Então, naqueles minutos em que li, depois de perceber a enorme insensibilidade, a falta de memória, o terror de te saber sozinha, decidi que não podia telefonar, por saber que tens o telefone desligado.
Tentei puxar-te nos meus pensamentos, fazer dos meus os teus e perceber como estás, mas não sei, nunca sei e, ao mesmo tempo, sabemos sempre tudo uma da outra. Por seres o tal avesso. E há ainda o outro lado que nos liga, algumas pessoas, certos livros, muitas músicas, poemas, filmes, actrizes de cinema francês.
Quando tu te atrasas, por te saberes longe, correndo para dar aulas que já não dás, digo-te eu que nunca estás atrasada. E ainda hoje, alguns de nós, beneficiam das tuas aulas, do teu imenso amor de dar, porque o teu amor é um amor que dá. Não quer nada, não reclama, não cobra.
Dás-te-me. Tu dás. Nós, que recebemos, devíamos estar mais atentos e ontem foi um dia parvo de coisas parvas, histórias que não têm qualquer importância de tão banais e escrevo banais por ser um código. Tu a insistires, faz-te de mulher banal. E eu a dizer que não sei e, depois, em tantas coisas, ambas, à espera do momento do fumar o cigarro, a pacificar tudo, a descodificar A e B para que C não pense que D anda com E e é E, afinal, é mesmo aquela monstruosidade que sabemos, F já tinha avisado, mas não quisemos acreditar. Podia continuar com todas as letras do alfabeto, tu sabes.
E enquanto lês, um livro que não consegueria pegar por falta de força nos pulsos, estás aí e eu aqui. Se fechar os olhos oiço o miar da Afonsina ou será apenas um personagem de um livro? O que importa a realidade quando o chão se mexe? Se te perguntar, tu percebes, percebes sempre. Mas não tens resposta. Eu também não.
Dou-te-me. Todo o meu amor. Mesmo que a memória falhe.