Se contasse tudo devagar, sem pressa, ficaria como que num lamento, a voz baixa, as palavras bem desenhadas, um cantar sussurrado de outros tempos. O mais difícil não será dizer baixo ou gritar, será apenas dizer. A mulher pensou que muitos a consideram faladora, tem opinião, é frontal. Bruta. A maioria, mesmo que o negue, irá dizer que é um exagero, não é assim, ela é apenas inconveniente, impertinente, desbocada. Pode ser. Pouco lhe importa. As mesmas pessoas que estão convencidas desse retrato de fachada, um retrato a cores recuperado com artes de photoshop, não ouvem o silêncio dela.
Só há um homem que a ouve e, mesmo quando está longe, tão longe, na rua da frente, num outro país, abraça-a com cuidado e deixa-a contar, devagar ou depressa, sabendo que ela nunca dirá tudo. Ele tão-pouco. Dizer tudo seria sempre demais. Para os dois. Para o mundo. Para o dia que se segue. E a vida precisa de se fazer. Logo a seguir ao abraço. Mesmo que longe.