Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

a desgraça de ser puta

Para que fique claro a palavra "puta" não tem, neste texto, qualquer género, até porque puta era o homem que se descartava às suas responsabilidades e a sua mãezinha não era tida ou achada para o assunto.

Portanto, a puta, no sentido masculino, se quisermos, olhou para os potenciais comensais com algum desdém.

Partilhavam o mesmo espaço, era preciso trabalhar e comer e a puta sabia, há meses, que tudo se transformaria em pouco tempo.

Ele era, digamos, o mestre, o autor dessa mudança drástica que, além de puta, lhe daria outros nomes menos apropriados. Estava decidido a avançar. Era um homem que demorava tempo, mas decidia. A seu tempo. Tinha até uma ideia vaga que podia acumular informações que lhe dessem, no futuro, qualquer poder.

Era uma ilusão. Qualquer um dos comensais lhe podia dizer que os emails podem ser alterados e que os sms também não são fiáveis. Ele não se ralava com esses pormenores, tinha levado o seu tempo de puta, decidira e, convicto da sua inteligência, preparava o fim do mundo.

Fez tudo conforme planeado, desenhando no palco uma cena de malabarismo digna de qualquer prémio de representação. O mundo não caiu como previsto e, dois meses depois, já ninguém proferia o seu nome. Ou das duas açafatas que com ele congeminaram o plano, o golpe, com base em informações que, sabe Deus, só o Diabo podia ter tecido.

A mulher que tinha estado ao lado da puta durante muito tempo não se sentiu atropelada ou magoada. Sentiu-se aliviada e depois triste. Afinal, as açafatas eram piores que a puta e este, sendo homem, até podia ser descartado, mas mulheres capazes de traição e bradando aos céus a sua potencial amizade com palavras e gestos? Não, tudo isso era demasiado triste. Com a puta no seu carril, as açafatas correram atrás e o cenário transformou-se para melhor.

De repente, a mulher começou a ver o azul do céu e, longe de muitas coisas estranhas que lhe acontecem por norma em dias que outros tendem a compreender como vulgares, ela soube que o destino estava traçado há muito.

Lembrou-se de casamentos, exposições de pintura, brincadeiras, gravidez, crianças, seguros e férias, consolos e terapia, consultas pagas e, feita a lista do deve e haver, mandou a puta para o raio. E ele, que já tinha ido, sentiu o raio mesmo no centro da cabeça, o corpo dividiu-se e tudo terminou em beleza. Era uma puta, podia dar a volta às coisas.

As outras duas? Pouco importam, já ninguém se lembra dos nomes, dos gestos, das brincadeiras, do potencial talento, apenas do roubo, da deslealdade, da cobardia de não darem a cara.

A mulher pensou em tudo isto, meses depois do terramoto emocional, da descarga de dinamite que seria suposto tê-la atingido de forma mortal.

Encolheu os ombros e enviou um email aceitando mais um trabalho.

Sim, a vida é tramada. E não é para as putas. Porque a sorte dá muito trabalho.

Tão simples, afinal.

publicado por Patrícia Reis às 20:48
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3 comentários:
De Mariana Gouveia a 25 de Fevereiro de 2013 às 23:07
Engraçado como nunca compreendi verdadeiramente o que era a sorte. Às vezes escolhemos abraçá-la e fingirmos ser Deus, noutras temos raiva da dificuldade que a vida nos traz e envolve-mo-nos em silêncios. É caso para dizer "Sei lá".


De Um Jeito Manso a 26 de Fevereiro de 2013 às 01:04
Seguir em frente sempre. Os cães que ladram, os safados e a sua pequena corte, as pedras no caminho... tudo insignificâncias. Podem atrapalhar momentaneamente mas para a frente é que é caminho.

E mais uma voltinha mais uma viagem. Sempre. A viagem é longa, não há que perder tempo com os escolhos.


De Anónimo a 26 de Fevereiro de 2013 às 15:21
the force is with you, querida.
um beijo,
Alex


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