Terça-feira, 18 de Agosto de 2015

Fictiongram, continuação

 

Carmen tinha com o pai uma relação distinta. Como se vivessem uma vida escrita em duas linhas paralelas. Quando o pai ia a casa da avó, brincava com Carmen, perguntava pela escola e ainda, um dia, atreveu-se a dizer em voz alta que seria bom ela estudar.

“Assim, filha, podes herdar o consultório e o esqueleto.”

Carmen nunca considerara medicina, estava mais interessada em endireitar o mundo, tinha um fascínio pela lei e pelos contornos, curvas e contra curvas de um sistema que mal entendia. Lia de fio a pavio o jornal que a avó comprava todos os dias. Sabia coisas que os pais não sabiam, sabia pormenores da história actual que escapavam ao pai e, sinceramente, não considerava sequer possível estudar para ser médica e herdar o tal esqueleto que pendia os ossos logo na entrada do consultório. A avó, entendendo os seus silêncios, os ombros encolhidos, arrumava o assunto com alguma facilidade.

“Direito. Alguém tem de estudar Direito. O Martim que vá para Medicina. A Carmen seguirá o curso do teu pai, Deus o tenha.”

“O Martim? Ó mãe...”

“Se não têm mão no Martim, não mo digas. Avisei, avisei várias vezes que o teu casamento...”

“Mãe, por favor.”

 

O pai jantava no escritório, pontualmente às oito, o tabuleiro seguia nas mãos da mãe, depois de verificar que Isabelinha não trocara a ordem dos talheres, que o guardanapo estava imaculado. Não olhava sequer para as crianças. E, sempre que o fazia, o alvo era Martim. O único alvo do seu afeto que se resumia a um gesto rápido, um afago na cabeça.

 

Carmen fez um esforço maior. Podia ser que a infelicidade da mãe conseguisse fazer com que visse que tinha uma filha, ela, Carmen, a menina que não se distinguia em nada, apenas nas notas medianas e altas a Português e História. Afinal, o irmão... Carmen herdara o nome da avó paterna e essa figura pequena, sempre vestida de negro, com rendas e cabelo num carrapito, uma personagem dos livros, era a salvação dos seus dias. Ia buscá-la ao colégio, faziam juntas os trabalhos de casa, lanchavam e Carmen regressava a casa dos pais apenas para o jantar, sendo certo que, durante a semana, jantava na cozinha com a Isabelinha, a empregada interna, e o Martim a fazer asneiras com a comida e a irritar a Isabelinha que quase chorava de desespero.

 

Carmen saíra de Coimbra para estudar em Lisboa. Era uma jovem com boas notas de uma família com algumas posses. Tratava os pais na terceira pessoa do singular. Frequentara um colégio religioso. Mantivera um silêncio composto e muito cómodo, deixando ao irmão mais velho, Martim, o papel de rebelde e de coleccionador de castigos vários. Não se destacou em nada. Carmen frequentou aulas de ballet, mas nunca teve qualquer graciosidade. Experimentou, durante um trimestre, o piano, incapaz de entender uma palavra do que o professor dizia:

"Um tom? meio tom? A menina está a ouvir?"

Martim ria-se sozinho. Chegava tarde. Não dava justificações. Quando chegou à adolescência, o irmão um ano mais velho do que ela, foi o responsável pela seguinte frase:

"A adolescência é a época mais infeliz de uma mãe."

 

Reencontro. Carlota seria a sua salvação. Animou-se. Não tendo ninguém a quem provar que a vida é um acto de lucidez apesar de um coração desfeito, Carmen considerou o vazio instalado. O seu deserto humano. Com excepção dos alunos, que lhe permitiam a sensação inebriante de ter um palco, de brilhar através do conhecimento, não havia mais ninguém. Vítima de solidão ou vítima de pensamentos pouco realistas? Talvez ambas as teorias fossem válidas.

 

Uns meses depois, convenceu-se de ​que estava a perder a memória, não tinha tanta certeza das palavras atiradas no vazio da casa, na cama, no carro. Era como se ele se estivesse a desfazer e, apesar disso, sempre na sua pele. Jaime, a sua cicatriz.

Acedeu ao jantar com Carlota, ao ritual, mentalizando-se de que teria de explicar o mínimo, talvez fosse possível arranjar um pouco a cara, qualquer coisa passível de desfazer aquele terramoto em que tinha sucumbido. Carlota merecia algumas respostas. Carmen prontificou-se a verbalizar a separação. Era um passo concreto na direcção de qualquer coisa. Reconstrução. Reabilitação.

 

Com Carlota estava à vontade, não lhe era crucial falar e a outra podia intuir com facilidade o que acontecera​. Os pormenores são irrelevantes numa separação, pelo menos no que toca aos amigos. Para Carmen, era precisamente o contrário: vivia em função da memória dos pormenores, na esperança de que tudo tivesse sido diferente. Era capaz de rever mentalmente diálogos em que Jaime dissera determinadas frases.

 

E passou trinta dias, até ao jantar seguinte, numa não-existência de repente possível por terem terminado as aulas. Ser professora assistente não era uma tarefa fácil. Carmen controlava minimamente o que tinha em mãos e o professor estava desejoso de rumar a Guimarães onde tinha uma quinta de família. Não se preocupou com as olheiras da assistente, a súbita magreza, a falta de palavras. O Verão estava aí. Se havia problemas, pois que os resolvesse e, de preferência, longe dele. Alguns alunos mandaram emails, Carmen esforçou-se por responder. A sua existência ter sido derrotada pela separação não podia significar mais do que isso, ou seja, estava ciente de que era preciso viver e manter um determinado registo.

publicado por Patrícia Reis às 19:58
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1 comentário:
De Maria Gabriel Sousa a 18 de Agosto de 2015 às 23:06
Sabes o que é que eu gosto na tua escrita? É que não se estranha. Entranha-se logo. ;-) Beijinhos


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