A semana vai ser um inferno. Não tenho como lhe fugir. Fugiria de bom agrado. Não me queixo, trabalho é trabalho, faz-se o que se pode. O mais velho tem frequências, o mais novo vai aos exames nacionais do nono ano. Há uma altura em que penso que tudo vai sossegar, é sempre mentira. Nada sossega. Será sempre assim e eu, aos domingos, terei sempre mais uma angústia adicional, aquela que antecipa a semana.
É com muito prazer que se comunica que, ao PRÉMIO LITERÁRIO LIONS DE PORTUGAL DE 2013-2014, concorreram 67 candidatos. O Júri reuniu no passado dia onze do corrente, tendo atribuido, por unanimidade:
O 1º. Prémio, à obra intitulada O QUE NOS SEPARA DOS OUTROS POR CAUSA DE UM COPO DE WHISKY, da autoria de PATRÍCIA DO PILAR HENRIQUES REIS, de Lisboa;
E uma menção honrosa, à obra cujo título é O GERONTE DOS MARES, da autoria de António Trabulo, de Setúbal.
O PRÉMIO NACIONAL DE LITERATURA LIONS DE PORTUGAL foi criado no ano lionístico de 2001-2002, e, desde o seu início, tem merecido o patrocínio valioso da FUNDAÇÃO LIONS DE PORTUGAL.
Ora, no próximo dia 28 de Junho, a nossa Fundação e o Lions Clube de Pombal -- Marquês de Pombal vão homenagear o CL José Manuel Silva, Bastonário da Ordem dos Médicos, pelas 11 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Pombal.
FOGO
Promete ficares sempre
junto a mim
desconhecendo o tiro e o disparo
Confessa seres o fogo da paixão
enquanto
sou loucura voo e desamparo
E se ainda assim o delírio
for pouco
acende estrelas no corpo debruçado
Diz-me que o tempo parou
e no desvairo
jura ser pouco não sendo necessário
A mensagem surgiu no telemóvel.
Era já tarde na manhã e a mulher não tinha lido.
A amiga, num avião com afilhado. Meses sem se verem.
A mulher sorriu. O miúdo iria ver o pai e recuperar o coelho.
Depois comoveu-se: antes do pai ir trabalhar para fora, no dia da partida, o miúdo, ainda tão pequeno, meteu o coelho de dormir, o seu boneco preferido, na mala do pai. Quando o pai aterrou, em terra africana, viu o coelho e o coração ficou do tamanho de uma ervilha.
A mulher limpou as lágrimas e escreveu
Love u 2
A mulher decidiu acabar com o silêncio em código. Não era fumo. Não eram luzes. Era uma mensagem dentro de uma mensagem que chegaria, por fim, ao seu destino. Ciente da força do seu código, a mulher decidiu dizer tudo e não se conteve. Colocou o perfume que lhe oferecera, o colar, lembrou-se de umas ideias para decorar a casa e depois, na areia de uma praia gelada, numa outra paisagem que não a vida dela, mandou dizer que percebia. Só assim. Em código. Ele entenderia. Ela aceitava e percebia.
O mar fez-se rio e ela voltou à Filosofia, a mesma água não passa no mesmo rio duas vezes.
Ao fim de tanto tempo, depois de catástrofes, ameaças, mortes e feridos, sempre tudo tão civilizado, em código, ela optou por baixar os braços, atirar a toalha ao tapete. O que sera, sera.
Isso e um pouco mais. A mulher olhou para si, um reflexo de si, a sombra no chão a encolher. Escondeu-se no trabalho e construiu uma casa numa árvore num sítio estranho. Um buraco. O seu buraco. De novo. Nada a fará sair dali e, mesmo mantendo os dias normais, prepara-se para uma espécie de morte.
