O perfume que me deste está quase a terminar.
Os dias estão mais longos.
Há tanto que se podia dizer e um silêncio frio que protege o sistema nervoso, como um coração entre cubos de gelo.
É madrugada, estás em frente à televisão.
Aqui ao lado, dois rapazes dormem ou conversam baixinho e mandam sms. A adolescência. Está certo que seja assim. Um filho e um amigo. A amizade no seu estado mais puro.
Sabem coisas que nem imagino. Que tu não imaginas.
E o coração vai-se encolhendo, como a essência do perfume que desaparece, dia a dia, lentamente.
Muitos dirão que é a percepção exacta de um caminho percorrido.
Outros dirão que os pensamentos circulantes não nos levam a nada.
Tudo circula, até a água quando vai embora, sem destino que se veja, vai circulando no sentido do ponteiro do relógio.
Nestes dias, confesso, as palavras deveriam ser proibidas.
Não se escreve o que se quer e não se quer nada que se possa escrever.