Sábado, 19 de Abril de 2014

W.B. Yeats

Never give all the heart, for love

 

Will hardly seem worth thinking of

 

To passionate women if it seem

 

Certain, and they never dream

 

That it fades out from kiss to kiss;

 

For everything that's lovely is

 

But a brief, dreamy, kind delight

.

O never give the heart outright,

 

For they, for all smooth lips can say,

 

Have given their hearts up to the play.

 

And who could play it well enough

 

If deaf and dumb and blind with love?

 

He that made this knows all the cost,

 

For he gave all his heart and lost.

 

 

publicado por Patrícia Reis às 12:01
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Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

terra queimada

O tempo tem voltas absurdas, canta José Miguel Wisnick.

Todas as feridas da mulher cabem num disco, um disco cheio de canções e músicas de várias proveniências. Há frases, refrões. Vê se encontra um tempo... O homem continua a cantar, o piano lá atrás, ela sem fazer nada. Talvez leia García Márquez de novo. Todos os livros de enfiada, de forma obsessiva.

Ela é obsessiva. Não é uma pessoa tranquila. Há quem lho diga. Muitas vezes.

Ela não se encontra no tempo, está sempre a mais ou a menos nas coisas da vida e até esta verdade teve de llhe ser dita, ou melhor, escrita.

Pouco importa. Há decisões para tomar. Ela não tem dúvidas sobre isso. Uma delas é saber fechar gavetas que voltou a reabrir e que não faz sentido estarem abertas. Outra será ver-se ao espelho e não esperar nada. Simplesmente viver com o que pode ter, com quem tem, dizer adeus a tudo o resto e entrar em águas doces.

A calma assusta-a.

Os ruídos ferem o escuro dos pensamentos.

Toda ela é uma contradição.

Não dirá mais nada ao homem que está longe. É outra decisão.

A terra está queimada, o tempo precisa de ser valorizado e a morte, tão perto, a morte pode levar tudo num repente. Uma nuvem que passa acelerada? Sim. Como a vida. A mulher suspira.

Não pega num dos livros do escritor falecido, aquele que escreveu frases que ela sabe de cor. Levanta-se e pega num livro fininho, com um outro homem na capa, de perfil. Corto Maltese.

Existem livros para onde pode ir para recusar o resto, como um refúgio.

De tanto ser... o cantor continua, ela já não o ouve.

Na vinheta estão duas luas. A vida não é perfeita em Corto Maltese. Um consolo.

É sexta-feira Santa.

publicado por Patrícia Reis às 19:33
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

you read my book?

publicado por Patrícia Reis às 15:33
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Terça-feira, 15 de Abril de 2014

Estamos quase

publicado por Patrícia Reis às 22:49
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Segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Até já

A primeira vez que o vi já trazia o cartão de sócio do Benfica para o filho acabado de nascer. Ficámos amigos instantâneos, eu, a mulher e ele, os nossos filhos celebraram muitos aniversários juntos e, uma vez, acampámos numa casa mínima em Porto Santo, a Paula, os miúdos e eu. Somos os amigos que foram à guerra emocional do nascimento do primeiro filho e nunca mais nos largámos, mesmo quando havia distância. Nunca havia distância. Amigos assim são raros. A Paula ligou ontem à noite, eu tinha o telemóvel desligado. De manhã ouvi-lhe a coragem na voz. O marido morreu, o pai dos seus filhos, o meu amigo. A vida é coexistir com o contraditório.

publicado por Patrícia Reis às 11:35
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Sexta-feira, 11 de Abril de 2014

outra vez

A traição do corpo começa quando a cabeça deixa.

E a cabeça deixa sempre que o corpo traí.

Parece confuso ou paradoxal, mas é apenas assim.

Não é só a humidade ou o frio. Se fosse o caso, os dias melhores seriam dourados.

Não. Tudo começa na cabeça e depois está nos ossos e custa a subir as escadas, a guiar, a dormir. A seguir há qualquer coisa que acontece e a cabeça diz-nos que temos de ir, de fazer. Ou então, num cenário pior, é a vida que nos mostra a dor dos outros, a morte dos outros, tudo se agiganta e temos de reagir.

Reagir não é ficar quieta. É engolir, descer os degraus dois a dois, subir mais devagar, tentar manter o mesmo tom de voz com todas as pessoas e não desistir.

Desistir não é permitido, é uma não-palavra.

A "traição" vê-se a outra luz quando a memória do corpo se ressente e a angústia se instala. Ter boa memória é algo impossível de controlar.

A maioria das pessoas não gosta que os outros a tenham ou, de preferência, se têm, pois que se calem.

