Quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Dourado

 

A decisão para o dia estava tomada: seguir a canção, considerar a liberdade como uma verdade e viver a vida a dourado, num modo extraordinário, como se nada fosse possível de a atingir.

Para tanto, a mulher optou por sair de casa com um chapéu e, ao pescoço, uma pequena figura, uma menina que salta à corda, uma menina que não podendo ser filha dela, será apenas ela, ela a ser livre agarrada ao seu próprio pescoço. Essa ideia de sofrimento, de quem é estrangulada, pareceu-lhe uma boa metáfora da sua vida.

O chapéu disfarçava um pouco.

publicado por Patrícia Reis às 00:40
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2014

Feliz

A mulher pensou no refrão de Bruce Springsteen

 

57 channels and nnothing on.

 

Viu um filme da treta, dois episódios de uma série da treta, depois tentou não pensar muito na acidez que o estômago cantarolava e foi beber água à casa de banho.

Evitou o espelho, por ser apenas mais um reflexo da enorme falta de sentido da programação televisiva a par da programação da vida dela, caso se der ao trabalho de olhar para o calendário.

Passaram-se meses, nada abranda.

Queria fugir para um ashram. Todos lhe dizem, a brincar, que vá, pois que vá. Todos? Um ou dois. Outros, olham-na com surpresa e ela pronta para deixar de falar, para limpar salas e meditar (apesar de saber que tal será impossível), ouvir cânticos incompreensíveis e sobreviver a monções. Sim, já que é evidente - na sua cabeça - que se fugir irá parar ao centro de uma qualquer catástrofe e depois? Nada.

 

Mais do mesmo.

 

57 channels and nothing on.

 

E a solidão que aperta.

publicado por Patrícia Reis às 00:32
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Ninguém imagina

A mulher sentou-se no tampo da sanita e evitou o espelho.

Segunda-feira. O tormento do domingo e depois a manhã de segunda. A incapacidade de sair. De dizer. Qualquer palavra. Faz os gestos automáticos de quem se prepara, sabendo que será com dor. Tenta não pensar nisso. Evita o espelho. Outra vez. Ninguém imagina? Pois não.

publicado por Patrícia Reis às 10:46
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Domingo, 7 de Setembro de 2014

eu vou, eu estou, eu fico

 

 

É outra forma de amor.

 

A mulher disse-o. Ao espelho. O quê? Uma estranha certeza de que, apesar de tudo, estão. Estão sempre. No mesmo sítio. Nunca deixaram de conversar, nunca deixaram de se tocar.

 

 

Eu vou, eu estou, eu fico.

 

A mulher sabe que é assim. Mesmo na ausência.

publicado por Patrícia Reis às 18:35
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Sábado, 6 de Setembro de 2014

Para MM

Imagina que a tua pele se dobra. Como um lençol com elásticos nos quatro cantos. É impossível que fique perfeita, imaculada, arrumada, é a tua pele, a rebeldia que desafia todas as equações. Haverá um truque. Decerto que há truque. Para os lençóis, para a pele, eu sei que não e tu também o sabes, Sara. Faz um pequeno esforço e acredita que consegues encolher-te tanto que a tua pele estica, torna-se translúcida de tão fina, um tecido precioso, raro, talvez, e agora vais dobrando, dobrando, até doer, até ficares tão pequena que nem sabes o tamanho do mundo, não vês e não sentes. Não sentir. Nada. Ser apenas essa pele e depois arrancar a alma, expulsá-la para outro recanto numa recusa. Esquecer-me de deus, como tu tanto querias. Agora já posso. Aqui tudo me é permitido. Ninguém me olha ou, se preferires, se calha a ser honesta, continuo sozinha na paisagem, pendurada, nunca me vêm, não sabem de mim. Creio que só tu me vês. Creio com o mesmo fervor com que pedi a deus tantas noites, pedi um sinal, um caminho, aquela frase que te irrita do caminho que se faz caminhado, e eu aqui parada, crendo apenas na minha existência por te me olhares.

Na solidão do mar, à noite, desta janela, vejo as estrelas e vejo-te nelas, sempre com esse teu meio sorriso, doce, por vezes carregado de ironia, pronta a disparar uma daquelas gargalhadas que provocavam um silêncio, as pessoas nos restaurantes suspensas nesse teu som feliz sem saberem que não há nada em ti que se possa aproximar da felicidade. Estamos presas uma à outra pela mesma miséria, a falta de bondade dos outros, a história com P. e todas as outras que se seguiram. As que não te contei, tu adivinhaste. As tuas são fáceis de perceber, pelo menos para mim, nesse entendimento que temos, secreto, um pacto, que congela todas as traições e, só por isso, tu falas, tu contas, tu expões. E eu oiço. Oiço com atenção e faço perguntas e tu respondes, nunca deixas de responder. O que mais falta me faz é o cheiro da tua voz. Achas estranho? Não aches. Esta minha fuga de tudo é apenas outra perspectiva de vida de nada, não oca, repleta de algo que faz sentido: a memória. Como alguns velhos, dirias. Não, a memória não é apanágio da idade, a memória é infantil, é uma história que escrevemos na pele. E eu passo o dedo no braço e escrevo o teu nome, sara, para depois o ver desaparecer.

