A mulher sentou-se na cama, era de manhã cedo, e decidiu que escreveria várias cartas. Começou por esta:
Como não te posso falar, escrevo-te. Escrevo para ti há tanto tempo que mesmo quando não é sobre ti, é sobre ti. Prometi não fazer barulho. O tempo que nos separa pode ser muito, é sempre sentido como cruel. De seguida, passa, tudo passa. Connosco é possível que seja assim por termos a convicção de que estamos um no outro, como pessoas que adormecem de mão dada. Podemos falar sobre o for, já sei, mas agora estamos a sobreviver ao frio, aos dias, à pressa das coisas e ainda as do corpo que, pousadas numa gaveta, escondem outras hipóteses. Eu faço por não me queixar, tu ficas preocupado. Penso melhor quando escrevo, disso tu já sabes, mas prometi que não te escrevia. E que não interrompia a tua vida. Interromper é um verbo que existe na nossa vida. Há anos. Talvez exista em todas as vidas. Temos sempre a ideia de que somos especiais, não é? Seria melhor se fosse de uma outra forma, já se sabe. Criam-se expectativas e depois as pessoas abandonam-se. Vê-se nos filmes, nas séries. Espanta-me, acredita, que as séries tenham sempre uma componente sexual forte, como se tudo fosse possível de resolver com o corpo. Não é. Seria perfeito, mas não é. Espanta-me a quantidade de gestos pequenos que as pessoas fazem. Ou coisas mais estúpidas, como grupos que existem no facebook. Ou matérias da escola que eu já não entendo e tento acompanhar. Não consigo seguir o conselho de uma amiga e ser banal, apenas banal: uma pessoa veste um trapo, vai para o trabalho, cumpre, regressa a casa, faz jantar e máquinas de roupa, leva o cão ou dá-lhe de comer ou limita-se a afagá-lo e depois é dormir pela noite sem pensar. Será isto banal? Tenho dúvidas. Cumpro o dia e a cabeça às voltas sem to dizer, como já disse tantas vezes, que quero é fugir ou que penso assim quando deveria pensar assado. Sabemos todos a teoria? Pois. Não serve para muito. Serve para termos uma ideia de normalidade. Ontem disse ao mais novo que os miúdos conhecem os pais com mais facilidade, os adultos são previsíveis, não trazem nada de novo, e ele sorriu. Sabe exactamente do que falo e sabe ainda como contornar qualquer obstáculo, conhece-me bem. Como tu me conheces, sim. Como prometi que não te escrevia, fica tudo num blogue, sabe-se lá quem aqui vem. Não me apetece ler ou escrever. Só preciso de me escrever para tu me leres.
(para os que se interrogam - e há tantos! - o conjunto de cartas que publicarei fazem parte de uma ficção)
A mulher pensou que no desfazer dos ossos está uma história, uma mensagem, uma moral de fim de conto infantil. Vestiu-se devagar e tentou, sem pensar muito, o gesto idiota de vestir uns collants e depois escolher umas sabrinas. Tinha dito a alguém que uma determinada frase estava tão gasta quanto o osso da sua anca. Tinha mentido. A frase nunca chegaria àquela dor e até aguentaria, como uma sobrevivente digna de página de jornal, aguentaria no meio do resto do texto. A mulher não se aguentaria muito mais tempo e havia ainda tanto para fazer. Uma das suas prioridades, depois do vestir, era só está: não pensar. E não sentir. Quando se sente muito, dói, quando se pensa passa ao nível da tortura. O colo que precisa está no capítulo dos sonhos, o dia começou e é preciso ser outra coisa. A mulher veste o envelope que é o sobretudo quente, velho, feito ao corpo, e fecha a porta atrás de si.