(para os que se preocupam e ligam à minha mãe, por favor, às vezes um charuto é apenas um charuto, às vezes um texto é apenas um excerto de uma ficção que se tem guardada numa gaveta qualquer. Tudo é um código. A vida real não se escreve)
A escola é uma fase da vida de cada um de nós com poder suficiente para deixar cicatrizes, impressões, memórias e até cheiros. Lembro-me, em particular, do aroma dos bolos de chocolate que se faziam na cozinha da escola que frequentei. Era um perfume inquietante que nos levava a correr para fora da aula quando, por fim, o sino tocava. As recordações que guardo, confesso, talvez não sejam as melhores, por razões distintas, sendo que uma se destaca ainda hoje e me atormenta: nessa altura, como hoje, a primazia da matemática vingava e eu era – e sou – incapaz de assimilar a lógica, a ideia de jogo infinito com os números. As artes e a criatividade eram purgadas do nosso sistema. Que interessava ter um corpo para dançar se tinha de responder, rápida, ao cálculo mental? Que importava querer encenar uma peça de teatro escrita por nós, alunos, se o que contava era a conjugação verbal?
A escola exige afinco e trabalho. É um emprego. Tem algumas vantagens face ao mercado profissional que, posso calcular, serão enumeradas amiúde pelos pais dos diferentes alunos. Eu fui uma privilegiada por ter crescido com um tio-avô que era pintor. Um artista, dizia-se então e, hoje, a denominação regressa porque um pintor pode, se quiser, fazer vídeos, performances, instalações. Era um dos homens mais inventivos do mundo. Ainda acredito nesta verdade que me salvou a infância e adolescência. Dois e dois são quatro, mas se os dois forem um casal e esperarem um bebé, quantos são? Cinco! Resposta certa. Estas e outras formas de abordagem ao sistema de ensino levaram-me a explorar muitas outras coisas. Queres saber de geometria? Pois vamos à procura de Picasso, dizia o meu tio. Queres entender como é que chegámos aqui e como construímos máquinas fotográficas e o que é a ilusão óptica? Procuremos na História, desencantemos Leonardo da Vinci, passemos pelos irmãos Lumiére e talvez nos possamos perder numa aventura sem fim. Como podem ver, a minha infância e adolescência foi rica e diferenciada. Nada era impossível. O meu tio-avô fez tudo para que eu me integrasse e fosse uma mais-valia na escola. Dizia ele que os amigos são a nossa casa e que é na escola que começamos os alicerces que nos servem para a vida. Acreditava, como eu, que a amizade é o sentimento mais transfigurador e poderoso que podemos alcançar. Na escola, felizmente, podemos encontrar muitas vigas mestras para a construção da casa, mesmo que, por vezes, haja pequenos abalos, terramotos inesperados. O espaço onde corremos e aprendemos é como uma pequena comunidade, tem regras, defeitos e virtudes. Há sempre coisas que não entendemos. Mesmo depois de crescidos. E outras ainda que nos espantam. Pessoalmente, surpreende-me que depois destes anos todos de progresso tecnológico e científico, tendo chegado a uma época em que há o maior número de pessoas com ensino que alguma vez existiu na História do Homem, ainda estejamos tão pouco vocacionados para deixar que as nossas crianças gozem a imaginação, a criatividade, as artes que estão sempre no fim do poço do sistema educativo. Hoje, os meus filhos querem saber como é que vão ganhar dinheiro no futuro. Eu queria ser escritora, sabendo de antemão que isso não me traria estabilidade ou garantia. Eu queria ser feliz. Os meus filhos querem um curso que lhes dê um emprego. Serão eles, mais tarde, felizes? Terá a escola, como ecosistema social capacidade para encarar esta nova era do mundo que se começa a desenhar tão rapidamente? Ser optimista, encarar a vida de forma construtiva não se ensina nas escolas. É pena. Hoje, mais do que nunca, será o optimismo que pode beneficiar as novas gerações. Em Inglaterra, recentemente, um estudo optou por definir a geração dos 16 a 25 anos como a “geração perdida”. Sou optimista, já o disse, porém creio ser fundamental que a escola compreenda que terá de mudar radicalmente a forma como estrutura o sistema de ensino. Uma boa média para entrar numa universidade já não chega. Porquê? Porque uma licenciatura é agora o equivalente ao antigo sétimo ano e os empregos não abundam. Estamos a desenvolver estruturas no sistema educativo para alterar o estado das coisas? Para dar esperança às novas gerações? Para os deixarmos ser quem querem ser, independentemente do dinheiro que possam, ou não, ganhar? Duvido. Tenho apenas esperança. O mundo talvez não precise de mais um engenheiro civil, talvez não precise de mais um jornalista, mas de pessoas com ideias e felizes precisará sempre.