Tu odeias a escrita com a unha, a dermografia, um tique que tenho, já sei, as unhas a arranhar o pescoço ou o braço e a marca vermelha, imediata, como todas as outras marcas. O que escrevo na pele com a unha é o teu nome. Estou melhor, vês? Quando era adolescente achei que era melhor escrever com pontas de facas e de lâminas e tentava não ouvir nada do que me rodeava. Quando P. me deixou, para ir passar as tais férias, para voltar ao corpo onde pertencia e que não era meu, talvez arrepiado de incompreensão pelas cicatrizes mais profundas desenhadas em mim, pensei, outra vez, nas facas e pensei em deus e depois em ti. Foi quando liguei e só pelo meu silêncio, ao telemóvel, tu vieste de imediato. Imagino o meu nome no ecrã do teu telemóvel, apenas um M e um ponto final, com se, mais uma vez, fosse um segredo só nosso e, agora, se me ligares não haverá nada, nem a voz irritante a dizer que o número que marcou não tem o voicemail activado. Deixei-te um colar e uma carta que pouco vale, onde só tu podes ler nas entrelinhas e sei que irás cumprir. Consigo ver-te a consolar a minha mãe, acredita que ela precisa de consolo, se preferes, mas não é verdade. Eu sei que não é verdade. A única pessoa que a minha mãe ama mais do que si própria é a pessoa que lhe sorri ao espelho, o seu desdobramento em reflexo óbvio de uma eterna procura de imortalidade. E eu a dizer-lhe, a dizer-lhe uma vida inteira

 

Mãe, vai morrer. Como todos. E não sabe quando. Mas vai morrer.

 

Já não te recordas, não sei, contei-te isto e tu, horrorizada, a rir

 

Mariana, isso é tão cruel. A tua mãe é

 

E eu a interromper

 

Bonita? Vais dizer bonita? É que se vais, deixa estar. Já sei.

 

Ficaste em silêncio e começaste a falar da tua mãe. A tua mãe no lar. A tua mãe a dizer que lhe roubaram as jóias. Que a comida tem demasiado sal, que não a visitas, que não queres saber dela, que foi abandonada. O teu irmão nunca o faria, um bom filho, o teu irmão, pena ter morrido cedo. E, a seguir, continuaste

 

Sabes, quando éramos muito pequenos a minha mãe vestia-nos de igual. Eu usava calções como o meu irmão e, de repente, estava tudo perfeito e ela até dizia, a minha mãe, dizia com um sorriso encantado que tinha dois belos rapazes.

 

Que estupidez, sara.

 

A minha mãe é má.

 

A minha também.

 

É diferente.

 

É sempre diferente, Mariana, ou tu pensas que não? A maldade nunca se repete, vai-se reciclando, tem outros contornos, mas existe, está lá.

 

Queres dizer que somos produto da maldade?

 

Claro. Somos um produto interno bruto de maldade com um défict altíssimo.

 

E rimos, rimos as duas como agora nos oiço e fazes-me falta para explicares onde está a ursa maior e a menor. Não percebo nada de constelações e tu sabes todas, não é? E sabes a etimologia das palavras. E fico apaixonada pela tua sabedoria e depois tenho a inveja dos saudáveis que é só admiração sem risco. Compreendes a solidão desta pele que se encarquilha? Compreendes que já não posso ter alma? Só tu, a ideia de ti, me salva do passo em falso que seria cortar a pele. Desenho o teu nome outra vez.

Acho que não te disse: comecei a roer as unhas.

 

publicado por Patrícia Reis às 11:07
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Sexta

Ele disse que era urgente o amor. A mulher viu o filme com o filho e tentou não pensar em nada. A urgência que sente só assusta.
publicado por Patrícia Reis às 11:19
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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

PALAVRAS MINHAS

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

 

Pedro Tamen in «Tábua das Matérias - Poesia 1956-1991»,

 

publicado por Patrícia Reis às 00:44
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Loulé, Biblioteca Sophia Mello Breyner

Hoje, às 21h30, lá estarei.

Tragam o corpo.

Falaremos de livros, de revoluções e de whisky.

Fatalmente.

publicado por Patrícia Reis às 00:31
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Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

acontece

publicado por Patrícia Reis às 00:28
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Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

a vida é tão rara

Para que saibas:

o carro da GNR esteve no pátio.

Há uma mulher complicada, uma criança triste e com dificuldades.

Depois existem os miúdos, armados em adolescentes espertos, queridos e complexos, com compreensão, sem compreensão.

O Verão fez-se ainda com mortes e histórias tristes.E, depois, com livros e música, conversas mais longas, silêncios quase eternos.

O silêncio, quando se instala, parece um céu estranho, ameaçador, confuso.

A palavra frágil tatuada na pele lembra-me quem somos, como somos, o que podíamos ser, o que fomos.

Em especial conta-me de mim.

E eu tento não pensar em mim.

Não tentamos todos? Pois.

Se queres saber, o Verão passou com a rapidez dos dias feitos de tarefas. Eu sou muito funcional, as tarefas ajudam. Há um buraco para onde posso ir e repetir, sempre sem as palavras certas, o que está e o que não está.

A vida é tão curta.

Não, desculpa: a vida é tão rara.

Diz uma canção, mas isso tu já sabes.

publicado por Patrícia Reis às 01:10
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