Quanto mais me dói, menos calada consigo ficar. Uma merda.

publicado por Patrícia Reis às 00:18
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Quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Maria Teresa Horta

RECUSA

Não pretendo mais do que o limite
que para além do limite
já se entrega

Eu cumpro os meus
limites
não cumprindo as regras

 

 

(in "Destino")

publicado por Patrícia Reis às 00:08
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Quarta-feira, 9 de Abril de 2014

conversas ao fim da tarde

Ele estende-se na cama ao lado dela.

Toca Djavan, o disco do costume, baixo, os telemóveis desligados, a mesa posta para o jantar. O cão dorme estendido aos pés da cama.

Está calor, mais calor. Ela sente essa bondade.

Depois de lhe ler um texto alto, texto que ele aprova, como é habitual, pensa que as palavras são coisas que se atiram para dentro do computador e que podiam fazer a diferença se, porventura, calhassem a ser originais. Não são. Ela explica-lhe a ideia, as crianças, a vidinha, o que tem construído mentalmente. Ele recolhe a informação de olhos fechados. Não por estar a pensar na morte da bezerra, mas por estar concentrado no que ela diz.

São assim. Ela fala, ele ouve. Quando ele fala, ela interrompe. É a sensação que tem. Seja como for, é o final da tarde e já nada os detém, logo podem conversar. Ou ficar calados. Qualquer das soluções é válida. Ao fim de dez anos, podem fazer como lhes der na real gana e o cão continuará na mesma. Têm pena de estar exilados, longe de casa e a casa ali tão perto, exposto, aberta, explodida. Não falam disso.

O miúdo diz: malta, janta-se ou quê?

Ou quê.

publicado por Patrícia Reis às 00:08
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Terça-feira, 8 de Abril de 2014

sem sintonia

Da janela da casa onde estou consigo ver um casal em passo acelerado. Ambos de vermelho, ténis de marca. Passo acelerado. Ele atira a perna direita e ela a esquerda, são um casal estranho, não mantêm a passada sincronizado, estão a cantar (ou a andar) cada um no seu ritmo. Há o silêncio da cidade, o miúdo que tem a playstation e o facebook e um filme, tudo ao mesmo tempo. Um marido que vê a bola. Um livro que tenho de ler, de bom que é. A casa, a nossa casa, surge como uma trincheira da guerra. Não há corpos exaustos, hierarquias militares, a casa foi violada. E dói-me. Por isso, bebo vinho tinto à janela da cozinha dos meus vizinhos - bons vizinhos - e fumo uma cigarrilha. Ouve-se Sade lá dentro, na sala. Há ovos numa panela e pratos lavados, a escorrer água. She takes but surely she doesn't no how. Is it crime?

publicado por Patrícia Reis às 00:37
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Segunda-feira, 7 de Abril de 2014

38 minutos depois

Algures no mundo, o sol esfrega os olhos.

Noutros cantos a escuridão engole.

Meia noite e trinta e oito minutos. Lisboa está calada.

Não há barulho de televisão, de carros, de pessoas.

Um silêncio que se pode dizer que é bom e, ao mesmo tempo, aquele que antecede uma semana mais. E a vida real da semana é sempre fora do tempo, faça sol ou chuva, noite ou dia. Não o mesmo silêncio. Os mesmos gestos. As palavras repetidas.

O que nos sobra, na semana corriqueira, sem graça ou história, é uma sucessão de gestos automáticos que ajudam a sobreviver no sentido mais básico: pagar contas, fazer isto e aquilo por ser preciso.

Se o sol esfregar os olhos e iluminar Lisboa, um pouco mais tarde, logo pela manhã, nascendo laranja e redondo para se colocar no alto como uma medalha, talvez seja possível minimizar os gestos cansativos, sequenciais. Considerando tudo o que já se sabe da vertigem dos dias, talvez seja bom perceber que, além da velocidade, das exigências, teremos de viver dentro de um estaleiro. A casa está quieta agora e não geme. 

Mais uma vez, fugir seria melhor. E fugir nunca é possível.

publicado por Patrícia Reis às 00:38
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Domingo, 6 de Abril de 2014

para que nada doa

O barulho da casa é um gemido hospitar.

Não sabemos onde está isto ou aquilo; há livros escondidos atrás de coisas.

A casa, prometo-lhe, ficará melhor, mais forte.

Como tudo o resto.

Não sei se me acredita, se é apenas condescendente. O tempo é tão pouco e, a casa, sabe disso. Encara-me pelas paredes, brechas, corredores, quartos.

Espera de mim não sei bem o quê e, por isso, vou dizendo que não se preocupe, num instante ficará como nova, até mais, se tal for possível.

A casa geme, um som impossível de decifrar.

Pode ser que concorde comigo, pode ser que veja o futuro com maior facilidade.

Fecho os olhos e imagino que toda a casa decide adormecer.

