Como num filme americano ou uma série, a mulher viu os dois homens sentados e percebeu a tensão. Não os conseguia ouvir, mas pouco importava, era evidente que algo se iria passar. Sem pensar muito, a mulher avançou até à mesa e perguntou
Já estão prontos para fazer o pedido?
O homem mais velho não a olhou, mas respondeu
Um café para mim.
O outro acenou, como que concordando, e ela, tantos anos a servir às mesas, regressou ao balcão. Depois, os dois cafés na bandeja, aproximou-se com um sorriso. A tensão mantinha-se. Pousou os cafés e, do bolso do avental, sempre com um sorriso tirou a pistola e matou os dois. Houve um momento de silêncio. A mulher atirou a peruca para o caixote de lixo da cidade e, logo a seguir, ouviu-se uma voz
Corta!
Este blogue passou a ter comentários moderados. Azarinho.
Afinal, a chuva é mais forte do que eu, o esqueleto pode levá-lo o vento, na cabeça já não se passa nada e, bem esmagado na pele, o coração em estilhaços é como cristal delicado que não tem onde ser arrumado. Sou uma espécie de serviço de loiça em estado precário. Dizem que às noites, algumas noites, o tempo passa mais devagar. Não o sinto assim. À noite é tudo mais complicado. Os passos hesitantes, o tactear as paredes, chegar à casa de banho, suspirar de alívio e tomar mais um comprimido. Apetece-lhe um chá, apetece-lhe um chocolate quente. O que não pode aguentar mais é a dor do lado esquerdo, do lado direito, no peito, na cabeça e a dor que se derrama nas ruas, na luz artificial do candeeiro de leitura, nos livros que se acumulam e ainda nos dedos que podiam querer escrever mas que se recusam. Recusam-se numa negativa teimosa. O que foi que tu fizeste, chuva? Não foi a chuva, foi a vida, as opções. Deixa-te estar, ouves?, deixa-te estar. Não digas que aguentas tudo, não é verdade. Pede um tempo, estás a ouvir?, pede um tempo para viveres em pausa. Achas que consegues.
Afinal, bem vistas as coisas, és chuva: não ouves ninguém.
Página 106 de "A Luz é mais Antiga que o Amor"
Hospital de Bonneval,
Pavilhão Phillipe Pinel,
11 de Setembro de 2001
Alphonse: As imagens bastam por si. Elas são a sua própria resposta. Porque é impossível recusar certas imagens. Estão demasiado saturadas na sua ingenuidade para não revelarem muito daquilo que calam: a bandeira das riscas e das estrelas a ondular na ilha de Iwo Jima; a pegada monstruosa de Neil Armstrong na superfície da Lua; os martelos caseiros com cabo de madeira a desfazer o Muro de Berlim. Na sua surpreendente profundidade, seria necessário poder decifrar ao mesmo tempo a situação concreta que escondem, os valores que oferecem como verdadeiros e nos transmitiram, e só em última instância, sob camadas e camadas de significação, como o seu veio mais íntimo e mais secreto, como uma nascente subterrânea, a operação real que se procurou e acerca da qual as imagens não oferecem mais do que uma tradução simbólica: a Vitória, o Orgulho, a Liberdade. De modo que consigo intuir que o holocausto desta manhã, no outro lado do oceano, implicará uma nova dimensão do alfabeto icónico: a Morte no Paraíso sempre foi um tema predilecto dos profectas (...)" Assírio & Alvim, Tradução Helena Pitta
Podes dizer o que quiseres, tu precisas de colo.
Está bem, mas prefiro ficar no meu canto, tenho vergonha.
Do quê?
De saber que vou voltar atrás, que há quem seja mais importante, que tenho de aguentar.
E, nesse caso, entendendo assim a tua situação, o melhor é fugires? Compreendo.
Sim, é melhor fugir.
Se tu dizes.
Não nos podemos enganar. A vida não nos permite ter outra coisa.
Sim, tens razão.
Mas existem coisas boas, pessoas...
Livros e discos. Já sei.
Isso...
Não te rales com nada. Eu fico bem.
Eu não. Mas tens de ir.
Sim, eu sei. Tenho de ir. Para não ser uma perturbação, um tornado, uma hipótese real de catástrofe. Sou um desastre.
Sim, és um desastre que eu amo, mas um desastre.
Não me verás mais, pode ser.
Não te vejo agora.
Desde que ficaste cego só tens brincadeiras parvas.
Fiquei cego quando te vi e ceguei para não te ver mais.
É triste.
