Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

história pela manhã

Mulher, deixei uma carta para a polícia, com o número do psiquiatra e o nome dos medicamentos que engoli. Já tratei de tudo com a Funerária Barata, não precisas de te preocupar. Não quero velório ou flores. Não leves a mal o pragmatismo, é mais simples assim,  não quero causar mais problemas.

Quanto à dor nada posso fazer. A dor passa com o tempo. Como amor, de certa forma. Perguntarás a razão desta decisão, não foi impensada, garanto-te, há mais de um ano que me assalta. São muitos anos a viver com desconforto e sem nexo. São quase 70. Tenho o direito a ir. Dirás aos miúdos que os amo, dirás aos mais pequenos que me fui no sono. E pouco mais.

Podia dizer-te que foram anos muito felizes, mas não é verdade. O trabalho, as dificuldades, as coisinhas da vida, tudo a atropelar-nos sem mais e um casamento aguenta muita coisa, não aguenta tudo. Por muito tempo, pensei: ficamos juntos por causa dos miúdos. Agarrei-me a essa ideia. Os miúdos como um chão seguro. Fiz planos, um iria para medicina, o outro para engenharia ou arquitectura. Vê como a vida me trocou as voltas. Olha bem para eles. Como boa leoa, sairás em defesa dos teus meninos, mesmo que já tenham quase 40 anos. Faz parte da tua natureza. Uma das coisas que me levou a amar-te: essa estranha forma de lutar com a maldade da vida. Mas isso foi há muito tempo, passou-se metade de um século e agora já não me apetece mais. Já sei. Como sempre: egoísta até ao fim. Perdoa-me, então. Não é uma palavra adequada, é a palavra que tenho. Desejo que possas ir fazer a vida que queres, sem horas ou camisas, sem as minhas manias, o meu comodismo, as dores crónicas e as outras embirrações. Se te causei muito mal...sim, causei, desculpa. Morrer não é um consolo, será uma dor, já sei, apesar disso espero que possas brilhar nas horas estranhas a que gostas de ir ao cinema, arranjar o cabelo, jantar no restaurante no novo, ver a peça de teatro alternativa, numa tentativa vã de combater a idade. Tens ideia de que é isso que fazes? Talvez não. Agora pouco importa. Não te esqueças de dar água ao cão e de o levar à rua. Está velho, mais do que eu, mais do que tu. Tem idade de cão e não pode tomar estes comprimidos todos que aqui tenho. Beijo-te pela vida inteira

publicado por Patrícia Reis às 09:48
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3 comentários:
De Mário Dimas a 12 de Janeiro de 2012 às 19:34
Pois...É uma catarse mais comum que o que aparenta, esta de perder o interesse pela vida ou de o manter em letargia pelas mais diversas razões ou pela incomensurável falta delas. São os insondáveis mistérios da mente, latentes desde os primórdios da consciência da vida. O Meu avô materno suicidou-se. O Pouco que soube da sua história dava um livro. Recentemente obtive inesperadamente, informações que me mostravam o quão pesado era o fardo que ele carregava e, embora não tivesse deixado qualquer explicação, dificilmente teria outra saída no contexto social da época em que viveu. Inspirei-me nesta história para ficcionar uma das personagens do romance que estou a (…tentar) escrever. Qualquer dia mostro!


De paula a 21 de Janeiro de 2012 às 00:09
um namorado meu resolveu partir mais cedo. sem avisar, sem explicar. hoje, eu, com 48 anos, 21 anos passados, compreendo que temos esse direito. partir, escolher a hora de partir. a vida pesa e cansa, como diz o meu amigo pedro, e apesar de cada dia ser uma página em branco, os argumentos são cada vez mais vacilantes.
(quase nunca ponderamos o peso das palavras que deixamos por aqui soltas, ao deus dará... gosto do seu modo, patricia)


De Patrícia Reis a 21 de Janeiro de 2012 às 23:14
Um aluno, esta semana, escreveu sobre o poder da folha em branco, do seu mistério, das suas possibilidades. Era uma metáfora, pouco importa, a vida também é um pouco isso. Ir embora talvez possa ser um direito, hoje também compreendo isso e, apesar da compreensão, não consigo deixar de pensar no egoísmo atroz de tanta morte. Não sei. Hoje não o meu dia:) um beijo e bom fim de semana aos dois


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