Ela disse que era uma questão de sobrevivência. A outra acatou. Fizeram derivações sobre o tema. Dava para tudo. As duas mulheres riram-se. Ao telemóvel. Uma no escritório, a outra a guiar pela cidade, chamada em alta voz. Não decidiram nada, não havia nada a decidir. Tudo as transcendia. Uma disse
Precisava de não depender de nada. De ninguém.
Para isso, amiga, só a morte.
E foi assim que a chamada terminou.
Podia estar mais atenta.
Isto disse a mulher. O rapaz respondeu
Não vale a pena. Já passou.
Ficaram em silêncio.
Ele olhou para o telemóvel diversas vezes, ela manteve-se quieta, por vezes olhando-o como quem o vê pela primeira vez.
Achas mal?
O quê?
Isto. A vida.
É o que há.
Pois.
E tudo passa.
Era a música que tinha na cabeça enquanto pensava na mesa de cabeceira, do lado dele, branca, umas figuras de porcelana em cima, um candeeiro desligado.
Pensava nisso e no resto, o cansaço do corpo, um certo riso contido, uma lágrima, sempre tímida ou pequena, depois a luz a desfazer-se na janela e as ideias a fugirem.
Lá fora, no mundo, tudo seria diferente se a música se tornasse a banda sonora imediata do filme deles.