dias
Às vezes uma pessoa aguenta, outras vezes dói.
Ela disse esta frase com o fio de tristeza que lhe restava, como uma força extra arrancada sabe-se lá de onde. Fiquei ali a pensar naquilo e a ver os olhos azuis a diminuir. Se me fosse possível mudava-lhe o mundo.
309 km para o Porto
Falámos de sexo. A auto-estrada inteira até à ponte da a Arrábida. O que os homens gostam, o que as mulheres sofrem, o mito do sempre prontos para a brincadeira, como a Anita e o Fred Astaire nos lixaram o futuro amoroso, etc etc. Não dei pelo tempo.
o vestido
O vestido tem um efeito, é de lado, abre ligeiramente, podemos ver um pouco da perna. É de uma cor linda, entre o roxo e o lilás. A mulher tira a roupa rapidamente, a porta do gabinete fechada. Dá uma volta, a outra sorri e aprova. Abraçam-se ao fim do dia. No computador os emails começam a cair como pedras numa derrocada. Uma das mulheres diz
Já viste a nossa vida?
então, ela disse ao telefone
Sabes a frase da Agustina? Enjoaste o teu marido? Agora aguenta-te.
As duas mulheres riram, o problema não era o marido, uma por não o ter e a outra por não o ter enjoado, a questão era outra. Uma espécie de grito de revolta por estarem rodeadas de homens cuja persistência e iniciativa não dão em nada. Enjoar o marido aqui significava enjoar o chefe, o subordinado, qualquer um que tivesse perdido centímetros de importância. No entendimento delas, claro. Porque os homens terão outra perspectiva, dirão que elas são acintosas, termo que as leva às gargalhadas e que repetem várias vezes para terem a certeza do absurdo pensamento que têm sobre elas. Pensamentos deles. E o que pensam os homens sobre estas mulheres? As duas com dois telemóveis, as crianças, os empregos sem horas, as solicitações, os tachos e as panelas, as facturas e recibos, as contas e ainda, claro, toda a carga de uma família, mãe, primo, filho, irmão, madrinha, tia velha, tia mais velha ainda. Ah, um formigueiro de gente, em filinha, sempre a passar por cima delas e elas a tentar sobreviver, a rir das parvoíces dos homens, a tentar compor os dias com pensamentos melhores, a ver azul onde só há negro. E a recuperar memórias pela simples razão de que a possuem.
Os homens não têm memória.
Era uma frase recorrente e ambas se reconfortavam com essa verdade universal. Outra que escolhiam habitualmente prendia-se com o comodismo. Havia um cento de histórias que podia corroborar a teoria delas. Ao telefone, na rua, no café, completavam as frases uma da outra. Estavam certas do amor que as unia. Nada as podia separar. Simplesmente entendiam a vida da mesma forma. E não estavam prontas para baixar os braços. Por isso, citavam Agustina, e seguiam em frente. Se um homem as magoava escorraçavam-no sem dó. Sofriam um pouco, mas passava. Os anos, esses, corriam velozes.
Pelo menos não estavam sozinhas.
Pelo menos não estavam sozinhas.
Titulo?
