E a mulher disse
Um dia isto acaba. Um dia. Quando deixarmos de respirar.
Depois comeu o caldo verde e manteve o ar fantasmagórico de quem dormiu pouco. Falava sozinha no restaurante. Pouco lhe importava. A solidão de tudo aquilo arrepiou-me.
Se as coisas fossem normais, as pessoas teriam memória. Se tivessem memória julgariam menos, teriam um sentido menos crítico pela negativa. Se o mundo fosse mais tolerante, talvez a Natureza não tivesse tantos gestos políticos. Se fosse perfeito, todos podiam estudar, dormir e comer em paz. Em paz significa em oposição à guerra ou guerrilha em que muitos vivem. Há guerras em apartamentos próximos, na esquina. As pessoas não as consideram assim, com este peso. Eu vejo-lhes o peso e sinto-o. Podia ser de outra forma. Tantos "ses" servem para quê? Nada.
A memória é estranha. Talvez como a luz. Talvez como o medo.
Viver a medo uma vida inteira é o modo de vida de tantos. Há uma frase algures, dessas frases da treta que parecem querer fazer história, que diz que se chega a uma idade em que colocamos uma cara de paisagem e mandamos tudo mentalmente à merda. Eu insisto. Contesto, peço desculpa, tento fazer melhor e, na maioria das vezes, dou com os burros na água, expressão que sempre me agradou já que não tenho burros. Haveria outra possibilidade se eu gostasse de futebol. Não gosto. Se gostasse estava safa, teria sempre conversa. Assim, ter de conversar sobre o que leio, vejo, vivo torna-se um pouco bizarro, em especial por saber que a maioria está-se nas tintas, querem-se ouvir, querem ter razão, querem pontificar. Nem todos, claro, apenas alguns. Ou, pensando melhor, quem sabe se não é a maioria? A extrema importância do eu. O eu dos outros, claro.
Como está frio e chove, o meu estado de espírito pode não ser o melhor. Temos pena, diria se se fosse outra pessoa. Como tenho memória, só posso mesmo dizer que o melhor será levar um guarda-chuva lá para fora para a guerra que não se vê e, na interior, abrigar-me o mais possível junto a fardos pesados de areia e pedra, para ver se não me dão um tiro metafórico.
E pergunto-te: que outras palavras queres?
A música sonora de um ócio?
O espesso manto com que o veludo se escreve?
O fundo luminoso do azul?
Poderia dar-te todas as palavras na caixa do poema;
ou emprestar-te o canto efémero em que se escondem do mundo.
Mas não é isso que me pedes.
E a vida que pulsa por entre advérbios e adjectivos esfuma-se depressa, quando procuramos seguir a linha do verso,
O que fica?, perguntas-me.
Um encontro no canto da memória.
Risos, lágrimas, o terno murmúrio da noite.
Nada, e tudo.
É que eu, se mudasse de pele, se fosse possível, pois mudava já, não tinha qualquer hesitação, era ficar a velha no chão e nascer uma pessoa nova, um novo eu. Não é que esteja cansado de mim, estou cansado de me ouvir a dizer as mesmas coisas. Gosto de mim nas fotografias de outros tempos. Agora já nem me olho ao espelho, parece que vejo o fantasma do meu pai, morto há décadas, o desgraçado a perguntar
Porra, mas o que foi que fizeste à tua vida?
E eu a dizer
Ó pai, não sei, aconteceu, aconteceu...
O que é que aconteceu? Nada de especial. A vida. Sempre a mesma rotina, as mesmas pessoas, tradições, regras para cumprir, impostos para pagar, votar por princípio, ler os jornais para não ser acusado de ser um dos que contribui para o fim da imprensa, ver os telejornais, ter os filhos criados, na vida, longe e uma mulher que está encharcada em drogas e tanto melhor, com drogas está calada, sem drogas é capaz de dizer barbaridades e eu, não podendo mudar de pele, já só peço o silêncio... Está a ver?
O psiquiatra ouviu tudo com atenção. Não tomou notas, nem esboçou um gesto qualquer. Manteve-se imóvel. O homem estranhou. Chamou
Senhor doutor...?
O psiquiatra manteve-se. Ao fim de cinco minutos, o homem levantou-se, na certeza de que o médico tinha falecido com a verborreia. Farto de tanto silêncio, não aguentou mais, deu um salto na cadeira e, quando chegou à porta, a mão já na maçaneta, ouviu
Marque uma consulta para a semana na recepção.
"E escreverei sem estilo, disse como se falasse sozinho. Escrever sem estilo é o máximo que, quem escreve, chega a desejar."
O sono faz-se num escuro escondido de quem sabe que o corpo não se deve mexer. Há um momento em que o corpo precisa de se mexer. Há outro momento em que se obriga a isso. Como nos filmes. Zombie.
Não há muito mais que se possa dizer sobre as mulheres.
Como é que sabes?
Tenho a certeza. Já cá ando há muito tempo.
Então, achas que faça o quê?
Concorda que tudo pode acontecer na vida e anda para a frente.
Mas tenho de lhe dizer.
Dizer o quê? Que foste com outra para a cama?
Sim...não. Sei lá. Sinto-me mal.
Olha, isso é conversa de homem.
