Não foi preciso pensar em quarenta e três coisas.
Apenas na mala, no tamanho da mala e nos dias que se fazem de outra forma.
Depois, sem querer, a mulher ficou parada à janela, a fungar. O frio, de novo.
Pensou que seriam sempre felizes dentro da cápsula protectora que constroem numa casa que é fora de casa e que viverão de forma quase banal o resto dos dias.
Lembrou-se do anti-mosquitos e desistiu de pensar na vida.
Soprou no vidro e escreveu: até Janeiro.
Não conta com nada. É sempre melhor assim. O dia corre. Há pessoas constipadas, pessoas que querem uma ideia, um pouco de colo. Há o telemóvel que fica sem bateria e depois, e sempre, o frio e o frio e os ossos. Nada de novo, portanto.
Aparentemente não consigo pensar em mais nada: está frio.
Podia ser devagar: ele à espera que ela o chegasse a uma parede; ela com a mesma ideia, mas ao contrário. Evitaram o que conseguiram dos olhos espantados como peixes a passear numa praça fora do mundo de cá.
Ciente de que o sonho tem um fim, a mulher acordou para uma cama vazia, o calor a sair do aparelho devagar, num zumbido pequeno, nada de especial. Sendo segunda-feira, deveria fazer uma lista das coisas para segunda, outra para terça, mais uma para quarta. Na quinta, estava decidido, colocaria as listas de lado e só voltaria a elas no novo ano, em Janeiro, no frio do princípio de tudo o que ainda está por acontecer. A mulher sabe que irá esquecer o sonho, este como a tantos outros.
Deixa-se estar. A vida é feita de fragmentos e, apesar de estar acordada, mantém os olhos fechados, como alguém que tem as asas no ar e nada no chão.
O coração engole o asfalto até ao Porto, a música aos berros, há uma solidão que só se vive na estrada e mesmo que o pulso possa falhar, a velocidade é constante, 163 quilómetros por hora. Que se lixe o radar? Pois.
O coração escorre do Porto até ao Tejo, é de noite, a música continua aos berros, o corpo já não se mexe como há pouco. Velocidade: 123 quilómetros por hora. Preciso de óculos novos.
Seja como for, a corrida valeu por aquele segundo: o meu corpo encostado a uma ideia do teu, a ver as árvores do palácio de cristal, a pensar que não temos de ser de manutenção alta, podemos apenas ser. E os pavões andavam por ali. Viste?
Poucos minutos depois, como se nada fosse, já se falava de livros e de Luanda, com o Agualusa, é o costume. Li dois excertos, com o mesmo tom de voz com que lia para os miúdos. O coração apertou-se quando percebi que já não tenho ninguém para quem ler. Sou uma solista da leitura. E uma condutora que prefere a solidão.
Será que ouviste o que deixei por dizer? Nem sei se estavas lá.
O mundo está do avesso.
UM POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
in “Obra Poética”
No comboio para o Porto. Devagar ou depressa, é domingo, não importa. No comboio para o Porto para ler Agualusa. Dois excertos e depois uma conversa. Há um silêncio no relógio da viagem e ainda um conforto. Nada é típico ou previsível. Se fosse um filme, o comboio corria pela península até uma baía, perto de Finisterra, aí onde o pirata Drake navegou, ameaçando assaltar a catedral de Santiago. Eu gosto de Santiago. Não me perguntes, é assim. Gosto da catedral, da capela de Nossa Senhora do Pilar. No comboio falamos de livros. Da vida. Do Brasil. Podias estar aqui. A conversa seria a mesma. Tu percebes.
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
William Ernest Henley
Olha, fecha os olhos. Não adormeças já.
Há umas músicas que tenho para te mostrar e uma garrafa de vinho no frigorífico, mesmo que este possa falhar.
Não penses em nada.
Eu ignoro os espelhos.
Lembro-me da tua pele e ainda consigo ver-te onde já não te vejo. A imaginação pode muito, tens razão. Brinco com as palavras que é melhor do que ficar num baile de sentimentos que não se resolvem.
Podia dizer-te tanto, mas tu já sabes tudo. Ou então, numa outra versão, encaro o espelho e admito que, afinal, ainda não te disse nada.
Conheço as razões do cheiro, da pele, da cabeça, de coração, só não conheço as da vida. Quando me resgatares de tudo isto, será num outro tempo, a música tocará suave e eu até saberei - de forma inesperada e misteriosa - dançar devagar.
Coisas soltas que não sabes: uma aluna da Católica de Literatura e Jornalismo escreveu-me um email simpático; o Micas fez as pazes com a namorada; o Sebastião telefonou só para saber se está tudo bem. A minha mãe continua aflita das costas, a minha avó anda a esconder-se do frio, é como eu ou eu sou como ela.
Não fiz nada de especial, nem nada de monta. A revista chegou e está bonita. Tem duas coisas de que não gosto, mas há sempre algo de que não gosto, portanto não é uma novidade. Um cliente, um que tinha ficado com o meu ex sócio, veio de volta. Ainda bem.Sempre acreditei que recebemos o que damos, mesmo que a vida possa parecer que não cumpre com esta ideia.
Há uma série na televisão de que gosto, esqueci-me do dia a que passa. Leio os livros para as correntes de escrita e ainda uma tradução - belíssima - de uma amiga.
Um idiota que não tem mais nada que fazer anda para aí com acusações idiotas, tenho uma advogada quase a cerrar os dentes. Como se eu tivesse tido uma avença seja lá com quem for, imagine-se. O atelier? Claro. Quando chover peixes.
Há um Sherlock Holmes moderno com um Watson que é uma mulher. Adoro o Carlos do Carmo, o novo disco, com duetos, deixou-me triste. Não sei porquê ou sei bem demais e não sei explicar.
Os meus pés estão por fim quentes. A conta do ar condicionado vai ser tão linda.
Dia 14 vou para o Rio de Janeiro. Os pés na areia. Nada de frios.
Mesmo que faça frio dentro da cabeça.