Ouviam-se muitas vezes uma à outra durante o dia. Telefonavam-se logo depois do pequeno-almoço. Não gostavam de falar ao acordar, também nisso eram parecidas e por isso lhes era tão doce partilharem quartos de hotel, numa alegria de adolescentes eternos. Fumavam um último cigarro na varanda dos quartos de hotel, sempre que havia varanda – por exemplo, no Brasil. Andavam de mão dada no Rio de Janeiro, divertia-as que as considerassem namoradas. Eram muito mais do que isso, embora só tivessem sexo com homens. Com menos homens do que o mundo pensava, e também isso as divertia: que os homens se assustassem com elas. Às vezes uma delas telefonava mal a outra tinha acabado de acordar, mas atendia na mesma. Pensava, num segundo: ainda estou com voz de ogre, ainda tenho os sonhos engasgados na garganta, mas com ela não faz mal. Não faz mal que a conversa não faça sentido. Com ela, nada me faz mal. Viam-se pouco, porque passavam os dias a correr entre trabalhos, crianças, supermercados, coisas urgentes para escrever. Às vezes quase corriam para os braços uma da outra
Onde é que estás? Trouxe-te um vestido da minha última viagem e quero que o vistas antes que acabe o Verão.
Quando estavam juntas, a primeira sensação era a de que tinham muitas coisas para dizer e não sabiam por onde começar. Era uma sensação estranha, porque tinham falado ao telefone meia hora antes, e antes de adormecer ainda voltariam a falar. Os encontros sabiam-lhes sempre a pouco: faziam planos de tirar uns dias só para as duas, que nunca conseguiam cumprir. Mas eram boas a arranjar trabalhos a meias, que as obrigassem a partir juntas para qualquer lugar. Nunca eram bem férias, mas a verdade é que elas não saberiam estar de férias. Diziam uma à outra
- Precisas de parar um bocadinho,
Mas era um ritual, apenas isso, uma outra forma de dizer estou aqui para ti.
feliz
Do outro lado do mar, do mar imenso, ela entra no museu da língua e deslumbra-se. Aqui deste lado há um vazio sem nome. Com quem falar? O silêncio enche os minutos das horas, de toda as horas. Ela escreve do outro lado do mar. E celebra, imensa e solar, essa viagem de ser e estar onde só ela pode e deve estar. É possível ser feliz pela felicidade de outro alguém.
e o bolo era maravilhoso
Os amigos reuniram-se na casa junto ao mar. Havia jornais espalhados, a televisão em silêncio, os cigarros na varanda, sardinhas assadas, salada de pimentos, histórias e contra histórias, um poeta a abrir uma garrafa de champagne, memórias da política, coisas da literatura, imensas gargalhadas, o telemóvel a tocar, um arroz doce divinal (sempre!) e a aniversariante, cheia de calor, num gesto de menina, cabelo preso por um elástico, a rir às gargalhadas. O mano vigilante com as fotografias para guardar o momento e ainda um brinde à memória. A memória que nos junta, todos os anos, para cantar os parabéns e atrapalhar jornalistas que querem novas por telemóvel, sem respeitarem o domingo dos outros, porque lhes calhou em sorte trabalhar hoje. Não faz mal. Cantamos outra vez e ainda outra quando a garrafa de champagne se entorna, ligeira, numa apetitosa tarte de limão com merengue. Há quem ofereça o aluguer de uma conta na Suíça e outros que se preparam para representar a aniversariante pelo mundo, reclamando origens e ainda conhecimentos. Vem o bolo - maravilhoso - e ainda há um cheiro de brasil no fim dos parabéns. É domingo. Em casa, os adolescentes partiram um copo, uma faca, deixaram cair uma penica com melancia no chão, perderam os chinelos de praia, não puxaram o autoclismo, deixaram os individuais abandonados por aí. Fazer o quê? É domingo, já se sabe.
Encosta-te a mim
E ficaram a ouvir, na rádio. As duas mulheres, ignorando a madrugada, esperando por uma resposta que não chegaria tão cedo, um apito no telemóvel. Sorriram uma para a outra, uma na outra. A canção terminou e as duas despediram-se. O carro fez-se à estrada. A estrada não tem encosto, tão pouco tem fim.
