Domingo, 25 de Agosto de 2013

Querido Eduardo

São seis anos e em seis anos muita coisa mudou.

Tu nem imaginas a capacidade para a asneira que temos. Todos. Sem excepção.

Às vezes, oiço: as saudades do Eduardo Prado Coelho, ele teria coisas a dizer sobre isto.

Terias muito que dizer e escrever, acredita. Não sei se estás preparado para alguns choques no cenário político, por isso deixo-te em paz com isso, não é relevante. Talvez até achasses divertido como a coisa se passa. Talvez fosses tu pioneiro na informação ao leitor e conseguisses explicar o que é uma swap. Sim, esta gente acha que a malta com setenta - a malta que ainda compra jornais - sabe o que é uma swap. Aliás, usam-se tantas palavras inglesas ou americanas, como se queira, que o acordo ortográfico já não merece discussão digna de nota. Deixou de ter assim que Angola mandou dizer que não adere. Aliás, Angola manda dizer muita coisa e faz outras tantas. Pouco importa.

Tenho de te agradecer o título do meu livro, a MM mandou-me o teu artigo, escrito para a Colóquio, sobre "A Barragem contra o Pacífico" de Duras e lá estava a palavra que eu procurava: contracorpo. Pois, saiu. Um dossier de imprensa muito bom. Vendas? Nada de monta, como diria o meu tio-avô. O que não deixa de ser curioso considerando que tenho quase cinco mil amigos no Facebook (não tens ideia de como o Facebook se tornou um café virtual de exposição, divulgação, frases da treta, partilha de poemas e músicas, pequenas mensagens, é como um catalisador de emoções que todos usamos para estarmos acompanhados às duas da manhã).

O mercado está podre e as editoras não mudam, acreditam piamente que fazem o mesmo há mil anos e que tudo acontecerá assim. O mesmo aconteceu com a música e, de repente, com o itunes, tudo mudou. Os músicos estão aflitos, os escritores idem, não sei se há uma profissão cuja aflição seja inexistente. Leio Stieg Dagerman, para consolo, para meu consolo, para consolo dos meus, mas pouco importa a evidência de que somos nada perante a exigência da vida. Tu terias alguma coisa para dizer sobre isto. 

Consta que irão publicar mais umas coisas da tua lavra, espero que não te importes. Não sei pormenores, desculpa. Perdemos o Urbano, já o deves ter encontrado aí, no céu dos escritores, como dizia o meu mais velho há muitos anos. O que lhe devemos? Muito. Pouco se fala da liberdade, pouco se sabe da democracia ou da cidadania, atingimos um ponto muito baixo, estamos no poço. Apesar disso, há coisas boas.

A MM traduz, tem um livro novo - belíssimo -, a Inês escreve e está feliz. O Mega escreveu seis cartas de Casanova passadas em Lisboa depois do terramoto de 1755, são uma delícia. O novo livro de poemas de Pedro Tamen lê-se e lê-se e nunca mais termina. Chama-se Rua de Nenhures. O Jaime Rocha também tem um livro novo. Bom, livros não faltam. Há um escritor por cada metro quadrado do país. Gostarias dos novos, alguns. Tenho a certeza. E não terias um discurso paternalista. Claro que te ofenderia a arrogância de uns tantos, mas a arrogância é da idade. E passa, tudo passa.

Querido Eduardo, seis anos depois da tua morte, ainda tenho o teu número de telemóvel e, se ligar, a MM atenderá. A vida também é isso. Uma saudade que fica suspensa. Beijo-te daqui.

publicado por Patrícia Reis às 00:08
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7 comentários:
De Anónimo a 25 de Agosto de 2013 às 08:25
Gostei muito, muito, de ler o que escreveu, aqui e no Delito.
Um beijo e um :)
Antonieta