Para que nada doa.

publicado por Patrícia Reis às 14:11
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Quinta-feira, 3 de Abril de 2014

da impossibilidade prática da coerência

A mulher acreditou - uma vida inteira, mais de metade do que é suposto viver - que a coerência permanente é uma falta de inteligência. Mudar de opinião é saudável. É sinal que se cresce. Uma certa evolução fruto de experiências de vida, de leituras, etc e tal. Pois, a mesma mulher acaba de romper com uma das poucas coerências que sempre manteve, quase com devoção, e não se sente pior ou melhor. Na verdade, se calhar a ser sincera, não quebrou uma, mas antes duas convicções extremas consolidadas em discursos que, acredita, serem o reflexo de quem é. De repente, dois minutos depois da meia noite, a mulher sentiu que perdeu o pé e, apesar de ter dado, como se diz, o braço a torcer, a vida prossegue com a mesma lentidão, as mesmas cartas com contas, o mesmo saldo no banco. Podia fugir. Fugir até seria fácil, mas incoerente. A palavra - coerência - parece-lhe idiota, apenas por breves instantes. Na balança pesa ética versus sabe lá o quê e outros exercícios que lhe preenchem a cabeça. Sim, ela é instável. Todos os jornalistas o são. Todos os escritores que conhece. Assim, será coerente com a instabilidade geral e é a essa bóia que se agarra para perceber que com duas pastilhas talvez durma. Ou não.

publicado por Patrícia Reis às 23:59
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a casa

Este foi um Inverno de rigor e outras palavras acabadas em "or".

A casa está a sofrer imenso e há demasiado tempo.

As obras começam na segunda-feira, sabe-se lá como.

A casa vai dentro de caixotes e a perspectiva não lhe agrada nada.

A casa tem uma voz (o que é dizer muito para uma casa, há escritores que não têm, há cantores que tão-pouco).

Gostaria de a consolar. À casa. Para que fique melhor. Para que saiba que faremos tudo para que regresse. A casa e os livros e os quadros, o sofá e a mesa, as fotografias que forram toda uma divisão.

Falo-lhe baixinho. Todos os dias.

Digo-lhe

 

Até já.

 

Porta-te bem.

 

Aguenta o forte.

 

Ela faz por isso.

A casa é uma bolha que nos protege, onde sabemos o que temos e não encontramos nada. Há muito tempo pensei que voltar para casa é a felicidade. A melhor ideia de felicidade. Querer voltar para casa. Deve ser por isto que se nega aos caixotes, se revolta com as decisões e tem dúvidas que picar paredes ou mudar de cor seja positivo, afinal tem uma identidade, precisa de tempo e de espaço para processar a mudança.

A casa. Pensa que está sozinha no seu receio. Nada mais errado.

publicado por Patrícia Reis às 10:21
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014

Na minha rua

Na minha rua há uma costureira que se chama Alice. Tem um cão de raça indefinida que ladra sempre que se entra na pequena loja. Eu gosto de cães. Não gosto daquele. Apesar de pequeno, tenho a sensação que se se lhe fosse possível, pois comia qualquer cliente, homem ou mulher, gordo ou magro. Na minha rua há um café onde a dona faz iogurte com gelatina e há sempre palmiers de cereais. Cereais que a minha mãe não pode comer e, todos os dias, invariavelmente, digo está frase para dentro: que a minha mãe não pode comer. Na minha rua há um sinal de proibição de estacionar até uma determinada zona. A Malta ignora. A Emel adora a minha rua. Na minha rua há um cabeleireiro que, se passarmos lá duas horas, podemos escrever um romance. Na minha rua, que não tem saída, não é uma intersecção, ficamos à beira da rua do Zambeze, o rio mais longo de África, nasce em Angola, morre em Moçambique. Na minha rua, em qualquer destes sítios, as pessoas cumprimentam-se pelo nome e, se for o caso, paga-se mais tarde. As pessoas sabem os nomes dos filhos e dos cães, quem está doente e para que veio a polícia. Lisboa é uma aldeia. A minha rua é uma metáfora do mundo inteiro.

publicado por Patrícia Reis às 10:28
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Terça-feira, 1 de Abril de 2014

é daqui a 5 minutos

Daqui a cinco minutos. Mais segundo menos segundo. Uma hora tem três mil e seiscentos segundos, quem sabe estas coisas?, portanto não será nada, cinco minutos é pouco. E daqui a cinco minutos, a mulher irá levantar a voz e não irá gritar, exigir, reclamar. Nada disso. Limitar-se-á a ler um romance em voz alta para um amigo que tem e não conhece. Um amigo que não pode ler e que gosta do som da voz dela. Faz-lhe a vontade. Lê e grava e manda por email. Nunca se viram. Que mal há nesse desencontro? Nenhum. A reunião faz-se na comunhão da leitura e, daqui a cinco minutos, outra história irá ligá-los, ela que lê alto, ele que ouvirá.

publicado por Patrícia Reis às 20:02
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