Terça-feira, 20 de Maio de 2014

Estrelas para desejar

O meu nome é Joey Luft. Dizem-me que Luft, em alemão, quer dizer ar. Pode ser que sim. Nunca me preocupei com isso. O mundo, felizmente, nunca se preocupou em saber de mim. Já não se pode dizer o mesmo de uma das minhas irmãs. São escolhas que se fazem. A minha irmã chama-se Lorna Luft. A outra tem um apelido mais sonante. Para o mundo o nome da minha segunda irmã, em estrelas, com as luzes da ribalta, em posters e capas de disco é Lizza Minnelli.

Sim, isto quer então dizer que sou filho de Judy Garland, a rapariga dos sapatos vermelhos na estrada amarela à procura de Oz, longe do Kansas, longe de casa. O filme, glorificado até hoje, é uma boa metáfora para a vida da minha mãe que morreu, de overdose (para quê disfarçar e mentir?) aos quarenta e sete anos de idade. Eu era muito pequeno. As pessoas tinham a mania de me cantar

 

When a star is born
They possess a gift or two
One of them is this
They have the power to make a wish come true

When you wish upon a star
Makes no difference who you are
Anything your heart desires will come to you

If your heart is in your dream
No request is too extreme
When you wish upon a star
As dreamers do
Fate is kind

She brings to those who love
The sweet fulfillment of their secret longing

Like a bolt out of the blue
Fate steps in and sees you through
When you wish upon a star
Your dreams come true

When you wish upon a star
Makes no difference who you are
Anything your heart desires will come to you

If your heart is in your dream
No request is too extreme
When you wish upon a star
As dreamers do
Fate is kind

She brings to those who love
The sweet fulfillment of their secret longing
Like a bolt out of the blue
Fate steps in and sees you through
When you wish upon a star
Your dreams come true

 

E, durante muito tempo, eu deixei que a canção fizesse parte de mim, como faz parte do imaginário colectivo de tantas gerações já. Não queria lutar contra a minha mãe e, por outro lado, saber que a letra foi escrita por ela dava-me uma certa tranquilidade. Hoje não a posso ouvir, confesso.

A minha irmã, a Lizza, canta-a. Ainda agora, imagine-se. Sobra-lhe um fio de voz ou, como diz com a graça de sempre, há um engenheiro de som com um programa que faz milagres e ninguém desafina. A coisa das fífias foi-se, morreu com a tecnologia. Lorna diz que qualquer um pode ser cantor. Não creio que seja verdade. Sempre existiu alguma competição entre as duas e eu faço por ignorar. Todos sabem quem é Lizza Minnelli, ninguém se lembra de uma pobre e fraca actriz chamada Lorna Luft, certo? E não se pode dizer que a minha irmã não se tenha esforçado. Vejam na wikipédia, tenho a certeza que foi ela mesma quem escreveu aquela página, apesar disso... vale a pena espreitar. Triste é a fotografia: loira, o cabelo curto e tão longe, tão longe da imagem da nossa mãe. A determinada altura, parecia que o sucesso estava numa parceria com Lizza. Não teve o resultado esperado. Sempre ouvi dizer que negócios e família são bons quando estão distantes.

Lizza é mais parecida com a nossa mãe. Os traços do rosto, a voz, a forma de colocar as mãos, tudo nela mostra os genes de Judy Garland. Eu oiço-a. E vejo a vida dela com o mesmo receio com que li os livros e notícias sobre a minha mãe. O mundo é cruel. É a conclusão a que chego e, se os seus sonhos tivessem ficado no ar, como o meu apelido, talvez o destino fosse mais carinhoso. Era tudo o que ela queria? Sim. Isso e a fama. Nunca esquecer essa pequena palavra que, pensa-se, dá poder.  

A fama inebria, faz com que possamos sair da nossa pele, transfigura-nos. A minha mãe viveu presa numa vida de espectáculos, sempre com o olhar mais triste de todos, mesmo nos filmes, mesmo a fazer de qualquer coisa. Sim, porque a minha mãe fazia qualquer coisa. Interpretar estava-lhe no sangue, cantar era natural e tinha estudado dança. Estava, digamos, formatada para o mundo do espectáculo, como se fosse uma espécie de destino dramático antecipadamente infeliz.

A minha mãe casou-se cinco vezes, divorciou-se quatro – Lorna e eu somos produto do terceiro casamento, acho eu, perco-me nas contas -  e a brincadeira é dizer que não viveu tempo suficiente para entregar os papéis para uma quinta separação.

Ela esperava tudo do amor. O amor não esperava nada dela.

