Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

Onde Jaime ocupa espaço na cidade

Jaime não pensa em Carmen. Não pensa sobre a Carmen. Ela é um não assunto. Conduz pela cidade sem perceber que os cabelos dela ainda sobrevivem nos estofos do automóvel. Enumera tarefas mentalmente sem entender que, nesse instante em que considera a sua agenda, o seu horário, as coisas da vida, Carmen medita nos contornos do rosto dos dois. Era uma fotografia que tinham tirado por mero acaso, parecia que se confundiam, duas sombras estranhas. Ela mantinha a imagem; ele eliminara tudo o que se relacionava com aquela mulher com quem gostaria de ter gritado e, afinal, fora bonzinho. Jaime estava convicto da sua gentileza, do seu estatuto de cavalheiro.

 

 

Onde o vermelho é sangue, só sangue

Agora que já se conseguia ver ao espelho, percebia que a vida podia ser outra coisa. Na cidade, sem se deter nos dramas do trânsito, rotunda, ultrapassagem perigosa, semáforo inesperado, peão fora da passadeira, Jaime percebeu que estava atrasado. Impaciente guinou o volante para a esquerda, subiu a avenida, considerou os dois parques de estacionamento, mas conseguiu um lugar para o automóvel acabado de comprar. Vermelho sangue. Carlota iria gostar.

 

Onde a mudança é uma ilusão

No pequeno restaurante bem afamado, Jaime manteve os óculos escuros. Carlota estava atrasada. Pediu uma cerveja. Depois considerou, voltou atrás, viu a carta de vinhos, escolheu um alentejano. Carlota gostava de bom vinho. Na penumbra segura das lentes graduadas, o restaurante era um enorme desconhecido, pessoas a comer e a falar, pessoas que não sabiam nada de nada sobre a forma como o mundo gira dentro da cabeça de Jaime. O irmão tinha-o avisado

És o que és, não vais mudar.

Preciso de mudar, Paulo.

Não funciona assim, Jaime, desculpa. Para mudares tens de querer mudar e tu não acreditas nisso. Não verdadeiramente.

Não sabes nada sobre mim.

Sei tudo, mano, sei tudo.

 

 

Onde as palavras são assinatura

Jaime ouviu a mulher falar sem entender uma palavra. Era bom estar assim, focado nos lábios dela, a dança dos lábios, da língua, da boca que engolia um risotto qualquer, o vinho tinto a ser pintor, roxo, roxo nos lábios que não se calavam. Jaime nunca gostara de Carlota. Nunca gostara muito, nem pouco. Não pensara nisso. Estava fascinado com a boca dela e percebia na sua entoação algo de familiar, um registo, uma forma de falar com certas palavras. Percebeu que as palavras

Evidentemente

Sabes?

Pois...

eram palavras que Carmen usava. O mimetismo das amigas perturbou-o. Manteve-se calado. Quando tirou os óculos, por fim, Carlota sobressaltou-se

Jaime! O que aconteceu?

 

 Onde uma história de violência toma conta do resto

Jaime exibia um olho emoldurado em sangue pisado. Carlota insistiu, ele suspirou e explicou que fora assaltado depois do ginásio, há dois dias. Ela, muito célere, advogada na sua essência, quis saber pormenores. Jaime fez o relato com o maior número de pormenores, ciente de que a história do assalto iria ocupar o resto do almoço e, consequentemente, não teriam a conversa esperada, o inevitável tira-teimas que as mulheres têm por hábito querer possuir: o conhecimento, o porquê das coisas. Jaime não queria falar de Carmen e continuava a sentir que os lábios de Carlota podiam ser outra coisa.  

publicado por Patrícia Reis às 17:49
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