Terça-feira, 15 de Setembro de 2015

Fictiongram, continuação da continuação

onde o amor é nómada, a mãe é diferente das outras, a cumplicidade dos irmãos assusta, a mãe se tenta organizar, a coisa não se dá

Jaime e Paulo. A mãe espalhava as fotografias dos filhos pelas divisões todas. Nasciam nas casas onde moravam. Mudavam-se muitas vezes a pretexto de uma renda mais barata, do desejo de ter um espaço maior, uma varanda, uma determinada vista para o rio, do pouco dinheiro que existia na carteira de Laura. Os miúdos não se queixavam, eram nómadas mas tinham amor; eram diferentes, mas tinham amor; eram desregulados nos horários, mas tinham amor. Tudo se complicou quando Paulo foi para a escola primária. Laura, a mãe, era incapaz de o entregar a horas. Jaime chorava o dia inteiro.
A mãe dizia

 

Não chores, não chores.

 

Jaime sentia a falta do irmão. Deixou de falar. Paulo diria, muito mais tarde, que era um cenário “clássico” de abandono. Laura podia ser diferente de todas as outras mães, podia ser “saliente” – assim a designara a directora da escola -, porém era solidária. Durante meses, para que Jaime não chorasse tanto, Laura ficava à porta da escola com ele. Sentavam-se debaixo da árvore gigante que, reflexiva, deixava a sombra a protegê-los até às quatro da tarde. Paulo saía a correr, a bata cor de laranja cheia de nódoas. Jaime levantava-se e o abraço era imenso, não tinha fim. Era mais do que irmãos, eram protectores de Laura. Do céu que tinham em cima da cabeça.  

 Carlota não sabia nada da história aflita dos irmãos pequenos. Carmen suspeitara. Durante o tempo em que namorara com Jaime, via-o a falar com o irmão ao telemóvel. Várias vezes por dia. Eles tinham silêncios que eram momentos de cumplicidade que ela, a namorada, não entendia. Depois havia as brincadeiras que eram só deles e um jantar, matemático, infalível, às quartas-feiras, que não permitia qualquer intruso. Carmen contara a Carlota

 

Jantam. Até podem ver um jogo de futebol no restaurante e não dizer nada, mas jantam. Toda as quartas-feiras. É muito irritante.

Eu acho querido.

Pois.


Quando Jaime chegou aos dezasseis anos, Laura acabara de fazer trinta e três anos. Mantinha o mesmo emprego há meses. Uma novidade. Gostava de trabalhar no café, era uma estrutura de madeira com vista para o Tejo, uma pequena zona com livros e almoços tardios aos domingos. Laura sorria e bailava entre os pedidos, de mesa em mesa, como se fosse o seu destino dizer coisas como

 

O sumo do dia é maçã​e laranja.

 

A festa de Jaime foi no café onde a mãe trabalhava. O actual​ marido era dono do estabelecimento e estendeu-lhe a mão.

 

Parabéns, miúdo.

 

Paulo detestava este terceiro marido. Nunca diziam o seu nome. Era “o tipo”. Com uma bolsa de estudo, na Faculdade, o irmão de Jaime optou por sair de casa e fez um ultimato à mãe

 

Vou levar o Jaime. Tu não tens condições.

Não vais nada.

Vou, mãe, é melhor.

Paulo...

Assim a coisa não dá, percebes? É melhor para ele.

 

Saíram os dois, um no liceu, outro na faculdade. Os jantares eram feitos com latas de atum e salsichas. Jaime dava explicações. O dinheiro era inexistente. Viviam num quarto de estudante. Na Faculdade, Paulo era considerado um aluno brilhante ​em Coimbra. Ninguém sabia que com ele vivia o irmão que gostava de ver as estrelas deitado no alcatrão.   

publicado por Patrícia Reis às 19:04
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