Segunda-feira, 23 de Junho de 2014

A esperança do passado

Mais de dois meses.

O meu amigo morreu em casa e a vida continua.

É um pouco estúpido pensar na injustiça da morte, se tantos morrem, todos os dias, sem razão.

O meu amigo aparece-me em sonhos e joga playstation.

Eu não telefono à minha amiga todos os dias, mas penso nela todos os dias. Somos assim.

Tudo é um segundo e nós a pensar nos segundos do futuro ou do passado que não se podem mudar.

A estupidez humana é muita? É a cada um quer ou toma para si.

Esperança é uma palavra de futuro.

Não vale a pena ter esperança que tudo tivesse sido diferente.

Demasiados "ses", tantos que cabe um cachalote numa caixa de fósforos.

Há quem viva assim e acumule culpas e receios, tenha medo do tempo e do que o tempo traz. Não se rala com o momento que vive, aquele segundo preciso, está demasiado ocupado com queixas e pensamentos circulantes. Pergunto à minha amiga

 

Então, bruxa?

 

E ela responde, com o mesmo tom de voz

 

Tudo fixe. E por aí?

 

Pergunto a outras pessoas, pessoas diferentes que não perderam o marido, o companheiro de 30 anos, o pai de dois filhos e, invariavelmente, a resposta é

 

Ah, ando triste, farto-me de chorar, estou tão cansada

 

Ou sucedâneos desta conversa da treta.

Se todos fossem como a minha amiga?

O mundo era melhor.

publicado por Patrícia Reis às 00:00
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