Todos os dias a mesma coisa, acordar cedo, demasiadamente cedo. O frio na casa de banho, a roupa pronta na cadeira, a mala, a porta que se fecha à chave com um jeito especial. A rua ainda escura, um parque semi-escuro de carros adormecidos, o vento nas mãos e, na esquina, a porta da pastelaria. O empregado arruma as cadeiras empoleiradas umas nas outras. Sorri com a má disposição habitual. Serve-lhe o café, o caracol sem frutas cristalizadas. Nas montras de vidro sujo, os ovos da Páscoa confundem-se com as garrafas de laranjada espanhola. Bebe o café, trinca o bolo, apetece-lhe um copo de água. O relógio marca as sete da manhã. Já falta pouco. Ela entrara com o barulho dos saltos altos, olhos no chão, uma mala enorme com uma revista a espreitar. Passara mesmo junto a ele com um olhar de reconhecimento. Todos os dias o mesmo. Há dois anos. O emprego contorna o balcão uma vez mais, finge limpar qualquer coisa e põe-lhe à frente um croissant com fiambre uma meia de leite. Ficam assim durante algum tempo. O relógio anuncia as sete e meia e o senhor do quiosque dos jornais entra.
Então, senhor doutor, o Benfica ontem à noite? Aquilo é que foi uma tareia.
Nessa altura, ela deixa as três moedas, duas de duzentos e uma de vinte e, sempre com o mesmo barulho ritmado dos saltos, passa a porta para se ir embora. Mas amanhã, amanhã quando entrei dir-lhe-ei
Bom dia, como está?