Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

onde Laura começa a trazer destroços

Paulo e Jaime tinham crescido numa família pouco convencional. A mãe casara três vezes, eles eram fruto do seu amor de adolescência, aquele com quem casou aos dezassete anos para se separar três anos depois. Paulo tinha dois anos, Jaime tinha dez meses. O pai decidiu-se pelo Brasil e, até aos 12 anos do filho mais velho, manteve-se fora do radar dos afectos e das necessidades. A mãe, Laura, ria-se com facilidade, deixava os miúdos em casa dos amigos, dos tios, e trabalhava no que havia. Depois do amor que se esgotou nos dias mais jovens, Laura teve mais dois maridos, Jaime tentava não pensar nisso. Paulo tinha assumido o papel de pai. Laura brincava

O meu mini marido

 

onde assim não dá

Jaime não entendia a mãe, amava-a e isso era o bastante. Paulo entendia a mãe com facilidade estranha, até nos silêncios a conseguia ouvir pensar. Paulo amava a mãe e conseguia manter um nível de ódio latente, sempre pronto para a criticar.

 

Mãe, não vês que assim não dá?

Assim não dá era a expressão-chave da relação entre os dois.

 

 

onde o lençol esconde o medo

Jaime observava. Mantinha a sua distância, sempre resguardado pelo irmão, afastado dos melindres do dia a dia. A primeira vez que Paulo ficou sozinho com Jaime tinha cinco anos. A mãe tinha um trabalho, relações públicas num festival de música e de moda. Jaime não se recordava exactamente. A memória devolvia-lhe apenas a ideia de um lençol em cima da cabeça, o corpo quente do irmão ao lado, ele que repetia

Ninguém vem cá a casa, ninguém vem cá a casa

 

onde um clássico é um clássico

A mãe. Paulo convencera-se de ​que Laura era o motivo para o desarranjo emocional de Jaime.

Estás sempre à procura da mãe.

Lá estás tu...

Diz-me que não é verdade. Nenhuma mulher te serve. É um clássico.

Maldita a hora em que foste estudar psicologia, Paulo, não há pachorra.

Desculpa, mas tenho razão. Queres fazer uma lista das tuas namoradas e ver como são todas do mesmo modelo da mãe?

Do mesmo modelo?

Do mesmo género.

Paulo, ficamos por aqui.

Assim, a coisa não se dá, Jaime.

 

onde o sabor não é doce

OK, a coisa não se dá, Jaime acatava e, recolhido, dentro de si, revia as namoradas. Todas parecidas com a mãe. Sem a gargalhada e aquele ar de eterna menina, a brincar com a colher de pau pela casa

Anda cá, anda cá que eu vou mostrar-te como é que se faz um bolo.

Os bolos da mãe sabiam sempre a farinha.

 

publicado por Patrícia Reis às 18:01
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