O homem podia gritar, preferia fumar.
Junto ao vidro da janela imensa pensou no mar, no outro lado, numa outra ideia de si.
Em tempos.
O centro de tudo era uma existência que fazia sentido, paralela à vida dos outros, sem ter de andar a sós nos pensamentos a vaguear. Saber viver. O que é isso?
Respira fundo e acende outro cigarro. Sabe que não devia, mas sabe tanta coisa que repete, para quê ralar-se?
Se fosse um pintor. Se fosse um músico. Se fosse outra pessoa.
Do outro lado da janela, uma mulher passava num passo lento. Parecia que dançava. Tinha um sorriso torto e parecia dizer
Vou andando. E tu?
Olhava-o.
Ela lá fora, no vendaval, ele retido em casa. Ela a vê-lo, a imaginar-lhe uma vida. Ele sem saber o que lhe dizer.
Decidiu abrir a janela, sentiu o frio, o corpo encolheu-se, o cigarro brilhou e a noite a cair, a cair de repente. Fez um gesto com a mão. A mulher retribuiu e desapareceu.
É fácil desaparecer. Voltou a fechar a janela. Alguém o chamava.
Era o seu nome e já não era ele.