Uma e outra
Uma bebeu água pela garrafa. A outra bebeu sumo natural de tangerina. Ao mesmo tempo que falavam os telemóveis tocavam e o computador dava sinal de entrada de mensagem. Estavam ligadas ao mundo e riram da vertigem e da velocidade a que tudo se passa. Saltaram de assunto em assunto, rápidas, contando os pormenores, rindo e fazendo perguntas. Podiam ser mulheres fora do mundo, embrulhadas numa tal cápsula tecida com cuidados antigos e sabedorias estranhas, a conversar. Podiam ser irmãs, primas ou casadas, como na brincadeira de criança. Enquanto o tempo permitiu, o relógio a correr para não as poupar, conversaram. No fim abraçaram-se. Quanto tempo tiveram? Um impulso de carinho, chega.
uma sopa e um iogurte
O sol escaldava e as duas mulheres atravessaram o largo de santos a passo lento. Conversavam sem reparar nas pessoas, nos pombos, nos carros. Entraram no Macdonalds e pediram uma sopa e um iogurte com fruta. A questão central era a de saber como podia uma descansar. A outra fez-lhe ver que há coisas que se fazem por afirmação, outras por hábito, outras ainda por medo. A primeira concordou. Comeram devagar. O que as unia ninguém saberia dizer, assim à primeira visto. Ou talvez não. Quem tivesse o poder de olhar além do óbvio veria uma cápsula protectora, tecida com anos de partilha, uma espécie de bolha onde as duas circulam.
Mesmo quando se afastam.
Antes do outro lado do mundo do que em sítio algum
O mundo tornou-se uma caixa minúscula, apenas um quadrado do lado direito do ecrã do computador e a tua imagem, por vezes desfocada, por vezes distinta, um sorriso aberto. A tua mão a passar na cara, a disfarçar as lágrimas, como se eu não soubesse. Não há distância que me impeça de te conhecer, sabes?
Sei que mordes o lábio quando estás nervosa. Se tens algo para contar quando falas mais baixo e devagar. Gostas de fazer perguntas concretas. Odeias demasiados adjectivos. És apaixonada por tudo o que é tecnologia, mas tens a maior colecção de poesia que conheço. Se te perguntarem de onde és, encolhes os ombros. Para ti o mundo tornou-se pequeno muito cedo. Começou numa viagem de comboio depois do liceu, depois um curso no estrangeiro, um estágio num outro continente e, por fim, uma pós-graduação na terra natal. Se não fosse a pós-graduação talvez nunca nos tivéssemos cruzado e seríamos duas metades de laranja desencontradas. Seria um desperdício, não achas? Vais gozar e dizer que desperdício é um pano que se tem no carro para limpar a vareta do óleo.
O fuso horário ou o facto de os hábitos culturais aqui parecerem ser diferentes não te ofuscam, não te tiram importância. A minha vida ainda é feita em função de ti. As tuas memórias estão dentro do computador, nas fotografias, na pasta que tenho no telemóvel com mais de quinhentas mensagens escritas. Sabes que podemos escrever a nossa história de amor só com aquelas mensagens? É verdade, não estou a exagerar.
O amor por escrito não vale tanto, dizias tu no início, depois não resistias e os meus dias passaram a ser invadidos por curtas mensagens, umas mais subtis que outras, alguns enigmas, umas tantas surpresas. Eu comecei por me queixar da vertigem do mundo, desta coisa de estarmos sempre ligados – não no que nos diz respeito – mas aos outros, aos que invadem a nossa vida: sinais sonoros de avisos de mensagem. Chats e imagens em computadores muito pequenas cujo objectivo é combater a solidão, videos idiotas do youtube, gosto e não gosto no facebook. Tu nunca quiseste saber. Estar ligada ao mundo é a tua maneira de estar. Percebi isso depressa.
