Às vezes, é preciso desobedecer, disse Salgueiro Maia.
A mulher pensou se a frase seria verdadeira, considerou a história e acatou.
Na sua vida trocou os "às vezes" por "quase sempre".
Desobedecer é um abismo de liberdade permanente que a obriga a ver as coisas que não quer e a não ver as que tem. Alguém perguntou
Sabes o que tens?
Ela sabe, mas é desobediente. Podia ser uma mulher com uma agenda normal, encaixar no padrão, ficar à vista de todos a forma certeira com que seguiria os passos dos outros.
Desobedecer está nela, na sua essência.
Desobedecer é ela. Mesmo quando acata. E acata muitas coisas.
Engole silêncios, telemóveis mudos, mensagens que não chegam, momentos de paz adiados.
Pinta com outras cores tudo o que lhe é devolvido sem explicação.
E trabalha. Está sempre a trabalhar. Para que a desobediência não seja tão evidente e a dor possa minguar.