Não se pode dizer, sobre esta mulher em concreto, que não tenha ideias, talvez até as tenha em maior número que o desejado. O problema com as ideias é que são nuvens. Podem ficar no céu ou materializar-se. A mulher pensa que há tempo para tudo. Na verdade, se for sincera, sabe que o tempo corre e que não é generoso. Pouco importa, o ano acaba de começar.
Hoje é dia dos Reis. Fui a única pessoa que desejou bom dia dos Reis a todos aqueles com quem me cruzei. Morreu o Rei do Futebol, logo parece que o resto pouco importa. Vou descascar a minha romã e pedir a protecção dos Reis. Despeço-me de Eusébio percebendo sua importância para o país, embora tenha a noção de que há uma exagero em roda da sua morte que, quem sabe?, a família dispensasse e ele também. Não sei, é apenas uma ideia minha. A morte faz destas coisas. Uma grande amiga perdeu o pai, a sua referência e transformou-se em silêncio. Respeito quem se cala e quem precisa de gritar. Como dito, vou descascar a minha romã e perceber que hoje, pela tradição, é o primeiro dia do ano. Mesmo que seja só assim para mim.
ela: são dias.
ele: fazer amor é uma expressão.
ela: dias.
ele: não tem grande importância.
ela: há outras prioridades.
ele: falamos.
ela: os dias passam e os anos também.
ele: podemos relativar o peso.
ela: estou tão cansada.
ele: posso sempre ficar calado.
ela. escapar à tristeza.
Os dois, em separado, longe, completam o monólogo interior. A tristeza é infinita.
(Nota: para os que têm a mania de me enviar mensagens a perguntar coisas sobre a minha vida pessoal, este texto é um excerto que faz parte de um conto que publicarei em breve, não é a minha vidinha. Agradeço o cuidado, confesso que também agradeço que coloquem a ficção na gaveta da ficção.)
Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma, mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tato.
São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz à tua memória; e a
Realidade aproxima-te de ti, agora que
Os dias que correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refração de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.
Nuno Júdice
A mulher viu o coro das mãos a desenhar as palavras que um outro coro que cantava. Fazia muito frio. O som não era o melhor. Fascinada com a dança das mãos, no fim, imitou as famílias e aplaudiu com os braços no ar, agitando as mãos, sem fazer um único som. As lágrimas conteve. O resto nem por isso.
A vida faz choque, faz faísca, faz mossa e é tão fácil enumerar e fazer um textinho tão bonito, não é?
A mulher achou que não, ficou calada, sugou o cigarro que não fuma e continuou a ouvir
Escrever é fácil. Hoje somos todos escritores. Estamos nas redes sociais, estamos nos blogues, nos on-line dos jornais. Podemos ser os Miguel Sousa Tavares ou o Saramago.
A questão é saber se alguém dá por isso.
A mulher manteve o silêncio.
Tinha vontade de pegar numa cadeira e enfiar na cabeça dos dois senhores no café, mas não só não possui a força para tal gesto, como sabe que não mudará nada.
E já viste como no facebook todos são poetas?
E sabem verdades universais que vão buscar ao Dalai Lama.
A mulher levantou-se. Suspirou. Pensou num carrinho de choque que viu num mural de uma mulher de quem gosta. De repente, odeiou a palavra mural. Mural em homenagem aos mortos da guerra? Mural é uma palavra feia, concluiu. No facebook terão de repensar essa designação ou, então, talvez seja ela, a cabeça dela. Os senhores no café continuaram a conversar. Um deles tem um livro, o outro já tem dois. A mulher suspirou e ficou contente por saber que, apesar do choque com a realidade, a cidade permanece, mais lixo, menos lixo, igual ao que sempre foi.
Em resumo, sem pensar muito, em dois por dois, numa cama já com mais de dez anos, podemos fazer amor, podemos dormir, ler, ver televisão, falar ao telemóvel.
Isto diz ele. E ela concorda.
Ele acrescenta
Não podemos tomar banho.
Ela fica calada e vê-se na cama a ser tratada, banho assistido, o corpo sem movimento. Fecha os olhos e concentra-se em mais um episódio medonho de alguém que mata outro alguém.
Numa cama também se mata.
Também se morre.
No fim da noite, escreverá. Na cama. Como sempre fez.
Existem aquelas fotografias, era muito pequena, imagens a preto e branco, ela na cama com uma almofada, um caderno e um lápis.
Lembra-se da frase da Nobel da Paz e depois pensa que não teve um bom professor e que não irá mudar o mundo.
As coisas que lhe passam pela cabeça começam a ser estranhas pelas seis da tarde, quando chega às onze da noite é outra pessoa. Ninguém dá por isso.
Ainda bem.
Por isso, escreve, sozinha na cama. No quarto ao lado, o filho escreve sozinho na cama. Algures no mundo, alguém escreve, sozinho, na cama. Mesmo que não tenha um papel ou computador.
Podemos sempre escrever na cabeça. Ou no corpo.
Ela tatuou a palavra frágil. Num sítio visível, evidente, inesperado para uma pessoa como é, ou como os outros pensam que é. Paciência. Só depois da palavra tatuada é que percebeu que dentro de frágil está a palavra ágil.
Coisas destas são comuns nela. Mas ninguém sabe ou quem sabe não irá contar ao mundo e o mundo pode continuar na rota de colisão com a sua imagem ao avesso.
Cada dia que passa ficamos mais próximos. Não se sabe do quê. Não exactamente. Tanto faz. Próximo significa perto, perto é junto, junto é estar ligado, estar ligado é não estar sozinho.