Os homens sugavam-lhe a alma. Os produtores, realizadores, guionistas, músicos, todos os que a seguiam, não a tratavam como uma diva. Nada disso. Estava gorda. Tinha de aprender a falar melhor. Tinha de ser assim ou assado, como fosse, mas nunca como era. Era urgente ser outra. E a minha mãe fabricou essa outra que dá pelo nome de Judy Garland e que hoje é um ícone. Ela chamava-se Frances Ethel Gumm. Do momento em que nasceu ao momento em que morreu, com fama e glória, muitos comprimidos e droga, Judy matou Frances que é o mesmo que dizer que matou a minha mãe. Teve ajudas, é certo. Recebeu o seu primeiro Óscar com a sua interpretação no filme “O Feiticeiro de Oz”, um Óscar infantil. E depois foi arrecadando prémios com uma velocidade extrema, sempre com o mesmo sorriso, a agradecer, o corpo inclinado para o lado direito, um sorriso a três quartos.

Mas tudo começou antes, a praga estava lançada ela ainda não tinha nascido. Os meus avós eram malta do espectáculo, como se dizia então. Com dois anos e meio, a minha mãe juntou-se às minhas tias para subir ao palco e representar um espectáculo natalício. A minha avó atacava o piano no teatro do marido. As netas eram sensação. E depois a história conta o percurso normal: mudar de cidade, descobrir os mistérios do cinema, ainda os anos trinta do século XX estavam por chegar. Frances Ethel Gumm não era muito atraente e, inspirada por uma canção de Hoagy Carmichael, a minha mãe opta por se transformar em Judy. Há outras versões, já sei, mas prefiro esta e, sinceramente, com a minha idade, posso escolher a que me apetecer. A minha irmã disse a um jornalista qualquer que a nossa mãe escolheu o nome... Já não me recordo qual era a razão. Como dito, pouco importa.

 

I could go on singing

 

Fui coleccionando recortes de jornais e de revistas, tenho imensa tralha acumulada, tralha que não me devolve sequer o cheiro da minha mãe ou a memória dela sem ser infeliz, a cair, quase a cair, a chorar outra vez. Há uma certa tendência para a tragédia nas cantoras e actrizes como ela, disse-me um médico. Em especial quando começam muito novas. Pode ser que sim. Judy Garland assinou contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer tinha 13 anos. As belezas da época autora eram Ava Gardner, uma das senhoras Sinatra, Lana Turner, Elisabeth Taylor. Com tanta perfeição, a minha mãe sentia-se uma espécie de patinho feio que nunca se tornaria um cisne e, se formos sinceros, não era uma mulher bonita, era outra coisa, tinha um encanto especial. Gosto de a ouvir cantar You made me love you. A primeira vez que cantou foi numa festa de aniversário de Clark Gable e, mais tarde, num filme olhando para a fotografia dele. Tenho também imensas fotografias com Rooney, mas se formos alinhar todos os actores com quem contracenou nunca mais saímos daqui. Os estúdios, as exigências, os produtores, os filmes, tudo isso lhe roubou a infância, a adolescência e até a idade adulta. Nunca seria ninguém fora daquilo e já não aguentava a pressão, os prémios, os fotógrafos, os elogios da crítica. Tudo junto não lhe davam segurança ou alegria, levavam-na ao oposto, até a tentativas de suicídio, internamentos em instituições especializadas em depressões. De algum modo, a minha mãe e a sua história são o clássico exemplo do que era a vida em Hollywood. Do que ainda é a vida em Hollywood.

O mais curioso? No dia em que nasci, a minha mãe estava nomeada para o Óscar de melhor actriz na 27ª edição dos Óscares. Grace Kelly levou a estatueta para casa e depois, presumo, para o Mónaco. A minha mãe, no hospital, dizem que sorriu e, mais tarde, recebeu um telegrama de Groucho Marx dizendo que o facto de ter perdido era “o maior roubo desde Brinks”. Hoje ninguém percebe a piada e eu estou velho e não me apetece contá-la. Estou como a minha mãe esteve em tempos, tenho uma sentença de morte dada pelos médicos, o que alivia de uma certa pressão face à vida, tenho de admitir. Judy Garland, a minha mãe, lutou contra a doença, ainda cantou e desiludiu e encantou novamente. Depois morreu de uma overdose que um médico, porventura um fã, terá classificado como “acidental”. Foram mais de vinte mil pessoas ao funeral. Eu não conseguia respirar.

Se há mais histórias? Sim, muitas histórias e muitas outras que a minha irmã Lorna conta no seu livro, incluindo a parte em que diz que a nossa mãe pediu o divórcio alegando que o meu pai era violento. Sobre isso não quero falar... Aliás, se não se importam, desliguem lá as máquinas. Por hoje terminamos. Amanhã podemos gravar outra vez.

 

 

publicado por Patrícia Reis às 16:16
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