Sábado, 28 de Dezembro de 2013

Vou andando

O homem podia gritar, preferia fumar.

Junto ao vidro da janela imensa pensou no mar, no outro lado, numa outra ideia de si.

Em tempos.

O centro de tudo era uma existência que fazia sentido, paralela à vida dos outros, sem ter de andar a sós nos pensamentos a vaguear. Saber viver. O que é isso?

Respira fundo e acende outro cigarro. Sabe que não devia, mas sabe tanta coisa que repete, para quê ralar-se?

Se fosse um pintor. Se fosse um músico. Se fosse outra pessoa.

Do outro lado da janela, uma mulher passava num passo lento. Parecia que dançava. Tinha um sorriso torto e parecia dizer

 

Vou andando. E tu?

 

Olhava-o.

Ela lá fora, no vendaval, ele retido em casa. Ela a vê-lo, a imaginar-lhe uma vida. Ele sem saber o que lhe dizer.

Decidiu abrir a janela, sentiu o frio, o corpo encolheu-se, o cigarro brilhou e a noite a cair, a cair de repente. Fez um gesto com a mão. A mulher retribuiu e desapareceu.

É fácil desaparecer. Voltou a fechar a janela. Alguém o chamava.

Era o seu nome e já não era ele.

publicado por Patrícia Reis às 00:10
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