Segunda-feira, 10 de Agosto de 2015

Fictiongram, continuação

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onde o futuro será político apesar de mulher

Carmen vislumbrava pontualmente uma Carlota de fato saia e casaco, formal, em comentários na televisão, sempre naquele tom rápido de quem já pensou em argumentos e contra-argumentos. Mais tarde ou mais cedo, o partido onde milita iria convocá-la para outros voos. Mas não falavam sobre política. Agora, Carlota ainda tinha trinta e poucos anos e, como se sabe, nessa idade ainda se é pouco. Ou quase pouco. Em especial na política, para mais sendo mulher.  

 

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onde a amizade obriga

Carmen sentiu-se velha. Hesitou na resposta. Consciente das ferramentas de fiscalização do facebook, sabendo que a mensagem seria vista como tendo sido lida pelo receptor, um “v” de “visto”, sem qualquer vitória, que a atraía e obrigava a uma resposta. Suspirou.

Iria jantar com Carlota e teria, por fim, de a enfrentar. Até ao momento não tinham falado sobre Jaime ou a separação. Não era um tabu. Carlota respeitava o silêncio e o tal desgosto.

 

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Onde se chega a um ponto em que não se sabe de nada

A primeira vez que jantaram, pós separação, a destruição era tão evidente no rosto da amiga, que Carlota começara por perguntar

O que foi? Carmen, o que foi?

Encolhera-se no cadeirão confortável, acendera um cigarro e fizera sinal ao empregado para dizer que era o costume e um cinzeiro, se faz favor. Depois, tentara olhar para a amiga, os olhos caíram em lágrimas e Carlota teve o bom senso de dizer

Falamos de outra coisa. Já te contei que inventaram uma conta com o meu nome no Yahoo? Imagina! Além de ser perigoso, é muito perigoso, pergunto-me o que escreverão fazendo-se passar por mim. Enfim, fiz uma denúncia e agora é esperar e ver. Já te contei que temos um novo colega lá no escritório? Pois temos, e já é sócio. Há coisas que deixam uma mulher simplesmente cansada...

 

 

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onde falar é impossível

E continuou a palrar, a encher o silêncio, sabendo que não estava a ser ouvida. A amizade também é isso. Carmen mal tocou na carne, bebeu o vinho a copo e pediu um segundo apenas com um gesto e olhou pela montra, ficam sempre perto de uma mesa que dá para a rua, olhou sentindo que estar ali era uma forma de morte. Carlota não se atemorizou. No dia seguinte mandou sms

Estás bem? Precisas de alguma coisa? Queres falar?

Carmen respondeu

Ainda não consigo falar.

 

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onde tudo é obrigação

E passou trinta dias, até ao jantar seguinte, numa não-existência de repente possível por terem terminado as aulas. Ser professora assistente não era uma tarefa fácil. Carmen controlava minimamente o que tinha em mãos e o professor estava desejoso de rumar a Guimarães onde tinha uma quinta de família. Não se preocupou com as olheiras da assistente, a súbita magreza, a falta de palavras. O Verão estava aí. Se havia problemas, pois que os resolvesse e, de preferência, longe dele. Alguns alunos mandaram emails, Carmen esforçou-se por responder. A sua existência ter sido derrotada pela separação não podia significar mais do que isso, ou seja, estava ciente de que era preciso viver e manter um determinado registo.

publicado por Patrícia Reis às 19:00
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