POEMA DO BECO
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.
Há um sítio onde se dança esta música. Costuma ser aos pulos. A Ana bebe uma cerveja, o Miguel tenta não se abanar em demasia, o Elvis queixa-se do joelho mas quando se levanta é uma chatice (ter um marido que dança é um consolo). E eu tenho saudades dessas noites de verão em que dançámos e rimos e era o melhor do meco por ser o melhor de nós. Agora chove. A cidade engole-nos com tanto ruído e tralha, gente e trânsito, o relógio que corre, corre... Mandamos mensagens. Rimos com as trapalhadas de cada um. Os miúdos trocam sms. Têm alcunhas: a foca, o remy ou rato. E, como diz o João, é uma família lógica com tudo o que isso pode ter de bom. É a aldeia. E a aldeia não nos engana. O vento é vento, a verdade é simples, as conversas duram o que for. Há noites de poesia, pode calhar. O Fernando a brincar com a crise e a Zé a fumar cigarros, sempre tão bonita. Pronto. É oficial, o inverno chegou na minha cabeça e tudo é mais complicado. Uma vez li, não te posso oferecer nada com futuro. É o que se passa na minha cabeça. Eu presa ao verão que já foi.
Passo a vida a dizer que a cabeça não nos comanda, nós comandamos a cabeça. Quer isto dizer, se for realista, que estou a dizer que os ossos e os órgãos do corpo comandam a cabeça ou que a voz interior é independente da cabeça?Não sei, uma coisa é certa: dói-me a cabeça há mais de 48 horas. Não há nenhum comprimido que me resolva esta questão e, pelos vistos, não há parte alguma do meu corpo que consiga meter ordem na cabeça. A voz interior? Já nem a oiço.
Corri conforme consegui ou consegui correr conforme me foi possível,ou outra variante. Segunda-feira? É o que dizem. Eu tenho anos impressos na pele e sempre a correr. Não me falem em maratonas. Sff.
Estou tão cansada que só posso dizer que a escritaria é um evento extraordinário. É preciso ver para crer. Em especial, na generosidade das pessoas.
Vou tentar explicar. As palavras atrapalham, o silêncio não é suficiente. Talvez não seja boa ideia ir por ali. Ir por aqui. Nunca se sabe. Quero explicar. O começo é difícil de entender, a continuação pior e o estado, latente, de quem ruma para o abismo é tão óbvio que pode ser assustador. Mas isso também não se explica. O melhor é permanecer quieto e não dizer, encolher os ombros, desistir. Explicar o quê? Posso responder, baixinho
Nada, estava a falar alto