Mais de dois meses.
O meu amigo morreu em casa e a vida continua.
É um pouco estúpido pensar na injustiça da morte, se tantos morrem, todos os dias, sem razão.
O meu amigo aparece-me em sonhos e joga playstation.
Eu não telefono à minha amiga todos os dias, mas penso nela todos os dias. Somos assim.
Tudo é um segundo e nós a pensar nos segundos do futuro ou do passado que não se podem mudar.
A estupidez humana é muita? É a cada um quer ou toma para si.
Esperança é uma palavra de futuro.
Não vale a pena ter esperança que tudo tivesse sido diferente.
Demasiados "ses", tantos que cabe um cachalote numa caixa de fósforos.
Há quem viva assim e acumule culpas e receios, tenha medo do tempo e do que o tempo traz. Não se rala com o momento que vive, aquele segundo preciso, está demasiado ocupado com queixas e pensamentos circulantes. Pergunto à minha amiga
Então, bruxa?
E ela responde, com o mesmo tom de voz
Tudo fixe. E por aí?
Pergunto a outras pessoas, pessoas diferentes que não perderam o marido, o companheiro de 30 anos, o pai de dois filhos e, invariavelmente, a resposta é
Ah, ando triste, farto-me de chorar, estou tão cansada
Ou sucedâneos desta conversa da treta.
Se todos fossem como a minha amiga?
O mundo era melhor.