Se me vires chorar é apenas para lavar a vida do coração. De resto, sou eu e mesmo no sono serei apenas eu, pouco importa o que se passa para lá da república da nossa independência, mesmo que esta esteja sujeita a choques, manifestações, legislações extraordinárias, contas e impostos, miúdos e cães com nomes estranhos.
Se me vires chorar apenas no reflexo do espelho, quando te encaras de manhã ou de tarde ou, depois, pela noite, acredita que o longe continua longe e as ilhas tropicais esperam por nós com bebidas que trazem sombrinhas made in China.
Se me vires chorar calada e não disseres nada, será uma bondade tua que agradeço já, a água serve apenas para limpar a pele do lixo que é o que sobra para conseguir, por fim, entrar no que temos e que é só nosso, um barquinho mínimo que ninguém vê, um ponto negro que deixou a barra e enfrenta o Adamastor levando biscoitos de canela para entreter sereias e outras distracções.
Perdoarás, assim, se eu chorar e tu te esqueceres que eu chorava por nós mesmo no silêncio que se abate sempre, segundo a segundo, dia a dia, neste enorme desperdício que somos, um pano velho e gasto, com buracos, que serve para limpar a palheta que verifica o óleo do carro. Já te disse que o carro acendeu uma luz estranha? Na verdade, se pensar, a luz parece um farol, é um símbolo e, se quiser alertar: navegar é preciso!, como na canção, pois naveguemos. Será melhor do que ficar em terra firme a sonhar o impossível de uma vida de nada. Digo eu.
Todos os que não sou
escolhem a camisa singular
de olhos fechados.
Trago no bolso dois poemas
e o desejo de toda a gente,
sou um discreto herdeiro
das relíquias que recolho de mesas de café
e em degraus de rua meio desfeitos.
Depois de me descalçar,
arranquei o arame tenso que vos ligava.
Do vértice tento avistar as caras,
queria ser eu e outro,
mas sei que não tenho valor de troca.
Se pensas vestir-me
debaixo do teu casaco
desapareces comigo.
A mulher pensou que estava na hora de se levantar e correr porta fora. Correr seria uma exagero. Gostava do verbo. Agora mesmo. Correr porta fora.
Apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter
aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos
(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)
tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar
mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite...talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou
vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo
Al Berto
in o Medo, pag. 317, Assírio & Alvim
A tua aliança pode ter ficado na casa de banho. A terra não a irá comer. Isso é outra história e não vale a pena percorrer as memórias e os detalhes de outro tempo. Nunca nada será como ontem, nunca nada será como amanhã. Vivemos às camadas, como num símbolo idiota que colocamos no dedo, mas que significa algo. Que tu pertences a alguém. Que eu pertenço a alguém.
Depois de ter escrito tudo isto, o homem engole mais chá com limão e mel. Tosse outra vez. Vê a temperatura. Pensa no sogro, o sogro morto e hipocondríaco. Tem dois amigos a morrer com cancro, ele só tem tosse. A sorte está do seu lado, portanto. Tem de entregar a merda do texto até às 15:00 e são 15:13. Sente que escreve a metro. Ouve Bach por gostar da repetição e acredita que a inspiração é dispensável. Pode escrever o que quiser. É pouco provável que alguém leia. Afinal, não ganhou nenhum prémio e o que lhe pagarão por este texto não vale a emissão de um recibo verde. Tosse mais um pouco. Lá fora, consegue ver, parece que o brilho do sol enche o frio. Melhor para quem passa, para quem consegue andar. Tosse outra vez. Volta ao texto.
As flores que te deixei irão precisar de água e nem isso tu sabes. És uma mulher cruel. Digo-te eu.
O homem pára de escrever. Outra vez. 15:16. Era tão bom que fosse noite para estar incerto na escuridão. Está tão atrasado que será melhor desligar o telemóvel e assim faz. Bach mantém-se, matemático, lógico, brilhante. O mais parecido com a voz Deus que consegue imaginar. Ele, um homem cheio de imaginação. Dizem. O que se diz, não se escreve? Certo.
Era outro ano, 2008 talvez, e a mulher tinha escrita aquela frase
it's all about images with you! I never know where to look: you or the camera
e o guião tomou a forma que os guiões tomam, a luz tem influência, a actriz, o espaço, o que se consegue dizer e ser verosímil, o que não é nada.
