A mulher tem dificuldade em dizer do vazio que a enche, um vazio que chega à cabeça. Fica num silêncio que lhe parece doente e, de repente, percebe que tudo lhe parece doente. Repete-se. Para dentro. Sempre para dentro. Na rua, mesma ali perto, há alguém que se ir, uma gargalhada que fere, apenas a ela, a mulher que escuta. Não se lembra de como se faz uma gargalhada. Dos poemas que leu aprendeu a fazer azul, mas gargalhadas? Não. Tem a noção perfeita, mais que perfeita, da teoria e da prática, o que as distancia. Conhece bem quem diz que A está certo e depois faz B. Portanto, em teoria ela deveria saber as componentes de uma gargalhada, mas é segunda-feira e não consegue perceber nada, é o tal vazio ou outra coisa qualquer.