A conversa era sobre João sem Medo, como deveria ter sido feito um filme, se Ivo Canelas seria um actor ideal ou nem por isso. Tudo se passava à mesa, um jantar normal. Depois de terminada a refeição, a mulher levantou-se e começou a arrumar pratos. Num gesto pequeno, que não consegue identificar, ficou sem se mexer. O corpo traiu-a sem qualquer anúncio prévio. Uma dor na lombar, uma dor que pode ser ciática ou outra coisa, a perna a tremer até ao joelho, uma dor de lágrimas a escorrer. A mulher pensou que só uma coisa a podia salvar: um comprimido, ou dois. A seguir, em passos de gueixa, agarrada a tudo e todos, deitou-se. Está melhor? Sim, muito melhor. O que a atormenta é a traição do corpo. Permanente. Repetida. Cada vez maior. Sempre inesperada e lenta. Demasiado lenta para a cabeça dela. Dormiu à conta de um comprimido e teve sonhos sobre os quais não quer falar. Para quê? Sonhos são nuvens que nos ocupam e perturbam. Nada mais. Sentada na cama, sabe que lá fora está frio. O corpo lembra-a, nesse preciso segundo, que vai doer, se ela insistir, irá cobrar cada gesto, todos os movimentos e intenções. Volta à imobilidade.