Aqui, apesar de tudo, sinto-me sozinho só às vezes. Talvez não tenha sido a melhor opção. Sei que este emprego é importante, até em termos de um potencial futuro conjugado a dois. Não deixo de ter dúvidas. É sempre assim. Fico preso às imagens da televisão e penso nos gestos políticos da Terra e na forma como te posso perder. Um tsunami, um sismo, um furação. Quando era miúdo não ouvia estas palavras. Bom, quando era miúdo nunca pensei apaixonar-me por alguém que vive a pensar em tudo o que está debaixo de água. Tu dizes que nasceste para estar em estado líquido e estudas biologia marítima como se fosse uma paixão. Desculpa, é uma paixão. Trocas informações com colegas do mundo inteiro, até tens uma amiga que se chama Suzuki e que vive no Japão. O teu desespero com o desastre de há uns meses mobilizou uma série de gente e, no fim, Suzuki apareceu sorridente, triste, mas sorridente. Explicou todas as questões técnicas, as placas tectónicas e a força do mar, ondas de dez metros. Tu ouviste tudo e gravaste. Mandaste o ficheiro e vi a tua amiga, por vezes com a imagem a falhar, a explicar como se estivesse a dar uma aula ou a contar algo de trivial. Um rosto desconhecido num inglês sofrível. Mais uma pessoa com quem não me cruzaria se não fosses tu.
Sempre admirei essa tua faceta de entender o mar como algo comum, uma espécie de amarra que nos separa e junta ao mesmo tempo. Pode parecer paradoxal, mas não é tanto assim. Os oceanos são uma forma de vida única e trazem e levam o melhor e o pior. Tu não tens medo. Eu tenho. Confesso-te que sou apenas um professor, aliás um leitor se formos sinceros, contratado para divulgar a cultura portuguesa, a língua de Pessoa e de Camões. Como é que alguém como eu começa uma relação com uma pessoa que sabe tudo sobre as baleias azuis? Agora sei que as baleias azuis têm um coração do tamanho de um carro. Foste tu quem mo ensinaste. E eu ensinei-te o quê? Que temos as fronteiras mais antigas da Europa, que o mar como destino e trajecto para um mundo de Descobertas era uma inevitabilidade se queríamos sobreviver. Coisas, se quiseres, banais.
Na semana passada, além dos emails, dos chats com imagem e até das sms, tive a maior surpresa de todas: enviaste uma caixa, devidamente acondicionada com papel de bolhas de plástico e, lá dentro, um frasco com areia da praia. Uma praia onde foste para fazer pesquisa. Com o pequeno frasco estava um cartão que dizia: “Em terra ou no mar estou sempre aí ao teu lado”. E eu senti-te, aqui mesmo. Toquei no teu rosto, a tua imagem parada no ecrã do meu telemóvel antes de marcar o número da nossa casa.
Desenhar é uma forma de escrever. Aprendi isto muito cedo. No estirador do meu tio cresciam formas estranhas, riscos que afinal não eram rasuras, misturas de cores e criaturas disformes, embora encantadoras. Encontrei, mais tarde, vários artistas cuja voz fui reconhecendo. O desenho tem o poder de nos levar para onde quisermos e, se tivermos imaginação, a história que se conta pode não ser a mesma que estava, no início, na cabeça do artista, mas isso que importa? O poder da arte é também essa apropriação imediata que nos leva a desejar estar dentro da tela, da folha de papel, de qualquer outro suporte. É preciso uma certa ousadia para entender a arte como algo que nos é oferecido – que parte dessa imensa generosidade de quem a dá a conhecer, de quem possui o talento de nos deslumbrar -, algo que pode ser nosso, contar as cicatrizes, sonhos, receios que levam também o nosso nome.
