Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016

sexta-feira

Por esta ordem, decidiu que precisava de um copo de vinho, um jantar maravilhoso, uma viagem de carro em silêncio, um livro realmente extraordinário com mais de 500 páginas, sapatos confortáveis e de perder o telemóvel. Estaria tudo bem se assim fosse, podia ser que conseguisse, quem sabe?, afinal é o meio da tarde. É pena que os sapatos de salto alto sejam só giros, de resto criminosos, e esses não podia descalçar de imediato. Não havendo garrafa de vinho, livro ou jantar tão cedo, a mulher resignou-se com um suspiro contido. Não valia a pena fazer muito barulho.

publicado por Patrícia Reis às 16:41
link do post | comentar
Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

quinta-feira

Há quanto tempo é que não dás uma gargalhada? O homem olhou-a interrogativo. Ela considerou a hipótese de explicar o que é uma gargalhada, não um esgar ou um sorriso alargado, mas uma gargalhada. Abriu um livro e mostrou uma fotografia. Era uma criança a rir e o homem abanou a cabeça e disse: perdi tudo isso há décadas.

publicado por Patrícia Reis às 16:40
link do post | comentar
Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

quarta-feira

As coisas mais pequenas são o consolo de quem perde a noção da sorte, a sorte gigante de se estar vivo. A mulher ouviu tudo isto com calma, mantendo a pose séria e depois pensou: problemas são de saúde e a sorte dá muito trabalho, o consolo que se lixe.

publicado por Patrícia Reis às 16:39
link do post | comentar
Terça-feira, 15 de Novembro de 2016

terça-feira

Havia um ruído de fundo que não era só o trânsito ou uma rádio a tocar, antes uma orquestra alargada de corações que latejavam na garganta da mulher. De repente, apeteceu-lhe e deu um grito. O mundo parou por nanosegundos, o tempo do grito atingir o resto. Ninguém considerou a razão e a mulher afastou-se, muito aliviada, tendo recuperado o seu único coração, os outros mudaram-se para uma orquestra mais sofisticada.

publicado por Patrícia Reis às 16:37
link do post | comentar
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016

segunda-feira

A correr, a correr, já nem está frio, o casaco é de pele, a bodega do cachecol deveria ter ficado em casa, a mulher nem a mala conseguiu trazer, o corpo acelera e parece que está no pico do verão. A um minuto da hora combinada está em frente à porta do homem com quem vai reunir. Respirou fundo. Pediram-lhe para esperar. A mulher não soube o que responder.

publicado por Patrícia Reis às 15:51
link do post | comentar
Sexta-feira, 4 de Novembro de 2016

sexta-feira

A mulher desceu o Chiado com uma lentidão estranha, o corpo a evitar qualquer coisa, talvez a dor ou o conjunto de dores, não importava, a mulher descia o Chiado, vendo os turistas e os outros como ela. Na mala um livro de Millás e o gosto de saber que é sexta-feira. Depois, num repente, alguém gritou o seu nome e a mulher pensou que não queria conhecer ninguém. Era tarde.

publicado por Patrícia Reis às 16:42
link do post | comentar
Segunda-feira, 31 de Outubro de 2016

segunda-feira

A resolução, absoluta, radical, permanente, infinita, aplicar-se-ia um dia: a mulher passaria à clandestinidade. Não se sabia quando seria esse dia, mas era certo que seria de vez. A mulher encontrava algum consolo nesse futuro e na ideia de ser outra, calada e invisível. Era pena não conseguir decidir hoje, era bom se fosse hoje, não era capaz. Ainda se chovesse.

publicado por Patrícia Reis às 13:45
link do post | comentar
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

quinta-feira

São muitos quilómetros, muitas árvores e carros, segundos que se perdem para fazer. O que for. A mulher resigna-se à viagem, sabendo que uma vez no sítio não deixará de sorrir à esquerda e à direita, sempre em sentido, como alguém que cumpre um desígnio. A outra mulher estará por perto, vigilante, a tentar captar tudo o que é dito, a pensar mais rápido do que seria de esperar a tal hora. No fim, dariam as mãos se fossem esse tipo de amigas. Não precisam de dar as mãos, sabem-se sobreviventes e estão uma com a outra.

publicado por Patrícia Reis às 16:46
link do post | comentar
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016

quarta-feira

Respira fundo, enrola a cervical, externo, isso, mantém, omoplatas no sítio, respira.  Uma hora a tratar do corpo para depois passar o resto do dia a pensar que é preciso inspirar e expirar. Podia ser pior.

publicado por Patrícia Reis às 16:34
link do post | comentar
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016

segunda-feira

São as razões da falta de razão que a ocupam durante a noite, um novelo de intrigas que constrói, convence-se de que o faz por um capricho, por considerar que não merece uma noite de sono. Depois há a dor de cabeça, mas isso não interessa nada.

publicado por Patrícia Reis às 19:56
link do post | comentar
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016

sexta-feira

A felicidade com pernas, era a mulher nesse dia, a atravessar a rua, a sentir de novo os ossos e a pensar no pastel de nata que podia comer se parasse dois segundos na Versailles, mas como não tem dois segundos, continua a pensar no sabor, até que se materializa na boca, vá-se lá saber porquê, e a mulher sorri com a cara toda. Um miúdo vem na sua direcção, atravessando a avenida caótica, e sorri-lhe. Qual pastel de nata, qual quê.

publicado por Patrícia Reis às 12:01
link do post | comentar
Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016

quinta-feira

Estás a perceber?

A mulher assinalou a compreensão com um ligeiro ruído e a outra continuou a debitar coisas sobre a vida, contas para pagar, incompreensões, gente estúpida e, no fim de tudo, perguntou

E tu estás bem?

A mulher respondeu que está óptima. Era a resposta esperada. Prova superada.

publicado por Patrícia Reis às 18:51
link do post | comentar
Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016

quarta-feira

aproximou-se da ravina ciente de que estava pronto para se atirar, incapaz de olhar para trás. O coração saltou do peito e assim se cometeu suícidio emocional, foi o que a mulher contou e ninguém deve ter ouvido porque não chamaram os bombeiros, não mandaram uma equipa de resgate. O coração tinha pouca importância.

publicado por Patrícia Reis às 19:39
link do post | comentar
Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

terça-feira

Do meu ponto de vista as escadas estão a dançar, os degraus não se mantêm quietos e talvez vá cair, de novo. Isto pensa a mulher a tentar sobreviver aos quinze passos que tem de dar, pensa, concentra-te, uma perna, depois a outra, agora finge que tens comichão e pára porque uma paragem é a garantia de chegar ao fim. A mulher tem esta vertigem com escadas e esse arrepio surge com mais frequência. Há dias ouviu-se dizer que vive com medo de tudo, embora disfarce bem. Todas as mulheres são boas actrizes.

publicado por Patrícia Reis às 23:44
link do post | comentar
Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

quinta-feira

O homem decidiu colocar a chamada em voz alta, e uma mulher esganiçada surgiu de repente, uma poluição sonora inexplicável. Debitaram palavras que formavam frases e estava tudo certo. A mulher, ouvindo a chamada alheia, encolheu-se numa cadeira demasiado grande e reparou que no chão estava um pacote de acúçar. Leu qualquer coisa sobre ter paciência e amor. Pensou que wifi também é necessário. E tampões para os ouvidos.

publicado por Patrícia Reis às 19:31
link do post | comentar

por este mundo acima_

Por este mundo acima

pesquisar neste blog_

 

arquivos_

Os Livros_

Clique na imagem

para comprar o livro.




















subscrever feeds