O homem na varanda fala pausadamente.
Bebe de modo igual e até o cigarro dura mais tempo.
O tempo dele é outro.
Esta Lisboa que vê da varanda não lhe diz muito. Não lhe diz nada.
O homem na varanda não vinha a Portugal há quinze anos.
É um dos meus cunhados.
Tem uma história. Pormenores, alegrias, acidentes que desconheço.
Três netas com nomes que soam a estrangeiro - yumi, la salette, alanis - e a fotografia da mulher, na carteira, uma fotografia a preto e branco quando Teresa andava pelos dezoito anos.
Do meu cunhado (des)conhecido, que nunca tinha comido gaspacho e insistiu que o nosso cão é do sexo oposto, ficou-me um sorriso.
E a noite terminou assim.
Ele ficou na varanda, com os irmãos, eu recolhi ao quarto. O cão à cozinha.
Não há nenhum barulho. É sexta-feira e falta vinte e quatro minutos para a meia noite.