Acontece-me por vezes ficar presa num emaranhado de pensamentos, à procura do que motivou o artista a concluir um obra de certa feição. Acabo por perceber que posso estar apenas dentro do meu filme. Como se frui a arte? Como se deve expor? E até que ponto é que a podemos explicar? Estas três perguntas fi-las muito cedo. O meu tio, do alto do seu estirador, respondeu-me com um sorriso e disse
Não sei.
Quando morreu fiquei apenas com alguns desenhos, umas telas, umas flores desenhadas em papel pêssego. A magia da arte podia ter morrido ali, mas eu estava fadada a ser uma espectadora atenta. Fui educada para isso. Assim, quando me pediram este texto, perante este conjunto de peças – desenhos, pinturas – limitei-me a esvaziar a cabeça, esquecer os rótulos académicos que nos podiam levar ao surrealismo, aos pioneiros e aos outros, aos mais e menos conhecidos dos livros de História de Arte. Fiquei a ver e coleccionei sensações. Fiz a minha história e cada desenho é agora meu. Apesar de artista. Por causa do artista. Dessa imensa generosidade de escrever com traços e tintas o que se sente no momento em que se sente. Será este um texto sobre o autor e a sua obra? Respondo como o meu tio
Não sei
Limito-me a construir com palavras algumas emoções, ideias soltas sobre o fascínio que sinto. Uma escritora desenha de outra forma. Acredito que o propósito seja similar: partilhar, fazer perguntas, expulsar demónios, reconciliar sonhos. Como tudo isto que nos espera agora, nas páginas que se seguem.
Todas as histórias começam com...
Era uma vez um grupo de escritores. Desconheciam-se. Talvez se tivessem lido, era pouco provável, mas podia ser que sim. Cinco pessoas, três homens, duas mulheres e um avião. O destino era o Brasil. Foi um pouco mais do que isso.
Voámos sem saber para um encontro amoroso. Apaixonados da Literatura, alguns doidos por poesia, todos de acordo quanto ao Fado e os clássicos da música popular brasileira. Nós, os cinco escritores, casámos.
Patrícia Portela, Sandro William Junqueira, Nuno Camarneiro, João Ricardo Pedro e eu. Os cinco. Sem cão, é certo, mas assumidamente um grupo.
Uma união.
Eu sei que a melhor forma de amor é a amizade e o que nos uniu, aos cinco, foi uma amizade que hoje se faz de mensagens, telefonemas, breves passagens e encontros. É sempre bom e ganhamos todos um abraço.
O que nos torna especiais? Nada. Sermos nós.
Cinco pessoas capazes de cantar o fado e celebrar a escrita sem pudor, inveja ou mesquinhez, denunciando receios, relatando projectos futuros.
Um dos projectos era o do Nuno. E ele ganhou o Prémio Leya. Depois do João Ricardo já o ter ganho. Festejámos tanto com esta vitória que o João até mandou um email a dizer: “e o cabrão do Nuno ganhou e eu não consigo deixar de chorar.” Acho que chorámos todos. De alegria. Por sermos capazes de festejar.
No Rio de Janeiro fizemos um pacto. Um daqueles pactos que se fazem depois de um bom jantar, com cerveja e caipirinha. O primeiro de nós a lançar um livro seria apresentado pelos restantes quatro. O livro do Nuno – desculpa, Nuno – não contou, por ser um prémio, porque a Patrícia e o Sandro não podiam estar.
Agora, sabendo que no céu não há limões que possam adivinhar o futuro, cá estamos para apresentar o Sandro William Junqueira e o seu novo livro.
E ele leva-nos para a Terra Média e, como o conhecemos, conseguimos perceber, aqui e ali, nas páginas deste livro, a metáfora que o comove, a história que o persegue, a ideia de que a maldade não pode estar sempre no pódio dos vencedores.
Este livro tem inúmeras personagens e não vou contar a história, posso apenas dizer que comprem, recomendem, partilhem. Por ser bom.