De MM a 25 de Agosto de 2013 às 09:21
Começara, dias antes, a esforçar-se por não pensar na data que aí vinha, inventando 1001 tarefas, daquelas que preenchem as horas e não dão espaço a outros pensamentos, ler, ler muito, ler noite dentro autores difíceis, densos, em línguas que a obrigassem a uma concentração ainda maior, levantando-se muito cedo, antes ainda de o sol nascer, para se sentar em frente ao computador, à procura das palavras exactas e perfeitas para a tradução daquele romance que, desde a 1ª página, desejara muito traduzir, pensando sempre que gostaria de ter sido ela a escrevê-lo, era um tema tão seu, afinal, os livros que traduzia eram os que lamentava não ter escrito, por isso sentia-os muito seus, as frases a surgirem-lhe evidentes, numa heteronímia que a magoava e lhe dava prazer, diz heteronímia para não dizer esquizofrenia, e neste 25 de agosto acordara muito cedo, dormira mal, aos soluços, os pesadelos a multiplicarem-se numa noite difícil, já sabia que seria assim, era-o sempre, de há 6 anos para cá dormia em sobressalto, com a sensação de que tinha de acordar para evitar o inevitável, e esses sonhos, desassossegados e inquietos, eram preferíveis à realidade crua da manhã, quando acordava e percebia que, afinal, nenhum gesto poderia restituir-lhe essa outra manhã em que o passado e o presente se tinham coligado para impedir que o futuro existisse.
Como em todos os 25 de agosto, põe uma gota de um tubo verde, acqua qualquer coisa, no rosto, perto do nariz, para que esse cheiro a faça regressar, mesmo que por instantes muito (demasiado) breves, mesmo que com com a clara consciência do engano, a esse cheiro outro que lho devolve, inteiro e a sorrir (vê-o sempre a sorrir, sempre) e, então, diz-lhe devagarinho
Bom dia
E sorri-lhe também.


De Patrícia Reis a 25 de Agosto de 2013 às 10:53
sim, sorrir e dizer bom dia, sim, saber já dos pesadelos, sim, ler pesados, sim, ser escritora também através dos livros que amamos, sim, às madrugadas mais estranhas, às palavras procuradas como tesouros, sim, a não estar sozinha. Nunca estás sozinha.


De Lotta Bengtsson a 27 de Agosto de 2013 às 09:16
Só agora encontrei o seu blog e vou ler e ler e ler...
Todas essas palavras belas e inteligentes do amor e da vida.

É com surpresa que leio que lê Stig Dagerman! Existe traduções deste autor em português???

Lotta Bengtsson
tradutora sueca



De Patrícia Reis a 27 de Agosto de 2013 às 10:18
Olá Lotta:) Sim, existe uma edição que já não se encontra, de uma editora cuja existência não sei se se mantém, a Fenda. Seja bem vinda ao blog. Bj


De Lotta Bengtsson a 27 de Agosto de 2013 às 12:06
Deve ser o seu livro mais lido sobre o homen que, após a morte da sua mãe, apaixona-se pela nova mulher do pai.

Infelizmente o escritor morreu demasiado cedo, tendo trinta e um anos. No seu túmulo se lê as suas palavras (muitas vezes citadas na Suécia):

Morrer é viajar um pouco
do ramo à terra firme

Lotta B


De Carlos Pinto a 31 de Agosto de 2013 às 17:55
Ao ler este texto fiquei curioso, nunca tinha lido um livro seu. Embora não o tenha dito explicitamente eu senti das suas palavras a decepção como se nos dissesse: este meu livro merece ser lido, vale a pena ser lido!

Estando emigrado, mais um da nova vaga, a versão digital veio a calhar. Obrigado por permitir, outros autores portugueses não o fazem, não sei porquê, não sei se é decisão da própria editora?

Depois de ler o livro compreendo porque senti o que senti, quando li este texto há uns dias atrás.

Coloquei um comentário na FNAC porque acho que este livro merece, e no meu Facebook para os amigos.

Parabéns! é um bonito livro.


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