempo. E ele, do outro lado, berra, chora e não deixa de debitar, como alguém que engoliu um dicionário.
Podia ser mais fácil? Não. O amor também é isto.
(Há uma série de pessoas que acharão, mais uma vez, que isto é projectivo. Ficção é o que quisermos e a minha nunca será feliz, está presa à condição humana, portanto o que me importa são as vísceras e não os castelos de areia, isto não quer dizer que me dispa num texto, tenho frio nos dias que correm)
A mulher levantou-se para ver com espanto o corpo a fugir, escapou porta fora, meteu-se pela frincha da porta com agilidade desconhecida e foi desta para melhor. Ver outras paisagens. O esqueleto permaneceu na cama a pensar como lavar os dentes. Depois teve um ataque de riso e tudo passou. Era só um sonho.
O que eu podia escrever só com bla bla bla. Mas não posso. Uma pessoa, quanto tem uma empresa, engole, ouve, faz de conta e sorri. A felicidade é quando a narrativa, passo a expressão, consegue ser outra. Talvez amanhã.
O jornalismo de Facebook funciona assim. O jornalista na redacção vai para o Facebook, cruza amigos com outros amigos e vê mensagens, faz ilações e efabulações, tudo acabado em "ões" e tem uma carteira profissional que pode mostrar à família nas festas de Natal. Irra!
A mulher está convencida de que não é possível fazer seja o que for devagar. O dia tem poucas horas para o ar que reserva nos pulmões. Absorve tudo e quer tudo, para depois não querer nada. O sim e o não. O vazio e o cheio.
Todos os clichés juntos, se faz favor...
Podia chegar ao balcão do café e dizer isto
Todos os clichés juntos, se faz favor...
Depois agradeceria e, uma vez na rua, teria aquele ar banal que nunca consegue ter. O cabelo desgarrado, os sapatos a tropeçar, o corpo a exigir cuidados e a cabeça numa velocidade intensa. Todos os clichés do mundo se resumem a uma palavra: parar. Ela podia parar. Pois podia. E depois o mundo perdia a rotação certa e ela, arrogante dessa convicção, encolheria os ombros. Seria a vingança para todos aqueles que a vêem passar e não a vêem. Parece ser tão fácil olhar para uma mulher assim. Mas não é. Ela precisava de parar. Não pode. Os outros só vêem o rasto de desenho animado que deixa na sua correria de coiote espertalhão. Clichés, portanto.
O homem trazia o cão pela trela e o bicho ladrou.
Não era mais que um ganido, na verdade, uma forma de dizer que ainda cá anda, quatro patas num chão, arrastando, como o dono numa pouca vontade de ver, de ouvir ou de ladrar. O homem trazia o cão pela trela e chocou com uma mulher.
Desculpe?
O cão ganiu. E ficaram assim.
E o Sebastião escreveu no blogue:
Espero que este ano passe tão depressa quanto o outro. Não sei se quero mudar mais. Um autor francês chamado Paulo escreveu que os parágrafos são a unidade da saudade. Eu cá pergunto-me se há fórmula. As fórmulas normalmente têm solução. Pelo menos uma proporcionalidade. Uma linha é não te ter visto ontem? Uma frase é a cama ainda estar quente do teu cheiro. Uma página, A4, Times New Roman, tamanho 12. Talvez até quatro folhas, sem o frente e verso. A última com metade vazia - porque se houvesse coisa meio cheia não seria saudade. Falta. Já deve valer um abraço; ou pelo menos a vontade de um. Longe, porém ali. Um livro deve ser um grande amor. Mas, com o tempo que se demora a escrever um, já se esqueceu a pessoa quando se acabar. Os apaixonados só devem escrever contos. Com finais e reticências. Com títulos que não chateiem e problemas engraçados. Ela, que não percebe das funções matemáticas; ele, que não entende as funções de sentir. E uma palavra, quanta saudade vale? Lembrando-se um ao outro, claro, porque do que é gramatical já se compreendem, que se tem hífen no meio contam como duas palavras. Mas se for mesmo só uma. Pequena. Sozinha. Daquelas que não necessitam de papel. Das poucas que quase não se escrevem. Que se dizem - por lei, jeito e desejo - mas que, na ocasião de serem verdade, custam. Em que temos um medo corajoso junto ao pulmão que nos suspira exatamente o que queremos. A pancada entre perder ou pensar. Saudade, quanta de si própria é. Quanto de ti, tu, podes?
A parede continua lá. A memória, nunca. Os anos passam depressa, no que o tempo depende. Tu não. Entre entrar ou não. As coisas ficam. O resto nem por isso. A sombra que te abriga do sol também esconde o vento, talvez o frio desista. Ela de pouco se arrepende. Ele devia ter respondido à pergunta com algo que não se escreva. Gostava de saber o valor de saudade de tentar. Ela falhou, sem sequer tentar. Isso não esquece. A parede continua lá, com o frio, as plantas no parapeito da vizinha, as janelas largas com estores corridos e uma luz que se acende com algum charme. O do costume, presumiu.
Andam mais devagar no metro. Ia-se safando mais ou menos. Sem pressa, sem casa. A ler o tal francês chamado Paulo que julgava que era mais fácil não amar do que não ser amado.
A mulher pensou que podia pegar num carro, avião ou barco e sair disparada para um sítio qualquer. Pouco importa. Um sítio distante. Mesmo ficando quieta, em silêncio, é possível viajar, para isso servem os livros e a música, dá graças por saber que é assim. Olha para o céu e pensa no fim-de-semana sem querer pensar que é preciso pensar no fim-de-semana. Conclui que gostaria de ter um botão para desligar sexta-feira ao fim do dia. Faria dela uma boneca para grande alegria de todas as bestas que a tratam como se ela fosse uma boneca, loira e burra. Enfim. Também podia considerar que o dia um de novembro é dos finados e carpir os mortos, porém está mais entretida a carpir a vida e isso é o que a maioria faz, certo? Certo.