Sábado, 26 de Março de 2011

O Verão de Todos os Silêncios

 

Um livro escreve-se com muitas coisas: muitos outros livros já lidos e amados, alguns filmes e certas músicas. Durante muito tempo pensei que publicar não fazia muito sentido, porque já outros tinham escrito e dito muito melhor do que eu. Um dia, porém, pensei que a história destas mulheres podia ser contada a mais pessoas do que àquelas a quem habitualmente as contava, e foi assim que a ana B., e a MªJoão, e a Isabel e as saras passaram a ser personagens de livro. Nenhuma delas existiria, no entanto, se antes não as tivesse partilhado com os meus mais íntimos, próximos e cúmplices amigos, primeiríssimos leitores e ouvintes, copistas e críticos, anjos da guarda no difícil e esquizofrénico desdobramento identitário autor-personagem. Para cada um deles, o meu imenso reconhecimento - nem todas as palavras existentes no dicionário poderiam ser suficientes para lhes agradecer o quanto e como foram importantes. Sem

a leitura inteligente da patrícia, da margarida, da inês, da ana, da julieta, do álvaro, não haveria este livro. Sem a cumplicidade da isabel, da marta, do zé carlos, da bia, também não. sem a convicção da minha editora, tão pouco. sem a paciência infinita do manel e da rita e do toni, que diariamente asseguravam não só o quotidiano como a própria realidade, teria sido impossível. e ainda sem a certeza de que, quem não estando, continua a estar, gostaria destas estórias, nunca.

 

esta é uma estória que começou a ser escrita nas Canárias, em 2004, nos apartamentos Santiago, quando as mulheres ainda eram só 2. Mais tarde, em 2007, para que os dias e as noites tivessem menos silêncios dolorosos, inventei a estória duma outra mulher, uma desaparecida argentina, e contei-a a alguém de quem gostava muito. Depois, durante 2 anos, escrever tornou-se impossível, porque toda a linguagem comum não servia, todas as palavras do dicionário não chegavam para dizer a experiência do impossível. Um dia, porém, tornou-se-me claro que só o espectáculo da dor torna a redenção possível, e a narradora da estória surgiu, e com ela tudo começou a fazer sentido, as palavras, a lógica, a sintaxe, i.e, percebi o que era preciso sacrificar com violência para poder dilacerar a escrita.

Foi por isso que a leitura de Bataille, único traço comum a todas as personagens, me apareceu como evidente, porque só através da experiência interior se atinge a soberania; por isso também a insistência na leituras de Javier Marías e de Tomas Eloy Martinez, que escreveram sobre o mal e as suas derivações: o mal menor, o mal necessário, o mal absoluto, o mal radical.

Estas 4 mulheres, de quem a Filipa, Margarida, Ana e patrícia vão ler fragmentos de textos, conheceram todas a terceira margem da vida, a hora do lobo, e escolheram o silêncio como a defesa possível. Também o homem, a única personagem masculina do livro, perceberá um dia que é preciso inventar outras palavras para além do discurso e da língua das vítimas, palavras para exprimir o inominável, palavras transitórias que só serviriam determinado fim, apagando‑se em seguida da memória dos que as dissessem e escutassem, ele, que sabe o que é a insuportável questão moral: calarmos porque a verdade é insuportável e indizível ou contarmos para que a história não se repita.

Acreditam todos, penso que não ingenuamente, numa pátria de afectos e cumplicidades, naquilo a que uma das personagens chamará o bem absoluto ou a felicidade, por contraposição a esse mal que atravessa algumas das histórias, esse mal da região da alma oposta à fraternidade.

Fora outra a circunstância e cada uma destas mulheres e este homem poderiam ser um dos outros deste livro, numa espécie de jogo de cadeiras ou de pistas trocados como num livro policial (aqui amplamente referido) ou de reflexos nos espelhos em que nenhum deles se reconhece. Como nós todos, afinal.

 

Maria Manuel Viana,  a autora de  "O verão de todos os silêncios", edições Planeta, texto lido 25 de Março de 2011, livraria Barata/Leya em Lisboa.

publicado por Patrícia Reis às 09:22
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