Uma das personagens que vai tomando cada vez mais força durante a narrativa, é o Padre. E é a este que o Bispo Auxiliar diz
Alcançar a recompensa de cima é tarefa árdua. Por isso, o caminho da fé é perder e perder e perder; e, perder, ainda. E nessa sucessão de derrotas sucessivas o desafio é encontrar humildade suficientemente resiliente, trabalho na constância, para as transformar numa inesperada vitória; adiada, é certo; mas uma vitória. O último combate é o que conta: a ressurreição.
Não me levem a mal. Esta citação do novo livro do Sandro serve, como uma luva, perfeita, no que eu creio ser o trabalho do escritor. Sucessivas derrotas que são reflexo do que somos, do que tememos, de quem incomodamos, sempre uma tentativa-risco e, de repente, o livro pronto, um filho parido da ponta dos dedos e o olhar a medo. Como me irão ler? Será que me entenderam? Será que…
Os escritores não são pessoas normais. Quem o diz é Paul Auster e quem sou eu para o desmentir? Diz o autor norte-americano que não somos normais por escrevermos. Por termos essa necessidade. Caso contrário estávamos a viver a nossa vida, não estaríamos aqui ou algures, numa solidão ocupada de personagens que exigem de nós o que, muitas vezes, levamos tempo a cumprir. É preciso ser teimoso para se ser escritor.
Não creio em escritores profissionais, talvez por gostar de viver uma vida fora de portas. Mas creio que o Sandro é um escritor para a vida e que nós, os cinco, seremos amigos sem qualquer resistência. Não por imposição, mas por amor. Um amor que encontramos em cada palavra bem pesada, nunca repetida, que a escrita do Sandro nos dá no livro “No Céu Não há Limões”. Por isto tudo e mais, façam o favor. Quando pensarem em autores portugueses, pensem no Sandro William Junqueira, por que escrever não é tarefa fácil ou para todos. Não quando o patamar é o da Literatura.
(este texto serviu de base para o que disse e li na apresentação do novo livro do Sandro, façam o favor de ler.)
E a miúda disse que não sabia onde a mãe tinha ido. Porque era a verdade e também por não ter qualquer interesse. Aos doze anos não se quer saber se os passos da mãe seguem os nossos; aos doze anos quer-se distância e carinho. Uma ideia de tranquilidade. Um prenúncio de aventura. Uma cara que possa expressar, a qualquer hora, o desafio da própria existência. Isto aos doze anos.
Mas eu já não tenho doze e embora me recorde com exactidão do dia em que o mundo explodiu, não posso contar. Mantenho a versão infantil de não saber onde ela foi, para onde foi, como e com quem.
Por isso, resta-me a retrato da minha mãe, aquela memória de ter feito uma birra no estúdio do fotógrafo porque aos doze anos não se gosta que nos fixem, que nos congelem num momento apenas. A mãe insistira com paciência e eu cedera com a promessa de uma liberdade qualquer, uma ida à rua, algo assim.
O retrato é a cores: mostra-nos como sempre fomos, parecidas e distintas. Às vezes, quando as noites são mais duras, parece que eu estou dentro da minha mãe ou vice-versa. Nunca apago a luz do corredor, tenho medo do escuro. Como a minha mãe.
O meu padrinho de casamento foi operado ao coração em Santa Maria. Imaginei na minha cabeça que era operado por uma personagem de uma série americana, por Cristina Young da Anatomia de Grey. Escusado será dizer que tudo correu de feição:)
Completamente fora do mundo
Não sei a razão que me leva a escrever quando posso roubar ao meu filho. Ora, fiquem lá com o texto do Sebastião:
O meu amigo morreu, a avó da minha amiga morreu, a mãe de uma outra amiga, lá no outro lado do oceano, morreu. Estou farta disto. Não tenho mais lágrimas e tão-pouco sei como consolar o que é impossível de ter consolo. Canto como Chico Buarque, deixa o meu coração em paz que ele não pode até aqui de mágoa. E apetece-me dizer palavrões. Pronto. Tenho dito.