Casei com uma mulher que tem medo de trovoadas. Não é medo. Pavor é a descrição. Ela enrola o corpo, coloca as mãos na cabeça e, quase a chegar aos quarenta anos, fica em posição fetal, uma criança desprotegida. Aquela mulher que sabe tudo, resolve, pontifica, protesta e ri alto, reduz-se à emoção primitiva do pavor assim que o céu aparece riscado. Faça eu o que fizer. Nos primeiros tempos, falava-lhe alto, por cima dos trovões. Contava-lhe coisas que achava engraçadas, piadas estúpidas de que ria sozinho, o som do meu riso misturado com a trovoada. Depois optei por lhe fazer festas na cabeça, no joelho, na mão, onde conseguisse chegar. Agora limito-me a ver. Ela apavorada. A fazer chi chi nas cuecas, a pensar que não vai aguentar. Ela num mantra interior: acaba já, acaba já, acaba já.
Quando morri, no mês passado, houve uma grande trovoada depois da meia noite, já o velório findado. Imaginei-a perto da morte na casa que fora nossa e que agora é só dela. Aqui onde estou consigo apenas imaginar, não a vejo. Má sorte. Aprendi a amá-la quando estava cheia de medo. E agora lamento que não possa lá estar, sempre que há trovoadas, para assistir a esse pânico que desfaz, por fim, a mulher com quem casei.