(nota: este diálogo faz parte de uma peça de teatro que, um dia, pode ser que seja encenada. É ficção, portanto. Agradecida )
A impossibilidade de mudar é compreensível. Dá trabalho, implica perdas e rupturas. É melhor tentar pacificar, harmonizar e outros verbos que vão dar ao mesmo. É por isto que me deixo estar, a ver a vida a passar.
Isto disse a mulher no café, 50 anos, cabelo loiro palha. A amiga, da mesma idade, bebericou o café e continuou a ver um revista cor-de-rosa. Sem olhar para a outra, disse
Não concordo nada contigo. Mas não faz mal. Tu tens um marido que foi o teu único namorado, eu já tive três maridos. Somos pessoas diferentes.
Não somos nada.
Somos. Tu tens uma tendência para a queixa e, se queres saber, eu compreendo e posso ouvir as tuas queixas mais vinte anos. Mas são sempre as mesmas.
Queres tu dizer que não mudo?
Acabaste de dizer que mudar era uma impossibilidade, não foi? Então, pensa de forma coerente. Dizes sempre as mesmas coisas e não valorizas nada do que tens.
Tu és cruel.
Pode ser, mas oiço-te. E estou aqui, não estou?
Queres mais um café?
Pode ser. Cheio, sff.
Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.
Isso me pareceu gradiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.
Estou me confundindo, estou me dispersando.
O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.
Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.
Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.
Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.
Ainda não comecei.
Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.
Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.
Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.
Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.
Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinho banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.
Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.
Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: "Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível".
Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in - invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.
Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.
A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.
Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.
Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.
Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.
Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.
Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.
Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.
Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.
Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?
Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.
Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.
Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?
Não, não é assim. Isso não é verdade.
Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.
Quando volto apensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.
As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.
Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.
Nada, nada disso existe.
Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:
- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.
Não, isso também não é verdade.
Quem é que te dá colo?
Colo?
Sim.
A minha mãe dava-me colo.
Onde isso já vai.
Sim. Tens razão.
Então, quem?
Eu resolvo. Seja o que for.
Já sei. E achas bem?
Tenho vergonha de ser frágil.
Isso é uma tatuagem.
Onde?
No meu pulso.
E doeu?
Não.
E fizeste isso porquê?
Pela simples razão de me terem dito de que não seria capaz.
Ah.
Dentro de frágil está a palavra ágil.
Sim. Não está colo.
Ok, mas não isso não quer dizer que não to possa dar.
Está bem. Prometo que não volto para a minha casca.
Acredito.
Achas que será sempre assim?
Será sempre assim.
Se fosse possível ir, se o esqueleto não estivesse em greve, pois então dançaria no central park. Melhor: iria patinar com a graciosidade que me falta em outras coisas, como alguém que possui um talento escondido. Tu ficarias a ver e, sempre que passasse perto de ti, sorririas. Não seriam precisas palavras.
Imagina lá a quantidade de viagens que fizemos juntos sem dizer nada um ao outro. Parece um absurdo. É um absurdo. Mas a vida puxa-nos para o melhor ou para o pior. Ficámos a meio, em horas repletas de altos e baixos, os miúdos sempre lá em cima e nós a carregar o que for, o peso do que for, mesmo dos ossos, para os ouvir rir, ou refilar.
É uma opção. Como outra qualquer. Depois de tomada a decisão, que volta se dá? Não se dá. Imagina-se e ficamos por aí, entre o sonho e a questão mais pertinente: se acordar pode ser de outra forma?
A mulher trazia um vestido de seda, corte oriental, um vestido preto com dragões que pareciam dançar.
Atravessou a sala sem olhar para ninguém em especial.
Sabendo que a seda se colava ao corpo pequeno, ciente do penteado de época, anos 50, acreditando que alguém a esperava do outro lado da sala, manteve o passo, quase lento, uma pequena dança.
Num gesto antigo, ele afastou a cadeira e levantou-se.
Ela sentou-se com cuidado, sorriu olhando-o, incapaz de fixar o resto já que o resto não tinha qualquer interesse.
Ele disse:
Dragões?
Não saio à rua sem protecção.
São anos, percebe? Explicar como se sobrevive é algo que me é impossível. As palavras teriam de ser inventadas. Mas são anos. Um amor para a vida que podia o tudo e todo. Essa é a história. Vivem como nómadas do amor. Não se ouvem muito, falam pouco, escondem um do outro todos os ruídos que o mundo possa bradar. Não se querem ferir. Haverá sempre algo que os separa. Numa metáfora podia ser o deserto, a montanha, o oceano. Sempre foi assim. E o amor não diminui por isso. Jogam num tabuleiro invisível as vidas que podiam ter, aquelas que imaginam. Umas vezes mais atraentes e felizes; outras vezes apenas assim, sabendo que talvez não mereçam amar.
Amar não é para todos. Há quem pense que sim. Está enganado.