A chuva não se via. Mas estava perto, a mulher sentia-lhe o cheiro, antecipava o toque na pele, na roupa e tinha frio. O frio vinha de dentro da cabeça, como tudo, o resto. Fosse o que fosse. Tentou ficar imóvel por mais uns segundos, o despertador arrancou enlouquecido. Ela não se moveu. Deixou que o ruído fosse a banda sonora da vida que começa. Não tem para onde ir, não sabe pedir socorro. O corpo não se mexe como devia, a cabeça já está numa maratona de longo curso. Se fosse diferente não seria ela. Era suposto ser ela. Não abdicar de nada e ser. Dizer ao mundo que, com chuva ou sem ela, a sua existência era mais forte e quem não quisesse aturá-lá estava à-vontade. Por momentos, considerou que os outros não estavam apenas à-vontade, agradecia que ficassem onde estão e se esquecessem dela. Seria mais interessante. Ou não.
A chuva virá na mesma e a solidão é a de sempre.