O estômago continua na mesma, mas a mulher faz de conta que é uma mulher sem maleitas, logo pode ir ao café, beber um chá, ouvir os barulhos do moinho dos grãos, ver as poucas pessoas que por ali andam. O café é um ponto de encontro e, por isso, fica a saber quem vai trabalhar para Lisboa, que parece tão distante, quem vai para a praia, aos cavalos. Aqui não se brinca aos pobrezinhos, é uma aldeia de pescadores e quem está é por ter uma casa, alugada, de família, antiga, a cair, com o estoque na parede que teima em revoltar-se. Tudo o que aqui se passa é do conhecimento geral. Não é uma aldeia. É um jornal ou uma casa comum sem tecto. A mulher bebe devagar. Cada vez que o estômago se contrai, ela aguenta. Passa meia hora, vinte minutos, a considerar as cutículas, as peles das unhas. Isola-se na cabeça, já não ouve os pedidos - meia torrada, uma queijada, um sumo de melancia, um café cheio -, não ouve nada. Reconhece que estaria melhor em casa, na cama, mas custa-lhe essa ideia de solidão. Não o admite, mas é verdade: a solidão tem sempre duas faces. Hoje a máscara que usa é a pior.