Desde 2008, a mulher ficara com esta frase e uma outra
and you are no longer here to tell the story
A memória é estranha.
A inquietação permanente.
Ainda podia pensar que, quem sabe?, a vida fosse apenas isso, uma sucessão de imagens. Impossível de acreditar para quem escreve, mas isso ninguém sabe, só quem escreve e, mesmo esses, apenas alguns.
A mulher colecciona padrões de comportamento.
Tem um armário mental com gavetas para cada um e sabe onde ir buscar o quê.
De momento, a gaveta aberta designa-se por: não me incomodem, não me tratem mal, tenho um cão e conheço uma malta que parte joelhos por 250 euros.
Há duas horas, a gaveta que estava aberta, dizia: auto-estima no menos três da garagem. Há dez horas, outra gaveta, um pouco maior e mais dessarrumada afirmava: a minha verdade é só minha, fruto da minha experiência, vou entrar em modo zen.
Ontem, a mulher não conseguiu aceder às gavetas, o corpo recusou-se e a cabeça estava entretida com leituras estranhas.
SACRIFÍCIOS
Então
sacrificavam-lhes os cavalos
que elas mais amavam
Para lhes alimentar
o poder - dizia-se
que renitente as habitava
Constelação metafórica
que nunca se desvenda?
Enquanto clamavam
cercadas
em torno de si mesmas
(inédito)
O miúdo quer saber se vamos ter uma terceira guerra mundial.
Apetece responder, como tantos já escreveram, que nunca saímos da guerra, que não houve fria ou morna, mas contínua. Tudo isso demoraria algum tempo e ele não talvez entendesse ou discordasse, capaz disso é ele.
Sim, o miúdo tem argumentos para tudo. Felizmente.
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável para mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."
Então, queres tu dizer que não és sincera?
Sou. E cada vez que sou levo porrada.
Ah.
Talvez seja melhor mudar de estratégia.
Pois, talvez seja, mas se fores hipócrita socialmente vai dar ao mesmo.
Isso quer dizer o quê?
Quer dizer que as pessoas sofrem de dor de corno e tu tens alguns motivos que são, digamos, invejáveis.
Eu?
Sim. Tens. E, acresce, tens a mania que podes ser boazinha com o mundo, isso não dá bom resultado. Acredita em mim, mãe.
Mas...
Se eu explicasse tudo o que eu penso sobre as pessoas, provavelmente acabaria sozinho. E tu a mesma coisa. Por isso, encolhe os ombros e deixa-os falar.
Ignoro? São mal educados ou brutos e eu devo ignorar? É isso.
Não, mãe, não deves é dar importância a quem não a tem. A quem nunca teve. Percebes?
Estou a tentar.
Na quarta-feira acaba o frio. Dizem. Fica bem.
As duas mulheres falam ao telefone sobre a vida, a gravidade do planeta e das ideias, o absurdo, o improvável, o justo e injusto.
Querem-se tanto.
Ao mesmo tempo, uma não consegue apagar o frio e a outra não consegue apagar a tristeza. Pensando melhor, estão ambas tristes. Por razões diferentes.
Ao telefone tentam desenhar um outro futuro. A uma parece que o amanhã terá o mesmo vazio; a outra tenta convencê-la do contrário. As duas aceitam que a maldade e a incompreensão estão para ficar.
Podiam não se largar na conversa ao telefone, mas sabem que terão de o fazer.
A amizade é isto. Não é mais nada. É exactamente isto. Para quem não saiba.
A primeira mulher, a que morre de frio, tem vontade de bradar aos céus que eliminou algumas almas da sua existência, por questões de sanidade mental. A segunda mulher grita interiormente, grita com toda a força dentro dos sonhos e tem a capacidade única de os retomar. Quando os sonhos são maus, não vale a pena. Isso sabem as duas.
Amanhã uma delas ligará de novo. E, mais uma vez, isto é a amizade.
Não vou dizer nada, deixa estar, vou ficar quieta, à espera.
Parece que Mercúrio está retrógado.
Não decido nada.
Preciso de eliminar o "não" das minhas frases.