Terça-feira, 25 de Agosto de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

onde um afago rápido podia ser a salvação dela

O pai jantava no escritório, pontualmente às oito, o tabuleiro seguia nas mãos da mãe, depois de verificar que Isabelinha não trocara a ordem dos talheres, que o guardanapo estava imaculado. Não olhava sequer para as crianças. E, sempre que o fazia, o alvo era Martim. O único alvo do seu afecto que se resumia a um gesto rápido, um afago na cabeça.

 

onde se explica o papel do pai e outras inconfidências

Carmen tinha com o pai uma relação distinta. Como se vivessem uma vida escrita em duas linhas paralelas. Quando o pai ia a casa da avó, brincava com Carmen, perguntava pela escola e ainda, um dia, atreveu-se a dizer em voz alta que seria bom ela estudar

Assim, filha, podes herdar o consultório e o esqueleto.

Carmen nunca considerara medicina, estava mais interessada em endireitar o mundo, tinha um fascínio pela lei e pelos contornos, curvas e contra curvas de um sistema que mal entendia. Lia de fio a pavio o jornal que a avó comprava todos os dias. Sabia coisas que os pais não sabiam, sabia pormenores da história actual que escapavam ao pai e, sinceramente, não considerava sequer possível estudar para ser médica e herdar o tal esqueleto que pendia os ossos logo na entrada do consultório. A avó, entendendo os seus silêncios, os ombros encolhidos, arrumava o assunto com alguma facilidade

Direito. Alguém tem de estudar Direito. O Martim que vá para Medicina. A Carmen seguirá o curso do teu pai, Deus o tenha.

O Martim? Ó mãe...

Se não têm mão no Martim, não mo digas. Avisei, avisei várias vezes que o teu casamento...

Mãe, por favor.

 

Onde a fé salva do convívio triste de uma família que não o é

A conversa entre a avó e o pai repetira-se algumas vezes e Carmen percebera que a avó não aprovava o casamento do filho. Não era apenas a conversa, era a impossibilidade de ir a casa dos pais, de preferir o almoço de Natal no hotel mais afamado de Coimbra a pretexto de que a consoada era um momento de pré reflexão para a missa do galo. Carmen fez a catequese, primeira comunhão, crisma. Não questionou. A avó ficava encantada com o seu silêncio, era uma menina dócil, uma jovem agradável, uma adulta pronta para ir para Lisboa, com boa cabeça. O contrário do irmão, já se sabe, mesmo que Martim não estivesse preocupado com nada.

 

onde se relata o sucesso de Martim, o irmão marialva

Com o dinheiro herdado do avô, o mesmo que podia aceder aos 21 anos, tal como a irmã, montou um negócio nocturno. Era assim que lhe chamava a avó: negócio nocturno, um bar com uma pista de dança cujo sucesso foi imediato. Depois deste bar, Martim abriu mais nove pelo país e tornou-se um empresário de sucesso, sempre desprezado pela família ​por falta de canudo e de estabilidade. Carmen explicara a Carlota o marialva que era o irmão

Ele sabe as regras. Tu para quebrares as regras tens de as saber e ele sabe, ignora por opção. Sempre escolheu a liberdade acima de tudo.

E tu escolheste o quê?

Escolhi não fazer barulho. Depois vim para Lisboa.

Aqui também não fazes muito barulho, Carmen, tens a melhor média da turma...

Isso não quer dizer nada.

És certinha.

Sou. Não faz mal.

 

onde a história de vida não interessa

Carmen revive tudo isto sem conseguir perceber onde a vida, aquela vida, terminou. Quando é que se tornara uma mulher sem normas, a cobrar e a dizer a Jaime tudo o que pensava, pela simples razão de não conseguir estar calada. A avó não a reconheceria. Em noites de enlevo amoroso, chegara a afirmar como teria sido importante ter a avó viva, como ela aprovaria a pessoa de Jaime na sua totalidade. Não era verdade. Agora podia pensar assim.

publicado por Patrícia Reis às 18:35
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